sexta-feira, 17 de junho de 2011

"Arte-mídia" de Arlindo Machado

Li este livro semana passada, para a disciplina de "Linguagens e mídias" ministrada pela Profª Dulce, onde foi trabalhado no seminário "Arte e contracultura" de alguns colegas da disciplina (Ana, Rô, Gilson e Tim). O autor levanta várias questões interessantes para minha pesquisa, como a relação da arte com a mídia, da hibridização dos meios, entre outras relações, que compartilho aqui, através de passagens bem importantes do livro.

O livro é bem pequeno e fino, tem apenas 84 páginas, custa menos de R$15,00, e se divide em 3 partes, mais a introdução.


Arte-mídia: conceito para “designar formas de expressão artística que se apropriam de recursos tecnológicos das mídias e da indústria do entretenimento em geral, ou intervêm em seus canais de difusão, para propor alternativas qualitativas”. Compreende “as experiências de diálogo, colaboração e intervenção crítica nos meios de comunicação de massa” e “abrange também quaisquer experiências artísticas que utilizem os recursos tecnológicos recentemente desenvolvidos, sobretudo nos campos da eletrônica, da informática e da engenharia biológica.” (p.7) “Inclui também artes visuais e audiovisuais, literatura, música e artes performáticas”, além da “criação colaborativa baseada em redes, as intervenções em ambientes virtuais ou semivirtuais, a aplicação de recursos de hardware e software para a geração de obras interativas, probabilísticas, potenciais, acessíveis remotamente, etc”. “Engloba e extrapola expressões anteriores, como ‘arte&tecnologia’, ‘artes eletrônicas’, ‘arte-comunicação’, ‘poéticas tecnológicas’, etc. (p.8) (mídia-educação?!)

Arte e mídia: aproximações e distinções

“Mídia e arte. Que fazem eles juntos e que relação mantém entre si? Dizer arte-mídia significa sugerir que os produtos da mídia podem ser encarados como as formas de arte de nosso tempo ou, ao contrário, que a arte de nosso tempo busca de alguma forma interferir no circuito massivo das mídias? Em sua acepção própria, a arte-mídia é algo mais que a mera utilização de câmeras, computadores e sintetizadores na produção de arte, ou a simples inserção da arte em circuitos massivos como a televisão e a Internet. A questão mais complexa é saber de que maneira podem se combinar, se contaminar e se distinguir arte e mídia, instituições tão diferentes do ponto de vista das suas respectivas histórias, de seus sujeitos ou protagonistas e da inserção social de cada uma. O objetivo deste livro é buscar respostas a essa questão.” (p.8 e 9) (seria minha pesquisa uma forma de buscar também?!)

“A arte sempre foi produzida com os meios de seu tempo.” E assim como Bach e Stockhausen, que “buscavam extrair o máximo das possibilidades musicais de dois instrumentos recém-inventados e que davam forma à sensibilidade acústica de suas respectivas épocas”, outros artistas tem se esforçado em fazer o mesmo com os meios atuais. (p. 9)

Porque, o “artista do nosso tempo, recusaria o vídeo, o computador, a Internet, os programas de modelação, processamento e edição de imagem? Se toda arte é feita com os meios de seu tempo. As artes midiáticas representam a expressão mais avançada da criação artística atual e aquela que melhor exprime sensibilidades e saberes do homem do início do terceiro milênio.” (p.10)

A apropriação que a arte faz do aparato tecnológico contemporâneo “difere significativamente daquela feita por outros setores da sociedade, como a indústria de bens de consumo. Em geral, aparelhos, instrumentos e máquinas semióticas não são projetadas para a produção de arte.” São feitas para produção em larga escala, como o caso do fonógrafo, que desembocou na poderosa indústria fonográfica, mas nunca para a produção de objetos singulares, singelos e ‘sublimes’.” (p.10) (Será?! Mas algum artefato é? Não é justamente o artista que dá um novo contexto e sentido para os recursos disponíveis ao seu redor?!)

“A fotografia, o cinema, o vídeo e o computador foram também concebidos e desenvolvidos segundo os mesmos princípios de produtividade e racionalidade, no interior de ambientes industriais e dentro da mesma lógica de expansão capitalista. Mesmo os aplicativos explicitamente destinados à criação artística, como os de autoria em computação gráfica, hipermídia e vídeo digital, apenas formalizam um conjunto de procedimentos conhecidos, herdados de uma história da arte já assimilada e consagrada” (p.11) e colocados a disposição de “um usuário genérico, leigo e ‘descartável’, de modo a permitir a produtividade em larga escala e atender uma demanda de tipo industrial.” (p. 12)

