quarta-feira, 27 de agosto de 2014

"Cibercultura" de Pierre Levy


CIBERCULTURA


LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Ed. 34, 1999.

Um livro para pensar a cibercultura.

Introdução: Dilúvios

“O crescimento do ciberespaço resulta de um movimento internacional de jovens ávidos para experimentar, coletivamente, formas de comunicação diferentes daquelas que as mídias clássicas propõem. (...) A abertura de um novo espaço de comunicação, e cabe apenas a nós explorar as potencialidades mais positivas deste espaço nos planos econômico, político, cultural e humano.”

“Ao nascer, o cinema foi desprezado como um meio de embotamento mecânico das massas por quase todos os intelectuais bem-pensantes, assim como pelos porta-vozes oficiais da cultura. Hoje, no entanto, o cinema é reconhecido como uma arte completa, investido de todas as legitimidades culturais possíves.”

p. 12 “O mesmo fenômeno pelo qual o cinema passou se reproduz hoje com as práticas sociais e artísticas baseadas nas técnicas contemporâneas.”

“A verdadeira questão não é ser contra ou a favor, mas sim reconhecer as mudanças qualitativas na ecologia dos signos, o ambiente inédito que resulta da extensão das novas redes de comunicação para a vida social e cultural.”

p. 14 “Esse crescimento global tão acelerado não tem nenhum precedente histórico. (...) O dilúvio informacional jamais cessará.”

p. 15 “Devemos aceitá-lo como nossa nova condição. Temos que ensinar nossos filhos a nadar, a flutuar, talvez a navegar. (...) A cibercultura expressa o surgimento de um novo universal, diferente das formas culturais.”

Aqui Levy compara o contexto atual com a fábula de Noé. O dilúvio são as informações que nos cercam e o questionamento, é do que salvar na arca, que irá sobreviver a este dilúvio. Dilema para a humanidade e dilema para cada um de nós.

“O ciberespaço (que também chamarei de ‘rede’) é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infra-estrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo. Quanto ao neologismo ‘cibercultura’, especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço.” E técnicas criam novas condições e possibilitam ocasiões inesperadas...

Primeira parte – Definições

Ele reflete sobre algumas questões:

As tecnologias têm um impacto?

p. 22 “É impossível separar o humano de seu ambiente material, assim como dos signos e das imagens por meio dos quais ele atribui sentido à vida e ao mundo. Da mesma forma, não podemos separar o mundo material – e menos ainda sua parte superficial – das ideias por meio das quais os objetos técnicos são concebidos e utilizados, nem dos humanos que os inventam, produzem e utilizam.”

A tecnologia é determinante ou condicionante?

p. 25 “Uma técnica é produzida dentro de uma cultura, e uma sociedade encontra-se condicionada por suas técnicas.”

p. 26 “Muitas vezes, enquanto discutimos sobre os possíveis usos de uma dada tecnologia, algumas formas de usar já se impuseram. Antes de nossa conscientização, a dinâmica coletiva escavou seus atratores. Quando finalmente prestamos atenção, é demasiado tarde. Enquanto ainda questionamos, outras tecnologias emergem na fronteira nebulosa onde são inventadas as ideias, as coisas e as práticas. Elas ainda estão invisíveis, talvez prestes a desaparecer, talvez fadadas ao sucesso.”

p. 27 A aceleração das alterações técnicas e a inteligência coletiva

“Hipertexto é um texto em formato digital, reconfigurável e fluido. Ele é composto por blocos elementares ligados por links que podem ser explorados em tempo real na tela. A noção de hiperdocumento generaliza, para todas as categorias de signos (imagens, animações, sons, etc), o princípio da mensagem em rede móvel que caracteriza o hipertexto.”

“A Worl Wide Web (www) é uma função da Internet que junta, em um único e imenso hipertexto ou hiperdocumento (compreendendo imagens e sons), todos os documentos e hipertextos que a alimentam.”

p. 27-28 “Para um indivíduo cujos métodos de trabalho foram subitamente alterados, para determinada profissão tocada bruscamente por uma revolução tecnológica que torna obsoletos seus conhecimentos ou mesmo a existência de sua profissão, para as classes sociais ou regiões do mundo que não participam da efervescência da criação, produção e apropriação lúdica dos novos instrumentos digitais, para todos esses a evolução técnica parece ser a manifestação de um ‘outro’ ameaçador. (...) A aceleração é tão forte e tão generalizada que até mesmo os mais ‘ligados’ encontram-se, em graus diversos, ultrapassados pela mudança, já que ninguém pode participar ativamente da criação das transformações do conjunto de especialidades técnicas, nem mesmo seguir essas transformações de perto. (...) Quanto mais rápida é a alteração técnica, mis nos parece vir do exterior. (...) É aqui que intervém, o papel principal da inteligência coletiva, que é um dos principais motores da cibercultura.”

p. 29 “Quando mais os processos de Inteligência coletiva se desenvolvem – o que se pressupõe, obviamente, o questionamento de diversos poderes -, o melhor é a apropriação, por indivíduos e por grupos, das alterações técnicas, e menores são os efeitos da exclusão ou de destruição humana resultantes da aceleração do movimento tecno-social. O ciberespaço, dispositivo de comunicação interativo e comunitário, apresenta-se justamente como um dos instrumentos privilegiados da inteligência coletiva. (...) Os pesquisadores e estudantes do mundo inteiro troca ideias, artigos, imagens, experiências ou observações em conferências eletrônicas organizadas de acordo com os interesses específicos.”

p. 29 A inteligência coletiva, veneno e remédio da cibercultura

“O ciberespaço como suporte da inteligência coletiva é uma das principais condições de seu próprio desenvolvimento. (...) O crescimento do ciberespaço não determina automaticamente o desenvolvimento da inteligência coletiva, apenas fornece a esta inteligência um ambiente próprio.”

As formas novas que Levy fala são: de isolamento e sobrecarga cognitiva; dependência; dominação; exploração e bobagem coletiva.

p.30 “Nos casos em que processos de inteligência coletiva desenvolvem-se de forma eficaz graças ao ciberespaço, um de seus principais efeitos é o de acelerar cada vez mais o ritmo da alteração tecno-social, o que torna ainda mais necessária a participação ativa na cibercultura, se não quisermos ficar para trás, e tende a excluir de maneira mais radical ainda aqueles que não entraram no ciclo positivo da alteração, de sua compreensão e apropriação.

