quarta-feira, 7 de março de 2012

“A cultura da Educação” de Jerome Bruner

 
Este foi um livro fundamental em minha trajetória acadêmica, mesmo sendo uma leitura recente. Demorei pra ler (200 páginas em 2 tardes), mas às vezes o tempo é necessário para que a leitura seja mais rica e produtiva. 

E ainda mais importante que ler, é transcrever as passagens importantes e articular a leitura em paráfrases e explicações orais (aos amigos e marido cobaia), com direito a debates e devaneios. 

Como Bruner mesmo diz, só 'externalizando' o conhecimento adquirido é que o aprendizado se 'concretiza'. Essa é minha maior razão de socializar parte de minhas leituras e reflexões no blog: iluminar, instigar, provocar, trocar (ou qualquer coisa parecida) com possíveis leitores e interessados! =)

Segue o super resumo, com ênfase nos capítulos que mais me interessaram:

Prefácio

“O ensino é apenas uma pequena parte do modo como uma cultura inicia as crianças em suas formas canônicas.” (P.vii)

Bruner  questiona o objetivo das escolas “que deveria ser o de simplesmente reproduzir a cultura”, inserindo nos alunos, os valores, normas, padrões e comportamentos da sociedade em que vivem, mas acredita que a principal preocupação deveria ser a de “preparar os alunos para lidarem com o mundo em mutação no qual estarão vivendo!”

Bruner diz que o título deste livro se deve ao fato de que “a cultura molda a mente” e é ela que “nos dá um conjunto de ferramentas com as quais construímos não apenas nossos mundos, mas nossas próprias concepções de nós mesmos e de nossas capacidades.”

“O conhecimento adquirido é mais útil para alguém que está aprendendo quando ele é ‘descoberto’ por meio dos esforços cognitivos do próprio indivíduo que está aprendendo, pois, dessa forma, ele é relacionado ao que se conhecia antes e utilizado em referência a isto.” – Aprender fazendo! “O professor, nesta versão da pedagogia, é um guia para o entendimento, alguém que ajuda o aluno a descobrir por conta própria.” (P. XI)

Bruner considera a narrativa “como um modo de pensamento e uma expressão da visão de mundo de uma cultura. É por meio de nossas próprias narrativas que construímos principalmente uma versão de nós mesmos no mundo, e é por meio de sua narrativa que uma cultura fornece modelos de identidade e agência de membros. A apreciação da narrativa não vem de uma única disciplina, mas de uma confluência de muitas: literatura, socioantropologia, lingüística, história, psicologia, até mesmo informática.”

Bruner valoriza as escolas que ‘estabeleceram ‘culturas de aprendizagem mútua’, pois seria a melhor maneira de compartilhar a cultura, trocando “conhecimento e idéias, divisão de trabalhos, troca de papéis e oportunidade de refletir sobre as atividades do grupo.” (relação com Jenkins e Levy – comunidades do conhecimento)

  1. Cultura, mente e educação (mais revelador!)
Resumo: Neste capítulo, Bruner distingue sobre duas visões da mente – computacional e cultural, onde a cultural seria a mais adequada para pensar a educação. O papel da escola seria o de transmitir e oportunizar uma construção cultural dos alunos, onde a expressão narrativa seria parte fundamental da construção de identidade e desenvolvimento de auto-estima. Ele estabelece 9 preceitos fundamentais relacionados à educação e cultura:  perspectiva, restrições, construtivista, interacional, externalização , instrumentalismo, institucional, identidade/auto-estima e narrativo

Na visão do culturalismo, “a mente não poderia existir se não fosse a cultura”, pois “a evolução da mente humana está ligada ao desenvolvimento de uma forma de vida onde a ‘realidade’ é representada por um simbolismo compartilhado por membros de uma comunidade cultural na qual uma forma técnico-social de vida é organizada e interpretada em termos desse simbolismo. Esse modo simbólico não é apenas compartilhado por uma comunidade, mas conservado, elaborado e transmitido a gerações da sucessivas que, devido a esta transmissão, continuam a manter a identidade da cultura e o modo de vida.” (p.16)