“Existem, portanto, diferentes maneiras de se lidar com as máquinas semióticas cada vez mais disponíveis no mercado eletrônico. A perspectiva artística é certamente a mais desviante de todas, uma vez que ela se afasta em tal intensidade do projeto tecnológico originalmente imprimido às máquinas e programas que equivale a uma completa reinvenção dos meios.” (p.13)

“O que faz, portanto, um verdadeiro criador, em vez de simplesmente submeter-se às determinações de aparato técnico, é subverter continuamente a função da máquina ou do programa que ele utiliza, é manejá-los no sentido contrário ao de sua produtividade programada.” “É uma recusa sistemática de submeter-se à lógica dos instrumentos de trabalho, ou de cumprir o projeto industrial das máquinas semióticas, reinventando, em contrapartida, as suas funções e finalidades. Longe de se deixar escravizar por uma norma, por um modo estandardizado de comunicar, as obras realmente fundadoras na verdade reinventam a maneira de se apropriar de uma tecnologia.” (p.14 e 15)

Seriam então os vídeos dos alunos, maneiras de subverter as tecnologias? Não somente consumir, mas também produzir, através de seus celulares e máquinas fotográficas, sendo explorados por novas funções, resultando em vídeos que expressam idéias, histórias e sentidos. Seria subversão?

“As técnicas, os artifícios, os dispositivos de que se utiliza o artista para conceber, construir e exibir seus trabalhos não são apenas ferramentas inertes, nem mediações inocentes, indiferentes aos resultados, que se poderiam substituir pro quaisquer outras. Eles estão carregados de conceitos, eles têm uma história e derivam de condições produtivas bastante específicas. A arte-mídia, como qualquer arte fortemente determinada pela mediação técnica, coloca o artista diante do desafio permanente de, ao mesmo tempo em que se abre às formas de produzir do presente, contrapor-se também ao determinismo tecnológico, recusar o projeto industrial já embutido nas máquinas e aparelhos, evitando assim  que sua obra resulte simplesmente num endosso dos objetivos de produtividade da sociedade tecnológica.” “O artista busca se apropriar das tecnologias mecânicas, audiovisuais, eletrônicas e digitais numa perspectiva inovadora, fazendo-as trabalhar em benefício de suas idéias estéticas. O desafio da arte-mídia (ou mídia educação?!) não está, portanto, na mera apologia ingênua das atuais possibilidades de criação. A arte-mídia deve, pelo contrário, traçar uma diferença nítida entre o que é, de um lado, a produção industrial de estímulos agradáveis para as mídias de massa, e de outro, a busca de uma ética estética para uma era eletrônica” (p.16 e 17)

Porém, não seria importante este artista conhecer as regras clássicas? Ampliar seu repertório, para então transgredi-lo?!

“A videoarte talvez tenha sido um dos primeiros lugares onde essa consciência se constituiu de forma clara desde o início.” (p.17)

Mas não podemos esquecer, que muitas transgressões, como a estética videoclipe, por exemplo, tornam-se regras. Carrière diz que as transgressões no cinema, como toda moda, vem e vão! Nascem como novas e são apropriadas exaustivamente até se tornarem “velhas”.

Arlindo Machado comenta de vários artistas da videoarte, e que “em nosso tempo, a mídia está permanentemente presente ao redor do artista, despejando o seu fluxo contínuo de sedução audiovisual, convidando ao gozo do consumo universal e chamando para si o peso das decisões no plano político. É difícil imaginar que um artista sintonizado com o seu tempo não se sinta forçado a se posicionar com relação a isso tudo e a se perguntar que papel significante a arte pode ainda desempenhar nesse contexto. (p.22)

“Sabemos que a arte é um processo de constante mutação.” “O mundo das mídias, com sua ruidosa irrupção no século XX, tem afetado substancialmente o conceito e a prática da arte, transformando a criação artística no interior da sociedade midiática numa discussão bastante complexa.” “Com o cinema, por exemplo, os produtos da criação artística e da produção midiática não são mais facilmente distinguidos com clareza.” “Há controvérsias se ele seria uma arte ou um meio de comunicação de massa. Ora, ele é as duas coisas ao mesmo tempo, se não for ainda outras mais.” (p.23)

“Não há também nenhuma razão para esses produtos qualitativos da comunicação de massa não serem considerados verdadeiras obras criativas do nosso tempo, sejam elas vistas como arte ou não.” (p.25)

“Assim como o livro impresso, tão hostilizado nos seus primórdios, acabou por se revelar o lugar privilegiado da literatura, não há porque a televisão e a Internet não possa abrigar as formas de arte do nosso tempo.” (p.26)