Devido a seu aspecto participativo, socializante, descompartimentalizante, emancipador, a inteligência coletiva proposta pela cibercultura constitui um dos melhores remédios para o ritmo desestabilizante, por vezes excludente, da mutação técnica. (...) A inteligência coletiva que favorece a cibercultura é ao mesmo tempo um veneno para aqueles que dela não participam (e ninguém pode participar completamente dela, de tão vasta e multiforme que é) e um remédio para aqueles que mergulham em seus turbilhões e conseguem controlar a própria deriva no meio de suas correntes.”

p. 31 II A infra-estrutura técnica do virtual

A emergência do ciberespaço

p.31-31 “Um verdadeiro movimento social nascido na Califórnia na efervescência da ‘contracultura’ apossou-se das novas possibilidades técnicas e inventou o computador pessoal. Desde então, o computador iria escapara progressivamente de dados das grandes empresas e dos programadores profissionais para tornar-se um instrumento de criação (de textos, de imagens, de músicas), de organização (banco de dados, planilhas), de simulação (planilhas, ferramentas de apoio à decisão, programas para pesquisa), e de diversão (jogos) nas mãos de uma proporção crescente da população dos países desenvolvidos. (...) As tecnologias surgiram, então, como a infra-estrutura do ciberespaço, novo espaço de comunicação, de sociabilidade, de organização e de transação, mas também novo mercado de informação e do conhecimento.”

p. 45 III O digital ou a virtualização da informação

Sobre o virtual em geral

p. 47 “A palavra ‘virtual’ pode ser entendida em ao menos três sentidos: o primeiro, técnico, ligado à informativa, um segundo corrente e um terceiro filosófico. (...) Na acepção filosófica, é virtual aquilo que existe apenas em potência e não em ato, o campo de forças e de problemas que ele tende a resolver-se em uma atualização. (...) Em filosofia, o virtual não se opões ao real, mas sim ao atual: virtualidade e atualidade são apenas dois modos diferentes da realidade.”

p. 48 “Ainda que não possamos fixá-lo em nenhuma coordenada espaço-temporal, o virtual é real. (...) O virtual existe sem estar presente. (...) O virtual é uma fonte indefinida de atualizações. A cibercultura encontra-se ligada ao virtual de duas formas: direta e indireta. (...) No centro das redes digitais, a informação certamente se encontra fisicamente situada em algum lugar, em determinado suporte, mas ela também está virtualmente presente em cada ponto de rede onde seja pedida.” 

p. 50 “Em geral, não importa qual é o tipo de informação ou mensagem: se pode ser explicitada ou medida, pode ser traduzida digitalmente.”

Acho que aqui ele quer dizer que o filme, a música, fotografia, texto, por exemplo, podem ser digitalizados.

p. 57 “A tendência contemporânea à hipertextualização dos documentos pode ser definida como uma tendência à indeterminação, à mistura das funções de leitura e escrita. (...) Se definirmos um hipertexto como um espaço de percurso para leituras possíveis, um texto aparece como uma leitura particular de um hipertexto. O navegador participa, portanto, da redação do texto que lê. Tudo se dá como se o autor de um hipertexto constituísse uma matriz de textos potenciais, o papel dos navegantes sendo o de realizar alguns desses textos colocando em jogo, cada qual á sua maneira, a combinatória entre os nós. O hipertexto opera a virtualização do texto. O navegador pode tornar-se autor de maneira mais profunda que ao percorrer uma rede preestabelecida: ao participar da estruturação de um texto. Não apenas irá escolher quais links preexistentes serão usados, mas irá criar novos links, que terão um sentido para ele e que não terão sido pensados pelo criador do hiperdocumento.”

“Os leitores podem não apenas modificar os links, mas também acrescentar ou modificar nós (textos, imagens, etc), conectar um hiperdocumento dos dois hipertextos que antes eram separados ou, de acordo com o ponto de vista, traçar links hipertextuais entre um grande número de documentos. (...) Quando o sistema de visualização em tempo real da estrutura do hipertexto (ou sua cartografia dinâmica) é bem concebido, ou quando a navegação pode ser efetuada de forma natural e intuitiva, os hiperdocumentos abertos acessíveis por meio de uma rede de computadores são poderosos instrumentos de escrita-leitura coletiva.”

p. 61 “Com o hipertexto, toda leitura é uma escrita em potencial.” (...) “A mídia é o suporte ou veículo da mensagem. O impresso, o rádio, a televisão, o cinema ou a Internet, por exemplo, são mídias.”

p. 63 “Podemos distinguir três grandes categorias de dispositivos comunicacionais: um-todos, um-um e todos-todos. A imprensa, o rádio e a televisão são estruturados de acordo com o princípio um-todos: um centro transmissor envia suas mensagens a um grande número de receptores passivos e dispersos. O correio ou o telefone organizam as relações recíprocas entre interlocutores, mas apenas para contatos de indivíduo a indivíduo ou ponto a ponto. O ciberespaço torna disponível um dispositivo comunicacional original, já que ele permite que comunidades constituam de forma progressiva e de maneira cooperativa um contexto comum (dispositivo todos-todos).”

“São os novos dispositivos informacionais (mundos virtuais, informação em fluxo) e comunicacionais (comunicação todos-todos) que são os maiores portadores de mutações culturais.”

p. 64 Quadro com as diferentes dimensões da comunicação

p. 65 “A palavra multimídia, quando empregada para designar a emergência de uma nova mídia, parece-me particularmente inadequada, já que chama atenção sobre as formas de representação (textos, imagens, sons, etc) ou de suportes, enquanto a novidade principal se encontra nos dispositivos informacionais (em rede, em fluxo, em mundos virtuais) e no dispositivo de comunicação interativo e comunitário ou, em outras palavras, em um modo de relação entre as pessoas, em uma certa qualidade de laço social.” P. 66

p. 67 “Simulações podem servir para testar fenômenos ou situações em todas as suas variações imagináveis, para pensar no conjunto de consequências e de implicações de uma hipótese, para conhecer melhor objetos ou sistemas complexos ou ainda explorar universos fictícios de forma lúdica. (...) Todas as simulações baseiam-se em descrições ou modelos numéricos dos fenômenos simulados e que valem tanto quanto as descrições.”

Levy problematiza a questão de conhecermos o contexto onde obras digitais e virtuais estão inseridos, assim como obras de outras linguagens, como as plásticas.

p. 74 Quadro com os diferentes sentidos do virtual, do mais fraco ao mais forte.

p. 75 “Um mundo virtual, no sentido amplo, é um universo de possíveis, calculáveis a partir de um modelo digital. Ao interagir com o mundo virtual, os usuários o exploram e o atualizam simultaneamente. Quando as interações podem enriquecer ou modificar o modelo, o mundo virtual torna-se vetor de inteligência e criação coletivas. Computadores e redes de computadores surgem, então, como a infra-estrutura física do novo universo informacional da virtualidade. Quando mais disseminam, quanto maior sua potência de cálculo, capacidade de memória e de transmissão, mais os mundos virtuais irão multiplicar-se em quantidade e desenvolver-se em variedade.”