Além disso, Bruner diz que o culturalismo “toma como sua primeira premissa o fato de que a educação não é uma ilha, mas parte do continente da cultura.” (p.22)

“A cultura, portanto, embora produzida pelo homem, ao mesmo tempo forma e possibilita o funcionamento de uma mente distintamente humana. Nesta visão, a aprendizagem e o pensamento estão sempre situados em um contexto cultural e dependem da utilização de recursos culturais. (...) A mente igualada ao poder de associação e à formação de hábitos privilegia o ‘exercício de repetição’ como a verdadeira pedagogia, ao passo que a mente considerada como capacidade de reflexão e discurso sobre a natureza de verdades necessárias favorece o diálogo socrático. E, ainda, tudo isto está ligado a nossa concepção de sociedade e cidadãos idéias.” (p.17)

“Pensar sobre o pensar deve ser um ingrediente principal em qualquer prática da educação que delegue poderes.” (p.28)

Em relação ao papel da educação é importante considerar que ‘a realidade que atribuímos aos mundos que habitamos são realidades construídas’ e a ‘educação deve ser concebida como algo que auxilie o ser humano a aprender a utilizar as ferramentas de produção de significado e de construção da realidade, a adaptar-se melhor ao mundo em que ele se encontra, ajudando no processo de modificá-lo quando necessário. Neste sentido, ela pode até mesmo ser concebida como ajudando a se tornarem melhores arquitetos e construtores.’ (p.28-29) (relação com Hannah Arendt)

Bruner então critica a educação tradicional, que ignora o saber dos alunos, como se fossem’ tabulas rasas’ e torna professores transmissores do saber. Na opinião dele, a melhor maneira de superar essa visão e abordagem pedagógica seria considerar espaços onde os indivíduos ajudam uns aos outros, cada qual de acordo com suas habilidades, como já defende Jenkins e Levy sobre as comunidades do conhecimento e inteligência coletiva. Isso não quer dizer que a presença de um professor não seja necessária, mas que ele não precisa exercer sua função de forma monopolizada, mas possibilitar um espaço de troca entre todos! (p.29)

Para Bruner “a aprendizagem (e tudo mais que ela possa ser) é um processo interativo no qual as pessoas aprendem umas das outras, e não apenas mostrando e dizendo.” (relação com Paulo Freire)

Neste sentido, Bruner considera de extrema importância a externalização do conhecimento, pois só assim envolve “um registro de nossos esforços mentais, que fica fora de nós e não vagamente na memória. É algo parecido como produzir um rascunho, um esboço, uma ‘maquete’” do saber. (p.31)

“O maior marco na história da externalização foi o surgimento da escrita e da leitura, que colocaram o pensamento e a memória que andavam ‘por aí’ em tabuletas de argila ou em papel. (p.32)

Bruner destaca que a escola é um dos primeiros contatos da vida fora da família, portanto essencial na formação de identidades e papéis sociais. (p.41) Seria então fundamental que as instituições de ensino trabalhassem a auto-estima da criança ou deixariam de cumprir uma das suas funções principais. 

“A escola é uma entrada para a cultura e não apenas um preparo para a mesma, então devemos reavaliar constantemente o que a escola faz para a concepção que o aluno jovem tem de seus próprios poderes e de suas chances percebidas de ser capaz de lidar com o mundo na escola e após a mesma (sua auto-estima).”

“O modo de pensar e sentir que ajuda as crianças (e pessoas em geral) a criar uma versão do mundo na qual, psicologicamente, elas podem vislumbrar um lugar para si – um mundo pessoal. Acredito que a invenção de histórias, a narrativa, é o elemento necessário para isto.” (p.43)

“Narrativa como um modo de pensamento e como um veículo de produção de significado.” (p.44)

Bruner diz que parece haver duas formas dos seres humanos organizarem seu conhecimento do mundo: pensamento lógico-científico e narrativo. (p.44)