“Talvez possamos com proveito aplicar à arte produzida na era das mídias o mesmo raciocínio que Walter Benjamin aplicou à fotografia e ao cinema: o problema não é saber se ainda cabe considerarmos ‘artísticos’ objetos e eventos tais como um programa de televisão, uma história em quadrinhos ou um show de banda de rock. O que importa é perceber que a existência mesma desses produtos, a sua proliferação, a sua implementação na vida social colocam em crise os conceitos tradicionais e anteriores ao fenômeno artístico, exigindo formulações mais adequadas à nova sensibilidade que agora emerge.” (p.26)

“Com as formas tradicionais de arte entrando em fase de esgotamento, a confluência da arte com a mídia (ou convergência, segundo Jenkins) representa um campo de possibilidades e de energia criativa que poderá resultar proximamente num salto no conceito e na prática tanto da arte quanto da mídia – se houver, é claro, inteligências e sensibilidades suficientes para extrair frutos dessa nova situação.” (p.27)

“Quem fazer arte hoje, com os meios de hoje, está obrigatoriamente enfrentando a todo momento a questão da mídia e do seu contexto, com seus constrangimentos de ordem institucional e econômica, com seus imperativos de dispersão e anonimato, bem como com seus atributos de alcance e influência. Trata-se de uma prática ao mesmo tempo secular e moderna, afirmativa e negativa, integrada e apocalíptica. Os públicos dessa nova arte são cada vez mais heterogêneos, não necessariamente especializados e nem sempre se dão conta de que o que estão vivenciando é uma experiência estética.” (p.29)

Tecnologia e Arte: como politizar o debate 

“As novas tecnologias, associadas ao processo de globalização, penetraram todos os espaços do planeta e interferiram na vida de todos os povos, até mesmo das populações mais isoladas e refratárias à modernização, como é o caso dos povos indígenas. (exemplo da vídeo-carta ikpeng)” (p. 32)

“Não há mais como ignorar o fato de que a conexão universal via Internet é um fato consolidado e sem retorno.” (p.33) Isso não quer dizer que tenha sido feito de maneira igualitária. Há ainda muita desigualdade social e digital ao redor do mundo, diz Machado.

“A aceleração tecnológica modulou também o ritmo de nossas vidas, exigindo atualizações cada vez mais rápidas, premiando os que se adaptam mais facilmente e descartando os que não conseguem acompanhar a velocidade das mudanças.” “E as novas tecnologias colocaram ainda em risco o meio ambiente em que vivemos, promovendo os cenários catastróficos que diariamente perturbam as páginas dos jornais”. (p.34)

“O navegante da rede, integrado ao corpo das interfaces, não é mais um mero espectador passivo, incapaz de interferir no fluxo das energias e idéias; pelo contrário, ele se multiplica pelos nós da rede e se distribui por toda parte, interagindo com outros participantes e constituindo assim uma espécie de consciência coletiva.” (p. 35) (cultura participativa e inteligência coletiva do Jenkins)

“Ou você está no interior da rede ou não está em parte alguma. E, se você está no interior da rede, você está em todos os lugares.” (Ascott apud Machado - p.36)

“A importação em larga escala de idéias e de modelos de ação de outras realidades socioeconômicas tem impedido o desenvolvimento entre nós de uma consciência alternativa relacionada às novas tecnologias.” “A crítica ainda não foi capaz, entre nós, de discutir as novas tecnologias em toda sua complexidade, limitada que está, muitas vezes, por uma tendência tecnófoba igualmente ingênua e importada de modelos apocalípticos europeus ou norte-americanos.” (p.37)
“Não temos critérios suficientemente maduros para avaliar a contribuição de um artista ou de uma equipe de realizadores.”

Flusser e a filosofia da caixa-preta – exprime um problema novo, na medida que “a fotografia foi a primeira a colocar, no surgimento de aparatos tecnológicos que se podem utilizar e deles tirar proveito, sem que o utilizador tenha a menor idéia do que se passa em suas entranhas.” “um desconhecimento que se transforma em atividade”. (p.45)

“Somos, cada vez mais, operadores de rótulos, apertadores de botões, “funcionários” das máquinas, lidamos com situações programadas sem nos darmos conta delas. Pensamos que podemos escolher e, como decorrência disso, nos imaginamos livres e criativos, mas nossa liberdade e capacidade de invenção estão restritas a um software, a um conjunto de possibilidades dadas a priori que não podemos dominar inteiramente.” (p. 46)

A filosofia de Flusser seria então uma forma de refletir e discutir sobre “as possibilidades de criação e liberdade numa sociedade cada vez mais programada e centralizada pela tecnologia.” (p. 46)

“Cada vez mais artistas lançam mão do computador para construir suas imagens, músicas, textos, ambientes; o vídeo é agora uma presença quase inevitável em qualquer instalação. A incorporação interativa das respostas do público se transformou numa norma (quando não numa mania) em qualquer proposta artística que se pretenda atualizada e em sintonia com o estágio atual da cultura.” (p.53)