IV A interatividade

p. 79 “O termo ‘interatividade’ em geral ressalta a participação ativa do beneficiário de uma transação da informação. Um receptor de informação nunca é passivo. Mesmo sentado na frente de uma televisão sem controle remoto, o destinatário decodifica, interpreta, participa, mobiliza seu sistema nervoso de muitas maneiras, e sempre de forma diferente do seu vizinho.” 

“A possibilidade de reapropriação e de recombinação material da mensagem por seu receptor é um parâmetro fundamental para avaliar o grau de interatividade do produto.”

Levy diferencia os tipos de interação, como o espectador de TV que pula entre os canais, seleciona, e o jogador, (internauta talvez, como diz Canclini) que age, que constrói sua trajetória. A interatividade remete ao virtual.

p. 85 V O ciberespaço ou a virtualização da comunicação

“O melhor guia pra web é a própria web. Ainda que seja preciso ter a paciência de explorá-la. Ainda que seja preciso arriscar-se a ficar perdido, aceitar a ‘perda de tempo’ para familiarizar-se com esta terra estranha. Talvez seja preciso ceder por um instante a seu aspecto lúdico para descobrir, no desvio de um link ou de um motor de pesquisa, os sites que mais se aproximam de nossos interesses ou de nossas paixões e que poderão, portanto, alimentar da melhor maneira possível nossa jornada pessoal.”

Levy define aqui a diferença entre caçada (procura) e pilhagem (descoberta), que navegar é misturar estas duas atitudes dos sujeitos. 

p. 92 “A palavra ciberespaço foi inventada em 1984 por William Gibson em seu romande de ficção científica Neuromante. No livro, esse termo designa o universo das redes digitais, descrito como campo de batalha entre as multinacionais, palco de conflitos mundiais, nova fronteira econômica e cultural. (...) O termo foi retomado pelos usuários e criadores de redes digitais” e Levy define como “o espaço de comunicação aberto pela intercomunicação mundial de computadores e das memórias dos computadores.”

p. 93 “A perspectiva da digitalização geral das informações provavelmente tornará o ciberespaço o principal canal de comunicação e suporte de memória da humanidade a partir do início do próximo século”.

Uma das suas principais funções é o acesso à distância aos diversos recursos de um computador, fornecer potência de cálculo, transferência de dados.

Aqui ele discute que já vivemos num momento que ter acesso ao ciberespaço não depende de um computador no local onde estamos, ele reside na ‘nuvem’ e podemos acessar da onde estivermos, com a conexão necessária, nosso próprio computador.

PARTE II – Proposições

p. 111 O universal sem totalidade, essência da cibercultura

“A cada minuto que passa, novas pessoas passam a acessar a Internet, novos computadores são interconectados, novas informações são injetadas na rede. Quando mais o ciberespaço se amplia, mais ele se torna ‘universal’, e menos o mundo informacional se torna totalizável. (...) O ciberespaço se constrói em sistema de sistemas, mas, por esse mesmo fato, é também o sistema do caos.”

p. 112 “Quanto mais o digital se afirma como um suporte privilegiado de comunicação e colaboração, mais essa tendência à universalização marca a história da informática.

p.113 “Quaisquer que sejam seus avatares no futuro, podemos predizer que todos os elementos do ciberespaço continuarão progredindo rumo à integração, à interconexão, ao estabelecimento de sistemas cada vez mais interdependentes, universais e ‘transparentes’. (...) O desenvolvimento do digital é, portanto, sistematizante e universalizante não apenas em si mesmo, mas também, em segundo plano, a serviço de outros fenômenos tecno-sociais que tendem à integração mundial: finanças, comércio, pesquisa científica, mídias, transportes, produção industrial, etc. Por outro lado, o significado último da rede ou o valor contido na cibercultura é precisamente a universalidade. Essa mídia tende à interconexão geral das informações, das máquinas e do homem.”

p. 113-114 A escrita e o universal totalizante

“Para realmente entender a mutação contemporânea da civilização, é preciso passar por um retorno reflexivo sobre a primeira grande transformação na ecologia das mídias: a passagem das culturas orais às culturas da escrita. A emergência do ciberespaço, de fato, provavelmente terá – ou já tem hoje, um efeito tão radical sobre a pragmática das comunicações quanto teve, em seu tempo, a invenção da escrita.”

Levy diz que é difícil compreender uma mensagem fora de seu contexto, por isso foram inventadas as artes da “interpretação, tradução, toda uma tecnologia linguística.”

p. 116 Mídias de massa e totalidade

“As mídias de massa: imprensa, rádio, cinema, televisão, ao menos em sua configuração clássica, dão continuidade à linhagem cultural do universal totalizante iniciado pela escrita. Uma vez que a mensagem midiática será lida, ouvida, vista por milhares ou milhões de pessoas dispersas, ela é composta de forma a encontrar o ‘denominador comum’ mental de seus destinatários. Ela visa os receptores no mínimo de sua capacidade interpretativa. Este não é o lugar adequado para desenvolver todas as distinções entre os efeitos colaterais culturais das mídias eletrônicas e os da imprensa. (...) Por vocação, as mídias contemporâneas, ao se reduzirem à atração emocional e cognitiva mais ‘universal’, ‘totalizam’. Também é o caso, de forma mais violenta, da propaganda do partido único dos totalitarismos no século XX: fascismo, nazismo, stalinismo. Entretanto, as mídias eletrônicas, como o rádio ou a televisão, possuem uma segunda tendência, complementar a primeira.”

p.117 “O contexto global instaurado pelas mídias, em vez de emergir das interações vivas de uma ou mais comunidades, fica fora do alcance daqueles que dele consomem apenas a recepção passiva, isolada.”

A cibercultura ou o universal sem totalidade

p. 118 “O principal evento cultural anunciado pela emergência do ciberespaço e á desconexão desses dois operadores sociais ou máquinas abstratas que são a universalidade e totalização. (...) O ciberespaço dissolve a pragmática da comunicação que, desde a invenção da escrita, havia reunido o universal e a totalidade.”

