quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O médico e o monstro - bom x mau?

Aproveito minha reflexão sobre o filme "O Médico e o Monstro" de Rouben Mamoulian (1931), feita para o meu blog de cinema (www.allycenourinha.blogspot.com) e adapto quase na íntegra aqui neste blog, pois foi inevitável nesta escrita, não fazer relação com os textos que estamos vendo na aula de Teorias da Educação sobre Platão e seus conceitos sobre justiça, amor, medida e afins.


"O Médico e o Monstro" de Rouben Mamoulian (1931), é uma entre várias versões adaptadas para o cinema, do livro (título original em inglês: The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde) de Robert Louis Stevenson , publicado em 1886.

Cito uma passagem que extraí de um site, sobre o livro, para fazer o gancho com o filme:

"A história de Stevenson baseou-se na vida dupla de um habitante de Edimburgo, na Escócia, chamado William Brodie: de dia ele era um respeitado marceneiro; à noite, roubava as casas dos moradores da cidade.
A história se passa em Londres, no final do século XIX, centro urbano com quatro milhões de habitantes. Devido ao grande contraste econômico entre os industriais (cada vez mais ricos) e os miseráveis (cada vez com menos oportunidades de emprego e vida digna), Londres passou a ser palco de inúmeros crimes horríveis. Justamente por isso, em 1829, foi criada a Scotland Yard, que se tornaria mais tarde reconhecida por sua eficiência em resolver crimes e por tomar parte das inúmeras páginas das histórias policiais inglesas."
(Disponível em: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/o/o_medico_e_o_monstro

O filme de Rouben Mamoulian, é protagonizado pelo ator Fredric Marcha, que vive o personagem com dupla personalidade, Dr. Henry L. Jekyll - o médico e Mr. Hyde - o monstro.
Diante do progresso de Londres, o médico, noivo de uma bela dama, dialoga com seu amigo advogado, Dr Lanyon, sobre a possibilidade do homem possuir duas personalidades, uma boa e uma má. Por ser agente da ciência, Dr. Jekyll acredita ser possível extrair do homem, tudo que existe de ruim e assim, permanecer só o que é bom, como se um não dependesse do outro. Ele acredita na possibilidade, defendendo-se como um curioso, como o curioso e insatisfeito cientista que criou a lâmpada e colaborou para o progresso (que ele cita no filme), evitando deixar Londres às escuras ou dependente de mecanismos primitivos e limitados. Dr. Jekyll acredita nos sacríficios a favor da ciência, do progresso. (retrata esse pensamento ao deixar uma carta para a noiva, caso sua experiência científica dê errado).
Em vários percursos do filme, Dr. Jekyll confronta o amigo, promovendo a reflexão de que nele (e em nós espectadores) existem dois lados, do racional e irracional, daquilo que reside na consciência e inconsciência, do feio e de belo. Atitudes que controlamos e instintos incontroláveis. Mal natural que habita o feio, pois para Platão, por exemplo, o bom habita o belo (ou o belo no bom). E o amor deseja o belo. Não um belo, padrão de beleza, limitado e rotulado, mas o belo como conhecimento, verdade, sabedoria, justiça, medida, filosofia.
Dr. Jekyll então, ao permitir o conflito entre sua própria natureza, entre o que considera certo e errado, bom e mau, quando é seduzido por uma meretriz ao defendê-la de um cafetão, (sendo um bom homem) deixa fluir o desconhecido, o instinto, a paixão carnal, atração que inunda o racional, e acaba sendo confrontado pelo amigo advogado: "O que você está fazendo? Você é noivo!" Dr. Jekyll aproveita a deixa para reforçar seu discurso de que algo de tentador reside em sua natureza e provoca o amigo, afirmando que na natureza de todo homem é assim, portanto para combater o mau, basta isolá-lo.
Com isto, em suas experiências de laborátorio, Dr. Jekyll, cria uma "poção mágica" e faz de si uma cobaia, tomando a poção e sofrendo uma transformação física. No lugar do belo e bom doutor, surge um monstro (ainda que pictórico no filme, por ser antigo) mau e feio. Monstro que se considera livre, como livre nos sentimos ao saciar um desejo, ao seguir um impulso, ao perder o controle e seguir instintos. Lugar onde reside o prazer, a paixão, o irracional. Monstro dentro de todos nós, que precisamos controlar diariamente, para não nos desordenarmos diante das regras impostas pela sociedade. Não exatamente regras como "o certo," mas aquilo que permite a convivência civilizada (se é que ela é possível). Aproveito e cito Carl Jung, quando diz que o conflito entre duas naturezas fundamentais é necessário para o equilíbrio. (fazendo referência à consciência e inconsciência humana) É necessário conhecer-se por inteiro e saber lidar com os próprios conflitos, que sempre irão existir e fazem parte do crescimento pessoal como ser humano.
Dr. Jekyll então torna-se o monstro inconseqüente Mr. Hyde. E na experiência de liberdade, fica cada vez mais difícil para o médico, não tornar-se Hyde, pois o prazer aflora os instintos, e a curiosidade habita o homem.
Ao se deliciar com o mau, com o prazer carnal, como o homem e mulher que se rendem ao prazer do sexo e "traem" o compromisso formal assumido com seus companheiros e companheiras, o mesmo faz Dr. Jekyll com a noiva, ao deitar-se com a meretriz que antes o seduziu, enquanto era bom e belo. A meretriz que antes via somente o bom e belo no médico, passa a enxergar apenas o mau e feio no monstro, sem entender que os dois são a mesma pessoa.
É o que acontece conosco por exemplo, quando conhecemos alguém bonito fisicamente, mas este "alguém" ao revelar-se mau caráter, de péssima índole, nos faz enxergar uma feiúra antes inexistente (talvez uma feiúra na alma).
Ou ao contrário, como se vê no "conto de fadas", adaptado no filme "A bela e a fera" (1991) dos estúdios Walt Disney, em que o príncipe, tão belo, ao destratar uma pobre senhora, sofre a maldição da feiúra e somente quando Bela vê na fera, beleza, o encanto se quebra e ele torna-se belo novamente, voltando a forma física de príncipe.
Estes exemplos reforçam a ideia de que onde reside o bom, reside o belo.
Para vivermos em harmonia, precisamos respeitar uns aos outros e as duas naturezas fundamentais que existem em nós, sem desmerecer nenhuma, pois o conflito é necessário para o amadurecimento e crescimento pessoal. Nem belo e feio, nem mau e bom, mas unidade, complemento, equilíbrio.
Finalizando, encerro com mais um trecho do site que citei acima:
"Segundo as teorias de Dr. Jekyll, o homem, na verdade, não é apenas um, mas dois. Todo ser humano é dotado de duas naturezas completamente opostas equilibradas de acordo com sua saúde mental. Uma é boa, aquela que traz admiração das pessoas, compaixão dos mais velhos, elogios dos amigos e da esposa ou namorada; outra é má, aquela que é violenta, agressiva, mal-educada, feia e temida por todos. Quando bem distribuídas, com pequenas alternâncias de estado, o homem pode ser considerado normal, mas há os casos em que uma natureza se sobrepõe a outra, tentando se libertar. O problema torna-se grave quando quem alcança a liberdade é o lado negativo, gerando as fatalidades que estamos acostumados a presenciar nos noticiários."
Ou seja, nem Dr. Jekyll ou Mr. Hyde, mas os dois!

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