Trata-se agora de identificar “onde a inserção de novas tecnologias nas artes está introduzindo uma diferença qualitativa ou produzindo acontecimentos verdadeiramente novos em termos de meios de expressão, conteúdos e formas de experiência.” (p.57)

Convergência e divergência das artes e dos meios

“Podemos imaginar o universo da cultura como um mar de acontecimentos ligados à esfera humana e as artes ou os meios de comunicação como círculos que delimitam campos específicos de acontecimentos dentro desse ‘mar’.” “Na prática, é impossível delimitar com exatidão o campo abrangido por um meio de comunicação ou uma forma de cultura, pois as suas bordas são imprecisas e se confundem com outros campos.” É o caso do cinema, onde ser “impossível falar dele sem a fotografia.” (p.56 e 57)

A especificidade de cada meio, “aquilo que o distingue como tal e que nos permite diferenciá-lo dos outros meios e dos outros fatos da cultura humana”, tem ficado menos evidente, pois a medida que nos aproximamos das “bordas e zonas de intersecção”, “os conceitos que os definem podem ser transportados de uns para outros e as práticas e tecnologias podem ser compartilhadas.” (p.59)

“Fotografia, cinema, televisão e vídeo, apesar de serem bastante próximos em muitos aspectos, foram durante muito tempo, pensados e praticados de forma independente, por gente diferente, e esses grupos quase nunca se comunicavam ou trocavam experiências.” (p.63), porém nas “sociedades humanas, uma ênfase exagerada nas identidades isoladas podem levar à intolerância e à guerra entre culturas, enquanto os processos de hibridização podem favorecer uma convivêcia mais pacífica entre as diferenças”. (p.64)

Se considerarmos o cinema, enquanto “escrita do movimento”, incluindo todas as formas de expressão baseadas na imagem em movimento, “televisão e vídeo também passariam a ser cinema”. E pensando dessa maneira, o cinema encontraria uma vitalidade nova, que pode não apenas evitar o processo de fossilização, como também garantir sua hegemonia perante as demais formas de cultura. Se antes no passado, teatro de sombras, agora com este novo corte e contexto, o cinema expandido se tornaria audiovisual.

“Já não se pode mais determinar a natureza de cada um de seus elementos constitutivos, tamanha é a mistura, sobreposição, o empilhamento de procedimentos diversos,sejam eles antigos ou modernos, sofisticados ou elementares, tecnológicos ou artesanais.” (p.70)

E diante dessa forma múltipla de expressão, surgem novos produtos, com uma “nova gramática”, que depende também de uma “nova leitura” por parte do sujeito receptor. (p.75)

“Os novos processos imagéticos despejam seu fluxo de imagens e sons de forma simultânea, isso exige, da parte do receptor, reflexos rápidos para captar todas (ou parte delas) as conexões formuladas, numa velocidade que pode mesmo parecer estonteante a um ‘leitor’ mais conservador, não familiarizado com as formas expressivas da contemporaneidade.” (p.76)

Não se pode esquecer, que a “hibridização produz inovação e abanco, mas também relações de desigualdade e assimetrias entre os fatos da cultura que ela agrega.” (p.77)

“Além disso, as constantes fusões e mudanças tecnológicas impedem que novas gerações possam ter tempo suficiente para amadurecer o domínio de um meio ou técnica, tornando os novos produtos necessariamente mais superficiais e de fôlego mais curto. Nos tempos da divergência e da especificidade, um cineasta levava muito tempo para chegar à direção, passando pro um longo processo de amadurecimento como assistente de direção e diretor de curtas-metragens. Hoje, uma nova tecnologia ou numa nova mídia não dura mais que cinco ou dez anos, impossibilitando portando o amadurecimento profissional, a constituição de uma linguagem suficientemente desenvolvida, a destilação de uma estética e a formação de um acervo de obras representativas. Às vezes, o hibridismo podem até mesmo dar expressão a algum tipo de esquizofrenia, como acontece nos ambientes computacionais, em que a possibilidade de acesso às mais variadas fontes e formatos digitais e a facilidade de fusão de todas essas fontes na tela do computador fazem com que muitos realizadores se sintam quase constrangidos a juntar tudo, produzindo resultados que estão mais para a pirotecnia de efeitos do que para a consistência estética e comunicativa do produto”. (caso dos filmes atuais...)

“A hibridização e a convergência dos meios são processos de intersecção, de transações e de diálogo, implicam movimentos de trânsito e provisoriedade, implicam também as tensões dos elementos híbridos convergidos, partes que se desgarram e não chegam a fundir-se completamente.” (p.78) 

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Como complemento (e ótima síntese) sugiro a apresentação no prezi do colega Gilson.

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