E o autor diz que “a convenção na maioria das escolas tem sido tratar as artes da narrativa – canto, drama, ficção, teatro  (e porque não, cinema) – mais como ‘decoração’ do que necessidade, algo cm o qual adornamos o lazer, às vezes até mesmo como algo moralmente exemplar”. (p.44)

Bruner diz que nossas experiências são estruturadass em formato de histórias, onde “representamos nossas vidas (para nós mesmos e para os outros) na forma de narrativa e onde nos identificamos e construímos nossas identidades. É de extrema importância desenvolver uma sensibilidade narrativa, ou teremos problemas em identificar nossa personalidade e nosso lugar no mundo. Bruner diz que engana-se aquele que acredita ser uma habilidade natural, pois ‘para que a narrativa se transforme em um instrumento da mente no lugar da produção de significado, é preciso lê-la, produzi-la, analisá-la, entender seus mecanismos, sentir seus usos, discuti-la.” (p. 45)

“Um sistema de educação deve ajudar aqueles que estão crescendo em uma cultura a encontrar uma identidade dentro dela mesma. Sem ela, eles tropeçam em seu esforço de significado. É apenas no modo narrativo que um indivíduo pode construir uma identidade e encontrar um lugar em sua cultura. As escolas devem cultivá-la, alimentá-la e parar de desconsiderá-la.” (p.46)

  1. Pedagogia popular
Resumo: Neste capítulo, Bruner comenta sobre o método intuitivo do professor já em sala e a importância de considerá-lo e fundamentá-lo. Além disso, fala sobre 4 perspectivas da pedagogia, onde o aluno-ativo seria a visão mais adequada atualmente.

“Ao se elaborar teorias sobre a prática da educação em sala de aula (ou em qualquer outro contexto, se for o caso) seria melhor levar em consideração as teorias populares que aqueles que participam do processo de ensino já possuem. Qualquer inovação que você, como um ‘autêntico’ teórico da pedagogia, possa querer introduzir, substituir ou modificar, terá que concorrer com as teorias populares que já guiam professores e alunos.” (p.54) 

Bruner recomenda que se considere o saber da criança e a ajude a reconhecer o que já sabe sobre determinado assunto (externalização), pois assim o educador ‘terá levado as crianças a reconhecerem que elas sabem muito mais do que pensam saber, mas que elas têm que ‘pensar sobre o assunto’ para saberem o que sabem”. (...) Ao ensinar e aprender desta forma, significa que o educador adotou uma teoria da mente (e da aprendizagem). (p.58-59)

Ele exemplifica dizendo que uma discussão em grupo pode gerar mais conhecimento, do que uma simples ‘descoberta’ do conhecimento (aula expositiva). (p.59)

Bruner diz que há 4 modelos de mente e de pedagogia (forma de ensino e educação) (P.59-67):

  1. Enxergar as crianças como aprendizes por imitação
  2. Enxergar as crianças como se estas aprendessem a partir da exposição didática (inatismo)
  3. Enxergar as crianças como seres pensantes
  4. As crianças como detentoras de conhecimento
O autor diz então que o ensino real não se limita a apenas um modelo de aprendizagem e de ensino. “A maior parte das escolas tem por objetivo cultivar habilidades e capacidades, transmitir um conhecimento de fatos e teorias e cultivar o entendimento das crenças e intenções daqueles que se encontram próximos e distantes.” (p.67)

Para ele, as concepções adequadas seriam aquelas que enxergam as crianças como seres pensantes e como detentoras de conhecimento. 

  1. A complexidade dos objetivos educacionais
Resumo: Neste capítulo, Bruner aborda as contradições na educação (objetivos e funções) e o papel fundamental do professor como agente transformador, onde o foco deveria ser numa educação plena, com alunos autônomos, conscientes e que possam transformar e superar sua realidade e cultura.

  1. Ensinando o presente, o passado e o possível
Resumo: Neste capítulo, Bruner defende 4 ideias fundamentais para transformar a educação: agência, reflexão, colaboração e cultura. Também ressalta a importância da narrativa no processo educativo e sua estrutura básica.