Levy diz que ele nos leva à situação antes da escrita. O hipertexto é vivo como a oralidade. “Seja qual for o texto, ele é o fragmento talvez ignorado do hipertexto móvel que o envolve, o conecta a outros textos e serve como mediador ou meio para uma comunicação recíproca, interativa, interrompida.”

p. 119 O universal não é o planetário

“A participação nesse espaço que liga qualquer ser humano a outro, que permite a comunicação das comunidades entre si e consigo mesmas, que suprime os monopólios de difusão e permite que cada um emita para quem estiver envolvido ou interessado, essa reivindicação nos mostra, que a participação nesse espaço assinala um direito, e que sua construção se parece com uma espécie de imperativo moral.”

“A cibercultura dá forma a um novo tipo de universal: um universal sem totalidade. Trata-se ainda de um universal, acompanhado de todas as ressonâncias possíveis de serem encontradas com a filosofia das luzes, uma vez que possui uma relação profunda com a ideia de humanidade. Assim, o ciberespaço não engendra uma cultura do universal porque de fato está em toda parte, e sim porque sua forma ou sua ideia implicam de direito o conjunto dos seres humanos.”

Quanto mais universal, menos totalizável, porque “quando se concretiza ou se atualiza, menos ele é totalizável.”


p. 123 VII O movimento social da cibercultura

“A emergência do ciberespaço é fruto de um verdadeiro movimento social, com seu grupo líder (a juventude metropolitana escolarizada), suas palavras de ordem (interconexão, criação de comunidades virtuais, inteligência coletiva) e suas aspirações coerentes.”

124-125 “O ciberespaço não é uma infra-estrutura técnica particular de telecomunicação, mas uma certa forma de usar as infra-estruturas existentes, por mais imperfeitas e disparatas que sejam. (...) Visa, por meio de qualquer tipo de ligações físicas, um tipo particular de relação entre as pessoas. (...) Seu inventor e principal motor foi um movimento social visando a reapropriação em favor dos indivíduos de uma potência técnica que até então havia sido monopolizada por grandes instituições burocráticas.”

Levy descreve o ciberespaço como uma “prática de comunicação interativa, recíproca, comunitária e intercomunitária.” Além de ser “um horizonte de mundo virtual vivo, heterogêneo e intotalizável no qual cada ser humano pode participar e contribuir.”

p.127 O programa da cibercultura: a interconexão

Levy diz que 3 princípios possibilitaram o ciberespaço: a interconexão, a criação de comunidades virtuais e a inteligência coletiva.

p.129 “As comunidades virtuais exploram novas formas de opinião pública. (...) Oferecerem, para debate coletivo, um campo de prática mais aberto, mais participativo, mais distribuído que aquele das mídias clássicas. (...) É um erro pensar as relações entre antigos e novos dispositivos de comunicação em termos de substituição. (...) As pessoas continuam se falando após a escrita, mas de outra forma. (...) As que mais se comunicam por telefone são as que mais encontram outras pessoas.”

p.130 Levy diz que comunidades virtuais possibilitam uma nova forma de relação entre grupos humanos, talvez mais ampla e abrangente que outros dispositivos poderiam permitir.

VIII O som da cibercultura

p. 135 “Uma das características mais constantes da ciberarte é a participação nas obras daqueles que as provam, interpretam, exploram ou leem. Nesse caso, não se trata apenas de uma participação na construção de sentido, mas sim uma co-produção da obra, já que o espectador é chamado a intervir diretamente na atualização.”

Ele fala de criação contínua, da obra aberta, participação dos interprétes, criação coletiva, obra-acontecimento, obra-processo, interconexão e mistura dos limites. “Todas essas características convergem em direção ao declínio (mas não ao desaparecimento puro e simples) das figuras que garantiram, até o momento, a integridade, a substancialidade e a totalização possível das obras: o autor e a gravação.”

p. 137 “Essa nova arte, que reencontra a tradição do jogo e do ritual, requer também a invenção de novas formas de colaboração entre os artistas, os engenheiros e os mecenas, tanto público como privados.”

“A forma do universal sem totalidade, característica da civilização das redes digitais em geral, também permite dar conta da especificidade dos gêneros artísticos próprios da cibercultura.”

p. 145 A arte da cibercultura

“Os mundos virtuais podem eventualmente ser enriquecidos e percorridos coletivamente. Tornam-se, nesse caso, um lugar de encontro e um meio de comunicação entre seus participantes.”

p.146 “Assim como o cinema não substituiu o teatro, mas constitui um novo gênero original com sua tradição e seus códigos originais, os gêneros emergentes da cibercultura como a música tecno ou os mundos virtuais não substituirão os antigos.” Serão que não?!

p.154 “Os gêneros da cibercultura são da ordem da performance, como a dança e o teatro, como as improvisações coletivas de jazz, dos concursos de poesia da tradição japonesa. Na linhagem das instalações, requerem a implicação ativa do receptor, seu deslocamento simbólico ou real, a participação consciente de sua memória da constituição da mensagem. (...) Organizando a participação em eventos mais do que em espetáculos, as artes da cibercultura reencontram a grande tradição do jogo e do ritual. O que é mais contemporâneo retorna assim ao mais arcaico, à própria origem em seus fundamentos antropológicos.”

X A nova relação com o saber

p. 157 Levy diz que para entendermos as novas relações com o saber é preciso estar atento às rápidas mutações que estão acontecendo. Ele diz que é a primeira vez na história da humanidade que as competências que uma pessoa adquire na sua formação profissional estarão obsoletas no final de sua carreira. “Trabalhar quer dizer, cada vez mais, aprender, transmitir saberes e produzir conhecimentos.”

Já sinto isso com minha formação em cinema, por exemplo. E na incapacidade que temos de dar conta de conceituar e refletir sobre todas as experiências que estamos vivendo. Parece que uma das maneiras de lidar com elas, é apenas seguir o fluxo. Se deixar levar...relaxar e 'gozar'! =)

Para ele, as tecnologias intelectuais favorecem: novas formas de acesso à informação; novos estilos de conhecimento e raciocínio.

p. 158 “O que é preciso aprender não pode mais ser canalizado nem precisamente definido com antecedência. (...) Nesse contexto, o professor é incentivado a tornar-se um animador da inteligência coletiva de seus grupos de alunos em vez de ser um fornecedor direto de conhecimentos.(...) Se as pessoas aprenderem com suas atividades sociais e profissionais, se a escola e a universidade perdem progressivamente o monópolio da criação e transmissão de conhecimento, os sistemas públicos de educação podem ao menos tomar para si a nova missão de orientar os percursos individuais no saber e de contribuir para o reconhecimento dos conjuntos de saberes pertencentes às pessoas, aí incluídos os saberes não-acadêmicos.”

p.161 “As metáforas centrais da relação com o saber são hoje, a navegação e o surfe, que implicam uma capacidade de enfrentar as ondas, redemoinhos, as correntes e os ventos contrários em uma extensão plena.” – Como uma onda do mar do Lulu Santos.

