sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

"A palavra pintada" de Tom Wolfe


O livro é bacana e numa linguagem descontraída e coloquial, Wolfe narra o percurso da Arte Moderna e como a teoria sobre determinado objeto artístico passou a importar mais do que a própria manifestação da arte.

Passagens importantes
 
“As pessoas não lêem o jornal matutino, disse Marshall McLuhan certa vez, mergulham nele como se fosse um banho morno.” (p.5) – estado de privação sensorial do público atual.

Wolfe diz que na arte ‘crer é ver, pois a Arte Moderna se tornou inteiramente literária: as pinturas e outras obras só existem para ilustrar o texto.’

“Metade da força da pintura realista não advém do artista, mas dos sentimentos que o observador transporta para a tela, como uma bagagem mental.” P. 10

“A arte deve deixar de ser um espelho que reflete o homem ou a natureza. Uma pintura deve forçar o observador a vê-la pelo que é: um determinado arranjo de cores e formas numa tela. (...) Os artistas se empenharam com energia na tarefa de teorizá-la.”

Wolfe diz que os artistas sempre mantiveram relações com a elite, seja corte real ou burguesia, mas esse “retrato moderno do artista começou a se delinear: o espírito pobre, porém livre, o plebeu que aspira não pertencer a classe alguma, a se libertar para sempre das peias da burguesia ambiciosa e hipócrita, a ser o que burgueses obesos mais temiam, a ultrapassar quaisquer limites que estes estabelecessem, a olhar o mundo de uma forma que eles não conseguiam ver, andar alto, viver modestamente, manter-se sempre jovem – em suma, ser o boêmio.”  

Filmes como 'Meia noite em Paris' e 'Noel, poeta da vila' – ilustram esta vida do boêmio e dos grandes salões freqüentados por artistas.

Wolfe ironiza que a postura dos boêmios era de descaso e despreocupação com o reconhecimento de sua obra por outros artistas e por críticos especializados, mas no fundo todos queriam abocanhar uma fatia e se tornarem ‘alguém’. 

Os artistas anônimos se reunia para expor e discutir suas criações, na esperança de serem notados e apresentarem algo novo e diferente, tornando-se revolucionários, importantes e transformadores, mas sempre dependendo do julgamento de um crítico especializado. “As artes sempre foram a porta de entrada da sociedade.”

A arte moderna pertence ao período pós-guerra (1ª G.M.) e o público não tinha papel na definição do que era ou não arte. “O público não está convidado (recebe uma participação impressa depois).”

“A ideia de que o público aceita ou rejeita qualquer coisa em Arte Moderna, a idéia de que o público escarnece, despreza, não consegue compreender, deixa esmorecer, aniquila, ou comete qualquer outro crime contra a Arte ou artista isoladamente é apenas uma ficção romântica, um sentimento agridoce. (...) O público compra livros em brochuras e encadernações aos milhões, o público que compra discos aos bilhões e lota os estádios para assistir concertos, o público que gasta 100 milhões de dólares em um único filme – esse público influencia o gosto, a teoria e a perspectiva artística na literatura, na música e no teatro. (...) O mesmo nunca foi verdadeiro com relação à arte. O público cujos números gloriosos são registrados nos relatórios anuais de museus, todos aqueles estudantes e ônibus de turistas e mamães e papais intelectuais fortuitos...são apenas turistas, colecionadores de autógrafos, basbaques, espectadores de desfiles, quando se trata do jogo do Sucesso da Arte.” (p. 30)

Com isto, Wolfe afirma que o mundo da arte é uma aldeia, formada por minorias, que determinam o que é ou não arte e se apropriam de teorias para justificar suas obras e engrandecê-las, buscando sempre a novidade, a superação da superação.

“Uma curiosa mudança estava ocorrendo no próprio cerne da atividade do pintor. Inicialmente o Modernismo fora uma reação ao realismo do século XIX, uma abstração, um diagrama do realismo, para usar uma expressão de John Berger, da mesma forma que uma planta baixa é o diagrama de uma casa. Mas esse Expressionismo Abstrato...era uma reação ao próprio modernismo inicial...Era a abstração de uma abstração. (...) Em suma, a nova ordem no mundo da arte era: primeiro você encontra a palavra, depois você vê.” (p.66-67)

“Os artistas não pareciam ter a menor idéia de como a Teoria estava se tornando básica. Eu me pergunto se os teóricos teriam. Todos, artistas e teóricos, falavam como se o o seu objetivo consciente fosse criar uma arte inteiramente imediata, lúcida, despida de toda a horrível bagagem histórica, uma arte sem mistérios, honesta como o plano integral do quadro. (...)Ninguém mais estava imune á teoria. Pollock dizia coisas como: ‘Cézanne não criou teorias. Elas surgiram depois.’” (p.67)

Wolfe ironiza novamente a forma de ver a arte moderna, pois a preocupação residia na teoria, mas suas obras complexas, subjetivas e abstratas exigiam tanto do espectador, mesmo o apurado, e seu repertório necessário, que apreciá-las era um esforço. Depois de se empenhar em abstrair a abstração, desafiar o gosto burguês, mistificar as massas, os artistas e seus curadores não entendiam porque ninguém queria consumir ou comprar estas obras. “O mundo da arte fora restrito com êxito a umas 10 mil pessoas no mundo inteiro.” (p.73)

O expressionismo abstrato se desgastou e a pop art deslanchou. Com esta nova forma de ver a arte, a recusa da abstração e da teoria, valorização do realismo distorcido através de objetos banais, a Pop Arte acreditava que ser artista não era nada diferente de outras funções. Abala-se então a visão glamorosa do artista (boêmio).

A arte pop se baseava em transformar códigos e símbolos cotidianos em objetos de arte. Nem conteúdo e nem forma. Nem abstração, nem realismo e própria para o consumo. Reflexão e provocação ao papel passivo do consumidor de cultura.

Wolfe afirma então que um movimento (ismo) foi sempre a negação ou ‘comentário’ de um (ismo) movimento anterior. “Independentemente de outros predicados, toda grande arte versa sobre a arte.” (p.87)

“O boêmio, por definição, era alguém que fazia coisas que o burguês não ousava fazer. (...) Nada é mais burguês do que ter medo de parecer burguês.” (p.93)

Após a arte pop, a teoria voltou-se para o reducionismo e assim ‘a verdadeira arte é apenas aquilo que se passa em nosso cérebro.’ (p.104)

Se antes as telas eram necessárias, a abstração passou a considerar também outros materiais. Pinturas e instalações passaram a ser espaços de arte também, e telas já não eram necessárias.

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