Bruner destaca 4 idéias cruciais para educação, sendo agência, a capacidade do indivíduo de assumir maior controle sobre a própria atividade mental; reflexão como capacidade de entender o que se aprende e seus sentidos; colaboração como a capacidade de compartilhar o conhecimento entre grupos; e cultura, como um modo de vida e pensamento que  construímos e negociamos, transformando em ‘realidade’.

“Nós não aprendemos um modo de vida e formas de empregar a mente sem auxílio, sem apoio, nus perante o mundo. E não é apenas a aquisição da linguagem que faz com que as coisas sejam assim, é o ‘toma lá da cá’ da conversação que torna a colaboração possível. Pois a mente ativa não é só ativa por natureza, mas também busca o diálogo e o discurso com outras mentes, também ativas. E é por meio deste processo discursivo e de diálogo que passamos a conhecer o Outro e seus pontos de vista, suas histórias. Aprendemos muito não apenas sobre o mundo, mas sobre nós mesmos  pelo discurso com os Outros!” (p.94)
“A escola é uma cultura em si, não apenas um preparo, um aquecimento. (..) A cultura é um conjunto de ferramentas com técnicas e procedimentos para entender o mundo e lidar com ele. (...) Uma análise mais atenta da estrutura narrativa poderia ajudar os alunos a entenderem histórias que eles constroem sobre seus mundos.” (p.98)


  1. Entendendo e explicando outras mentes
Resumo: Neste capítulo, Bruner fala sobre as teorias da mente e como nossa bagagem cultural influencia nossa maneira de pensar.

  1. Narrativas da ciência
Resumo: Neste capítulo, Bruner relaciona ciência e narrativa.

“Uma das primeiras e mais naturais formas pela qual organizamos nossa experiência e nosso conhecimento é em termos do formato narrativo. (...) Narrativa é discurso, e a principal regra é haver um motivo para que o mesmo se distinga do silêncio. (...) Uma história portanto tem dois lados: uma seqüência de eventos e uma avaliação implícita dos eventos contados. (...) Você não pode explicar uma história, tudo que pode fazer é dar a ela várias interpretações.” (p.119)

“A arte de levantar perguntas desafiadoras é facilmente tão importante quanto a arte de dar respostas claras. (...) A arte de cultivar tais perguntas, de manter perguntas vivas, é tão importante quanto estes dois. Boas perguntas são sempre aquelas que apresentam dilemas, que subvertem as ‘verdades’ óbvias ou canônicas, que fazem com pré prestemos atenção nas incongruências.” (p.123)

“Ser capaz de ‘ir além das informações’ dadas para se ‘descobrir as coisas’ é uma das poucas eternas alegrias da vida. Um dos grandes triunfos de se aprender (e de ensinar) é organizar as coisas em sua cabeça de uma forma que permita que você saiba mais do que ‘deveria’. O inimigo da reflexão é a velocidade arriscada – mil imagens. (...) A história é como você consegue extrair o máximo do mínimo. E a solução é aprender a pensar com o que você já conhece.” (p.125)

  1. A interpretação narrativa da realidade
Resumo: Neste capítulo, Bruner fala sobre a estrutura narrativa e sua relação com o ensino.
               
  1. Saber é igual a fazer
Resumo: Neste capítulo, Bruner reflete sobre a teorização da prática e sobre saber intuitivo.

  1. O próximo capítulo da psicologia
Resumo: Este capítulo é complexo e o autor dividiu em 2 partes. Bruner fala sobre a importância de estudar a mente humana em sua capacidade de aprendizado, considerando os aspectos biológicos, e também os aspectos culturais.

Um comentário:

  1. Olá! Primeiramente, gostaria de parabenizá-la pelo Blog e pela "externalização" do tema "cultura em Bruner". Estou começando a conhecer este fabuloso autor dada a minha dissertação de mestrado que tem relação com suas concepções...Como és mestranda em educação, tenho grande interesse de "trocar figurinhas" se quiseres é claro! Um grande abraço e sucesso!
    Contato: luh_bio07@hotmail.com

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