p. 162-163 Levy relativiza os diferentes tipos de leitura, assim como faz Canclini. Os excessos não devem ser encorajados, mas acreditar que a dedicação de horas ao ciberespaço, assim como fazemos com a leitura de livros, é somente prejudicial, é um grande equívoco. Para ele, o ciberespaço, também é um espaço de acesso ao conhecimento e uma nova forma de comunicação. Antes na sociedade oral, morria o ‘velho acumulador e contador de histórias’, morria o saber;  depois com a escrita, o saber estava no livro, mas agora, com a cibercultura, e lembrando Barthes, o saber está no intérprete.

p. 167 Levy diz que o ciberespaço será o mediador essencial da inteligência coletiva da humanidade. “Como esse novo suporte de informação e de comunicação emergem gêneros de conhecimento inusitados, critérios de avaliação inéditos para orientar o saber, novos atores na produção e tratamento de conhecimentos. Qualquer política de educação terá que levar isso em conta.”

p. 169 XI As mutações da educação e a economia do saber (se aprofundar depois...)

Levy diz que os indivíduos já não toleram tanto as formas de saber e transmissão do saber de maneira uniforme ou rígida, porque não correspondem às suas necessidades reais.

p.170 A EAD se apresenta como uma solução para problemas educacionais e nova relação com as formas de aprendizagem e saber.

p.171 “Os professores aprendem ao mesmo tempo que os estudantes e atualizam continuamente seus saberes ‘disciplinares’ como suas competências pedagógicas.” Levy defende a importância da formação contínua.

“A principal função do professor não pode mais ser a difusão dos conhecimentos, que agora é feita de forma mais eficaz por outros meios. Sua competência deve deslocar-se no sentido de incentivar a aprendizagem e o pensamento. O professor torna-se um animador da inteligência coletiva dos grupos que estão a seu encargo. Sua atividade será centrada no acompanhamento e na gestão das aprendizagens: o incitamento à troca de saberes, a mediação relacional e simbólica, a pilotagem personalizada dos percursos de aprendizagem.”

Aqui é possível lembrar de Freinet (e Paulo Freire) e o papel do professor com um guia, mediador e que desperta o interesse de seus alunos. Não alguém que ensina, mas que faz pensar, que inicia, instiga seus alunos.

Acho que é o que acaba acontecendo na oficina. Crio desafios e depois gerencio com os saberes que eu tenho. Ao final do ano, sinto que compartilhei o que eu sabia, e muitos dos alunos, talvez faça um uso ainda mais potente do que foi possibilitado na aula. Não sei mais, não se sei menos, mas sei tanto quanto.

p.229 Crítica da crítica

p. 230 Levy não nega que ‘uma vez que as ferramentas de comunicação digital são mais potentes, permitem fazer o mal em maior escala. Mas é preciso notar que também há instrumentos de codificação e decodificação muito poderosos, que se encontram agora acessíveis a pessoas físicas, e que permitem uma resposta parcial a essas ameaças.” “A televisão e a imprensa são instrumentos de manipulação e de desinformação muito mais eficazes do que a Internet, já que podem impor ‘uma’ visão da realidade e proibir a resposta, a crítica e o confronto entre posições divergentes.”

p. 231 “A apropriação do conhecimento se libertará cada vez mais das restrições colocadas pelas instituições de ensino, já que as fontes vivas do saber estarão diretamente acessíveis e os indivíduos terão a possibilidade de integrar-se a comunidades virtuais consagradas à aprendizagem cooperativa.”

p. 232 Levy diz que as mídias contemporâneas tem mostrado o lado sombrio, denunciando perigos e efeitos negativos das mutações atuais. Ele alerta para se ter cuidado e distinguir cuidadosamente as diferentes posturas que se apresentam, pois de um lado existe “a crítica reativa, midiática, convencional, conservadora, álibi dos poderes prá-estabelecidos e de preguiça intelectual, e por outro lado, uma crítica atuante, imaginativa, voltada para o futuro, que acompanha o movimento social. Nem toda crítica pensa.”

p. 235 XVIII – Aqui Levy traz 4 perguntas sem respostas:

-a cibercultura seria fonte de exclusão?
-a diversidade das línguas e das culturas encontra-se ameaçada pelo ciberespaço?
-a cibercultura é sinônimo de caos e confusão?
-encontra-se em ruptura com os valores fundadores da modernidade europeia?

p. 238 “Os novos instrumentos deveriam servir prioritariamente para valorizar a cultura, as competências, os recursos e os projetos locais, para ajudar as pessoas a participar de coletivos de ajuda mútua, de grupos de aprendizagem cooperativa, etc.”


p. 246 “O ciberespaço oferece as condições para uma comunicação direta, interativa e coletiva. (...) A cibercultura surge como uma solução parcial para os problemas da época anterior, mas constitui em si mesma um imenso campo de problemas e de conflitos para os quais nenhuma perspectiva de solução global já pode ser traçada claramente. As relações com o saber, o trabalho, o emprego, a moeda, a democracia e o Estado devem ser reinventadas, para citar apenas algumas das formas sociais mais brutalmente atingidas.”

quinta-feira, 12 de abril de 2012

"Educação e Cinema - Novos olhares na produção do saber" de José de Souza Miguel Lopes


LOPES, José de S. Miguel. Educação e Cinema: novos olhares na produção do saber
Porto: Profedições, 2007.

Apresentação

“O cinema é um artefato cultural cuidadosamente manufaturado, que busca propiciar ao seu público um misto de identificação e distanciamento. O filme carrega, desde sua concepção até sua exibição pública, intenções e cargas simbólicas que são oferecidas ao espectador que as degusta conforme as suas próprias intenções e competências simbólicas. Ao colocar o espectador numa posição privilegiada, na qual observa todos os acontecimentos narrados, mas sem o envolvimento real, o cinema pode empreender o seu jogo de revelação e engano. E, através desse jogo, pode desencadear uma relação entre tempo e memória, entre imagem e imaginação, dando um novo significado ao presente vivido.” (p.7)

“Desde cedo o cinema soube criar uma situação de projeção/identificação para com o espectador, desencadeada pela própria linguagem e evidenciada pelo próprio ritual cinematográfico. O ato de ir ao cinema, sentar-se numa sala escura, ser cercado de silêncios interrompidos por sussurros, a luz que vem do alto e de trás projetando-se na imensa tela a frente e que inunda os seus espectadores com suas imagens e as próprias estratégias narrativas propiciam um mergulho do espectador.” (p.7)

“A tentativa de encontrar refúgio numa sala escura onde são projetados focos de luz não é mais do que uma fuga da realidade.” (p.8)

Para Lopes, o cinema é fascínio, é mística, é preservar a curiosidade de criança, é fugir da realidade e ser parte de outra, é viver cinematograficamente, é uma função social, é refletir sobre a própria condição humana, é arte, é uma declaração de amor, é um meio de reflexão, é invenção, é um instrumento de análise da história.

O diálogo entre o cinema e a educação. Na minha trajetória de educador

Nesta primeira parte, o autor narra sua experiência e transformação com o cinema. Que iniciou no período escolar, onde apreciava todo tipo de cinema, de acordo com a limitação das opções oferecidas nos espaços de cinema, ou seja, acesso quase restrito ao cinema hollywoodiano. Depois, passou a freqüentar um cineclube em Moçambique, que ampliou seu leque e repertório, e onde passou a aperfeiçoar seu gosto e se tornar mais exigente

“O meu gosto pelo cinema, passando pelo simples prazer de fruir qualquer obra, independentemente da sua qualidade estética ou outra, até o fato de ter me progressivamente tornado mais exigente. Aperfeiçoei o meu sentido crítico, abandonando as formas banais de cinema e passando a selecionar mais criteriosamente as obras cinematográficas.” (p.14)

Um desaprender o gosto, talvez.

Para ele, ‘definir o cinema seria como definir a arte, ou alguma coisa ainda mais vasta, definir o indefinível, a vida mesma.’ (p.14)

Trabalhar com o cinema em sala de aula, não é torná-lo suporte, mas torná-lo a própria sala de aula. 

Ele define o cinema hollywoodiano como um ‘entorpecente’ que faz com o público se mantenha num estado de embriaguez, de ‘droga’. A linguagem cinematográfica favorece este uso, mas Lopes sugere a ampliação do olhar para outras obras e manifestações fílmicas.

Alguns aspectos importantes do trabalho do cinema em sala de aula: considerar os diretores, na tentativa de compreendê-los em suas manifestações; considerar o contexto dos filmes; ler sobre os filmes em espaços especializados; debater após o filme para ampliar as possibilidades de interpretação e compreensão do filme; usar palavras-chave para discussão pré e pós filme; assistir várias vezes para pontuar melhor as passagens; uso de curta-metragem no espaço escolar, ainda que seu acesso seja difícil; explorar a estrutura narrativa e seu desenvolvimento; ativar o pensamento dos alunos, logo após exibição e debate, solicitando uma redação, resenha ou crítica de 1 lauda sobre o filme.

“Foi assim que o cinema se tornou, mais do que nunca, uma síntese de todas as artes, que englobou os quatro elementos a saber: a imagem (quer elas estejam em movimento, ou em cores), sons, palavras e música.” (p.20)

“Não há nenhuma arte, nem o teatro, que iluda a vida como o cinema. (...) Quando lê um livro, você é um realizador, porque está a pôr imagens, a imaginar a cara dos atores, o vestir, o andar. Está a ver seu filme.” (p.21)

Para o autor, a televisão é uma grande rival do cinema, já que ‘o cinema estimula o pensamento, a televisão paralisa-o’. (p.22)

“Têm sido poucos os educadores que têm escrito sobre cinema, em particular trabalhos que nos revelem a sua relação com o fenômeno educacional. Constata-se, pois uma produção intensa e diversificada dessa relação em vários países mas, no Brasil e em Portugal, é ainda incipiente o estudo e sistematização desse universo.” (p.27)

Lopes alega que o cinema dominante é de vertente hollywoodiana, que acaba sufocando outras produções que lutam por uma outra forma de expressão. Ele reconhece haver fissuras no cinema norte-americano, através do cinema independente. Para ele, o cinema deve ser utilizado primeiro “como ferramenta de reflexão, fazendo com que após analisar criticamente uma película cinematográfica o aluno procure complementar e aperfeiçoar seu raciocínio através do estudo das matérias do currículo; e que esteja preparado para propagar este conhecimento adquirido, mais uma vez, através do cinema, de forma similar ao processo que se deu com ele.” (p.29)

Para ele, existem dois objetivos principais para o trabalho com cinema e educação: “o cinema como forma artística que se apresenta ao espectador como real, e que este seja ponto de partida para uma reflexão crítica sobre questões políticas, filosóficas, sociológicas, antropológicas e educacionais; além de despertar o interesse dos alunos pelo estudo, auxiliando a formação de agentes multiplicadores do pensamento crítico.” (p.29)

“Os melhores filmes de sempre foram aqueles que levaram a montagem, a focagem, a composição, a iluminação e o trabalho de câmera até o máximo das suas possibilidades enquanto mídia.” (p.29)

Lopes descarta todo e qualquer uso do cinema hollywoodiano, cinema indústria (seja dos EUA ou de outros países) em sala de aula, por ser um espaço e tempo limitados, porém pergunto-me se sua visão não é demais essencialista e preconceituosa, já que qualquer filme poderia ser usado como ponto de partida para “reflexão crítica sobre questões políticas, filosóficas, sociológicas, antropológicas e educacionais”, ainda que ele afirme que quem pensa assim, está aprisionado a um gosto condicionado pelo cinema hollywoodiano.

Além disso, em sua lista de 100 melhores filmes, há vários de vertente hollywoodiana, realizados dentro de padrões mercadológicos, mas ainda assim, valorizados por ele.

Aperfeiçoando o olhar no diálogo entre o cinema e a educação

Lopes resgata a publicação de “A educação cinematográfica” realizada pela UNESCO em 1961, que defende que “a melhor forma de defender o público, e em particular a juventude, de excessos e erros das mensagens audiovisuais, é a formação e a criação de hábitos pelos espectadores, de forma a garantira escolha e a melhor compreensão da mensagem audiovisual. Ainda, segundo esta instituição mundial, a educação cinematográfica já tem, em muitos países, um lugar estabelecido nos planos curriculares do ensino, não se restringindo a atividades extracurriculares ou de voluntariado cineclubístico, cabendo-lhe uma função educativa essencial.” (p.36)

“O cinema pode ser definido como uma educação informal, que necessita de uma metodologia para melhor aproveitamento na sala de aula. (...) A educação necessita lançar um olhar crítico sobre o cinema. Precisa se libertar da crítica especializada e construir seu próprio corpo teórico visando fins específicos. O cinema é um meio de reflexão da sociedade.” (p.36)

“A sala de aula cinematográfica deve dar a oportunidade aos alunos de terem uma cosmovisão do mundo, da sociedade em que vivemos, e entender que as relações de produção da nossa época indicam o sentido e significado de nosso presente.” (p.37)

O filme educa no sentido que amplia e questiona o nosso conhecimento dos contextos em aparência familiares e facilmente nomeáveis. (...) Educar pelo cinema ou utilizar o cinema no processo escolar é ensinar a ver diferente. É educar o olhar. É decifrar os enigmas da modernidade na moldura do espaço imagético.” (p.37)

“O problema é a passividade do espectador, que sem cultura cinematográfica, sem a posse dos instrumentos e dos procedimentos da linguagem da sétima arte, não assimila as possibilidades comunicativas do cinema. (...) Aprender a ver cinema é realizar esse ritual de passagem de espectador passivo para o espectador crítico. (...) A educação cinematográfica implica também uma formação estética na perspectiva que a experiência artística é indispensável á formação harmoniosa da personalidade.” (p.38)

Para ele, “filmes que confirmam o sistema, devem ser desmistificados no processo educacional, no processo escolar. (...) É fundamental ver e analisar com os alunos alguns filmes ‘modelos’ dos principais gêneros do cinema hegemônico e procurar fazer a crítica desse cinema. Este será um bom ponto de partida, para em seguida, iniciar os alunos num repertório intelectual e cinematográfico mais sofisticado.” (p.38-39)

Ou seja, é importante desmistificar o cinema que eles já conhecem, para então mais tarde ampliar seu repertório. A pergunta é “quanto tempo isso pode levar?” E quando o professor ainda não está totalmente neste estágio?!

“O fácil acesso às imagens não significa um fácil entendimento das suas formas. (...) Educar é ir além das aparências. Educar significa reconhecer o ‘não-visível’ nas imagens.” (p.39)

“A imagem é hoje um dos mais importantes meios de comunicação e é inegável que a tecnologia está a provocar alterações nas formas de pensamento e de expressão. (...) Freinet já discutia a necessidade do professor reconhecer e utilizar estes recursos: ‘A desordem cultural persistirá enquanto a escola pretender educar as crianças com instrumentos e sistemas que foram válidos há 50 anos. (...) Subsistirão as lições, os braços cruzados, as memorizações, enquanto fora da escola haverá uma avalanche de imagens e de cinema.’

Lopes defende o potencial educativo dos filmes, já reconhecido pelos que já o utilizam em sala de aula, mas também afirma que as imagens sozinhas não falam por si só, pois é preciso a intervenção do professor para potencializar seu uso. Isso vale para o cinema, televisão, computador, etc. As imagens só não devem ser utilizadas como ilustração ou substituição de professor, pois aí perde-se seu potencial educativo.

“A sala de aula deve ser considerada como um espaço imagético. Ela já incorpora, e sofre a intervenção dos meios de comunicação social com a utilização de jornais, revistas, programas de televisão. Porém, é preciso ver que esses meios podem ser considerados salas de aula, como espaços de transformação de consciência, de aquisição de novos conhecimentos; que eles dependem de uma pedagogia crítica, e que o sucesso dela depende de como vamos ver e ouvir os produtos da indústria cultural.” (p.41-42)

“Hoje em dia, a imagem em movimento, nas suas várias vertentes, do computador à televisão, passando pelos jogos interativos e partindo do cinema, povoam o cotidiano e o imaginário de todos nós e particularmente dos jovens, pelo que será impraticável, a curto prazo, não saber ler e escrever a linguagem da imagem em movimento, que tem suas características próprias, como todas as linguagens, que se salienta a versatilidade e a novidade.” (p.42)

“Se a sala de aula é um espaço de discussão e reflexão, o filme é este mesmo espaço ampliado em maior escala, em que os seus procedimentos formais e narrativos passam a ser a linha condutora do viés educacional.” (p.43)

“Se as condições de produção condicionam o filme, é possível reconhecer diretores que, mesmo atuando segundo as convenções do mercado, tentam ir além das representações singelas da sociedade. (...) Pensar na contribuição do cinema na educação é buscar o pensamento, a filmografia deste ou aquele diretor, e inseri-lo no processo educacional.” (p.43)

Descolonizar o cinema? A educação agradece

“O cinema é uma forma de criação artística, de circulação de afetos e de fruição estética. É também uma certa maneira de olhar. É uma expressão do olhar que organiza o mundo a partir de uma idéia sobre esse mundo. Uma idéia histórico-social, filosófica, estética, ética, poética, existencial, enfim. Olhares e idéias postos em imagens em movimento, através dos quais compreendemos e damos sentido às coisas, ou ainda, através dos quais buscamos e interrogamos sobre o sentido das coisas, ressignificando-as e expressando-as.” (Teixeira & Lopes apud Lopes, 2007, p. 52)

Neste capítulo ele reforça a idéia do cinema hollywoodiano como algo negativo, com e sem razão em vários aspectos.

Lopes diz que apesar do cinema ser reconhecido, sua linguagem ainda é pouco lembrada e trabalhada nas escolas. A relação das pessoas com o cinema ainda é puramente intuitiva, quase como ‘um músico que aprende a tocar de ouvido’.

“A possibilidade de se comunicar, de se expressar e de receber informação através do cinema supõe a aceitação prévia de que é uma forma de expressão tão importante hoje como a linguagem verbal, oral e escrita.” (p.58)

“O cinema pode ser ainda um elemento vital para a construção de um homem livre nas suas convicções, crítico nas suas análises, humanista e sensível na sua forma de compreender o olhar o mundo e a vida, aberto à multiplicidade de propostas, respeitando as diferenças e a igualdade que devem balizar a sociabilidade humana, pode ser inovador na descoberta de novos caminhos.” (p.64)

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E o livro continua! =)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

"Crescer na era das mídias eletrônicas" de David Buckingham

 
BUCKINGHAM, David. Crescer na era das mídias eletrônicas. Tradução: Gilka Girardello e Isabel Orofino. São Paulo, Loyola, 2007.

Neste livro, Buckingham nos fala sobre as transformações atuais nas concepções de infância diante do surgimento das mídias eletrônicas. Eles apresenta duas linhas de pensamento essencialistas e opostas, sintetizadas pela ‘morte da infância’, visão que considera as mídias culpadas pelo fácil e desenfreado acesso à informação e conhecimento, nem sempre ‘adequados’ aos que ainda 'não pertencem' à vida adulta (crianças e jovens); e a visão otimista da relação das crianças em sua ‘geração eletrônica’, agora ativas e produtoras de cultura, através das mídias.

Para ele, é um processo irreversível, porém a grande preocupação não deveria ser com o conteúdo (controle e regulação), mas com a participação e preparação das crianças neste processo.

Abaixo colocarei alguns trechos fundamentais que sintetizam seu pensamento e a importância da sua obra para pensar infância hoje, além de uma super síntese dos capítulos para os interessados no livro! =)
 
Prefácio

“É difícil ignorar a importância cada vez maior das mídias eletrônicas. Em todas as sociedades industrializadas – e também em muitos países em desenvolvimento – as crianças hoje passam mais tempo em companhia dos meios de comunicação do que com seus familiares, professores e amigos. (...) Suas experiências midiáticas são repletas de narrativas, imagens e mercadorias produzidas pelas grandes corporações globalizadas de mídia.” (p. 7)

Para ele, “o significado de infância nas sociedades contemporâneas está sendo criado e definido por meio das interações das crianças com as mídias eletrônicas.”

Ele considera importante lembrar que ‘as características da família e da escola – as duas instituições-chaves que em grande parte delimitam e definem a vida das crianças – variam bastante de uma cultura para outra.’

“A infância não é absoluta, nem universal, e sim relativa e diversificada. A idéia de infância é uma construção social, que assume diferentes formas em diferentes contextos históricos, sociais e culturais. (...) As crianças de hoje podem ter mais em comum com crianças de outras culturas do que com seus próprios pais.” (p.8)

Introdução - Capítulo 1 – Em busca da Infância

As interpretações das mudanças na infância “e no papel dos meios de comunicação em refleti-las ou produzi-las – estão agudamente polarizadas. De um lado, acham-se os que argumentam que a infância, tal como a conhecemos está desaparecendo ou morrendo, e que as mídias – particularmente a televisão – são as maiores culpadas. As mídias aparecem aí como responsáveis pelo apagamento das fronteiras entre infância e idade adulta, e, conseqüentemente, por um abalo na autoridade dos adultos. De outro lado estão aqueles que argumentam que há um crescente abismo de gerações no uso das mídias – que a experiência dos jovens com as novas tecnologias (especialmente os computadores) está cavando um fosso entre sua cultura e a da geração de seus pais. Longe de apagar as fronteiras, as mídias são vistas aí como responsáveis pelo fortalecimento delas – apesar de agora serem os adultos aqueles que se acredita terem mais a perder, uma vez que a habilidade das crianças com a tecnologia lhes oferece acesso a novas formas de cultura e comunicação que em grande parte escapam do controle dos pais.” (p.18)
 
“As mídias eletrônicas têm um papel cada vez mais significativo na definição das experiências culturais da infância contemporânea. Não há mais como excluir as crianças dessas mídias e das coisas que elas representam, nem como confiná-las a materiais que adultos julguem bons para elas. A tentativa de proteger as crianças restringindo o acesso às mídias está destinada ao fracasso. Ao contrário, precisamos prestar muito mais atenção em como preparar as crianças para lidar com estas experiências, e ao fazê-lo, temos de parar de defini-las simplesmente em termos do que lhes falta.” (p.32)

Na Parte I do livro, contendo o Capítulo 2 “A morte da infância” e Capítulo 3 “A geração eletrônica” ele descreve detalhadamente (revisão literária) e contra-argumenta sobre as duas visões ‘antagônicas’ essencialistas da relação infância e mídias eletrônicas, com semelhanças entre si.

Parte II

No Capítulo 4 – Infância em Mudança, Buckingham fala das relações e mudanças entre infância, relacionadas (ou não) às mídias. Ele diz que a relação de espaços públicos e privados alteraram a experiência das crianças.

No Capítulo 5 – Mídias em mudança, Buckingham fala das mudanças das mídias e como isso afeta a criança, transformando a infância em produto. O poder de consumo das crianças passou a ser reconhecido e o mercado voltou-se a este ‘novo’ público em potencial.

No Capítulo 6 – Paradigmas em mudança, o autor traz uma ‘revisão’ de pesquisas que relacionam mídias e crianças, cuidados e equívocos, etc.

Parte III – Capítulos 7, 8 e 9, Buckingham relaciona suas pesquisas com as relações entre crianças e violência, crianças e consumo, além de crianças como cidadãs.

A Conclusão e o capítulo 10, considerei a parte mais importante (e produtiva), já que resume tudo que foi falado no livro e aborda os direitos de mídias das crianças.

Para Buckingham, é preciso “entender a extensão – e as limitações – da competência que as crianças têm de participar do mundo adulto. Em relação às mídias, temos de reconhecer a habilidade que as crianças têm de avaliar as representações daquele mundo disponíveis para elas e identificar o que elas ainda precisam aprender para fazê-lo de forma mais plena e produtiva.” (p.278)

Os direitos das crianças

Buckingham complementa a noção de 3Ps dos direitos das crianças às mídias (provisão – oferta, proteção, participação) com o termo educação. Pois considera a provisão e proteção, direitos passivos, mas a participação, um direito ativo.

Ele defende a importância das crianças também participarem dos critérios e escolhas do que é oferecido para elas, daquilo do que elas são ‘protegidas’.

“As crianças somente se tornarão competentes se forem tratadas como sendo competentes. De fato, é difícil entender como elas podem se tornar competentes para fazer alguma coisa se nunca tiverem a chance de se envolver com aquilo.” (p.283)

Buckingham reivindica que ‘as crianças devem ouvir, ver e expressar a si mesmas, sua cultura, sua linguagem e sua experiência de vida’. (p.285)

O autor diz que garantir a participação depende também do desenvolvimento de habilidades, para que elas possam de fato exercer seu direito de participar. Com isto, ele acrescenta um quarto termo aos 3Ps, a Educação.

“A educação deverá buscar ampliar a participação ativa e informada das crianças na cultura de mídias que as cerca. (...) Mais do que deixar as crianças isoladas em seus encontros com o mundo ‘adulto’ das mídias contemporâneas, precisamos encontrar modos de prepará-las para lidar com ele, participar dele, e se preciso, mudá-lo.” (p.286)

“É preciso haver propostas mais ativas de financiar a produção de materiais a que as crianças realmente queiram assistir, e de habilitar as crianças a produzir esses materiais elas mesmas.” (p.289)

Ele encerra dizendo que “As crianças estão escapando para o grande mundo adulto – um mundo de perigos e oportunidades onde as mídias eletrônicas desempenham um papel cada vez importante. Está acabando a era em que podíamos esperar proteger as crianças desse mundo. Precisamos ter a coragem de prepará-las para lidar com ele, compreendê-lo e ele tornarem-se participantes ativas, por direito próprio.” (p.295)

Para melhor aprofundamento, recomendo ler o livro todo! =) 
Espero que tenham gostado e aproveitado minha síntese! =)