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quinta-feira, 15 de março de 2012

"Esboços de Frank Gehry" de Sydney Pollack 2005


Este documentário foi exibido recentemente na semana de atividades do PPGE - UFSC , com a presença da Profª Dra. Marisa Vorraber Costa para discutir a relação 'cultura e pedagogia' e o papel do pesquisador.

Frank Gehry é um arquiteto contemporâneo, que escolheu o amigo Pollack, que não entendia nada de arquitetura e documentário, para contar um pouco sobre a vida e trabalho desse artista fantástico que não entendia nada de cinema. 

De forma clássica, Pollack consegue reunir em imagens, depoimentos, entrevistas, montagem e uma divertida trilha sonora, um pouco da vida de Gehry e seu processo (fantástico) de criação.

Museu Guggenheim Bilbao, em Bilbao, Espanha

A importância de Gehry para esse período de reflexão sobre a pós-modernidade, está na relação das suas obras arquitetônicas com as tecnologias atuais, numa espécie de simbiose beleza&tecnologia, onde elas só poderiam existir através do computador e seus cálculos precisos. Gehry confronta as regras e 'verdades absolutas' da arquitetura com suas criações exóticas, caóticas, orgânicas, narrativas, que desafiam as leis da física.

A partir do documentário, podemos perceber que Gehry sempre teve uma relação próxima com a arte já na infância, onde sua avó sentava com ele e passavam tardes criando cidades e construções com simples blocos de madeira. Foi essa experiência marcante que influenciou sua escolha profissional. De alguma maneira, quando jovem, ao pensar sobre o que queria fazer da vida, ele se lembrava dos blocos de madeira e das tardes com a avó.

Ele também gostava de desenhar com seu pai e um desses desenhos foi elogiado pelo professor e valorizado pela mãe, que acreditavam que um dia ele seria um grande 'arquiteto'. Dito e feito!

E antes de fazer arquitetura, Gehry fez um curso de cerâmica e já nessa experiência se divertia com as formas imprevisíveis que suas criações em argila ganhavam ao sairem do forno. "Uau! Que beleza! Eu fiz isso?!" 
 

Gehry sempre teve uma relação de medo e fascínio por suas obras. São como filhos, que nascem para o mundo e tem vida própria. Aqui lembrei de Barthes e seu texto "A morte do autor", pois nossas criações deixam de ser nossa ao serem compartilhadas com o 'mundo'. Ganham vida e oferecem múltiplas possibilidades de relações e conexões.

Marisa relacionou este medo e fascínio com as pesquisas que fazemos na pós-graduação. Diz que nós 'inventamos e criamos' os problemas que tratamos em nossos trabalhos, eles não existem e apenas os pescamos, mas são criados por nós. Talvez seria melhor dizer que os identificamos num mundo posto, onde estabelecemos relações e conexões. Marisa diz que pesquisa requer paixão, fascínio pelo processo. Somos apaixonados por ela, ou não conseguimos seguir adiante. "Sem tesão, não há solução". 

Somos pesquisadores-artistas, como Gehry, que trabalha com paixão, teme a rejeição, mas segue em frente, diante de críticas, desafios e problemas. 

Assim como Gehry, nós pesquisadores também nos sentimos confusos, perdidos, com medo de não saber o que fazer e por onde começar. O arquiteto diz que isso é apavorante, mas que criar é assumir riscos.

Em certo momento do documentário observamos Gehry e sua equipe criarem uma nova obra. E para ele há o momento de escuta, de silêncio, de observar e buscar em palavras suas inquietações. "Não sei ainda do que não gosto, mas não gosto."

Em relação a sua profissão, Gehry acredita que se uma pessoa tem uma ideia, porque não experimentar? Ele vive o momento, aproveita as ideias dos outros, relaciona qualquer coisa (moda, pintura, escultura, objeto, desejo, história) e isso o inspira a criar algo novo. Ele diz que é quase mágico e isso me fez pensar sobre o 'punctum' de Barthes. O importante exercício de refletir sobre o que nos toca em relação ao outro, seja pessoa, objeto, artefato, som, filme, etc.Gehry diz que 'todo lugar pode servir de inspiração'.


Gehry fala muito sobre a diferença de ser jovem, cheio de sonhos e anseios, e da experiência de envelhecer e perceber que o que fazemos não se reflete no agora e que o trabalho em equipe é de extrema importância. Ele diz que a perfeição não existe ou não pode ser alcançada. Com o tempo, a frustração diminui e relaxar diante da imperfeição, fica mais fácil.

Em sua arquitetura, Gehry procura respeitar o outro e talvez por isso crie coisas tão caóticas. Suas distorções possibilitam que um prédio velho não seja ofuscado, que a vista do mar não seja exclusiva, que as regras possam ser quebradas e as pessoas possam interagir com suas criações, conectarem-se com elas.

Em certo momento do filme compreendemos, assim como diz Tom Wolfe (A palavra pintada), que diante da beleza e inovação de suas obras, teóricos se apressaram em conceituá-las e classificá-las para que pudessem ter o estatuto de arte.

Já outros críticos questionam as criações de Gehry, enquanto espetáculo e marca. Seriam arte mesmo?!

Gehry é um artista do seu tempo, que imprime em suas obras, incluindo as novas tecnologias, o contexto em que vive. Aqui é importante pensar que a tecnologia não cria, mas projeta, permite, possibilita superar. Esta deve ser a postura da educação diante dessa Era das novas tecnologias. Aproveitá-la como uma ponte, como ferramenta fundamental da expressão e criatividade humanas!

Para ele, a satisfação não está no resultado, mas no processo, na possibilidade do esboço. Do fim como um novo começo. 

Marisa diz que em relação à pesquisa, quando terminamos um trabalho é o melhor momento de publicarmos artigos, revisitá-lo. É o momento de maior inspiração.

Ela também acrescenta que todo risco exige coragem, determinação, disposição, pois não é fácil saltar fora da ordem, duvidar, dobrar e subverter as regras. Gehry e nós, assumimos os riscos, mas não sem medos!

Num diálogo de Gehry e Pollack, podemos refletir sobre a relação comercial e artística de confronto dos artefatos e criações humanas, ou ainda, da relação do trabalho com a necessidade financeira e necessidade da expressão da arte, onde os dois reconhecem ser possível encontrar pequenos espaços, seja na arquitetura ou no cinema, seja na Academia, de dizer algo novo, citando algo velho, de mostrar que há outras coisas além das que já se conhece. 

Para que nossas crianças possam produzir arte, buscando articular realização profissional e criatividade, é preciso resgatar as vivências familiares, tão esvaziadas pelas mídias, segundo Marisa. Ao invés de 'medicar', canalizar sua energia excessiva para a criação, onde as novas tecnologias (tv, computador, internet), artefatos do nosso tempo, possam servir de ferramenta e potência de superação.

Defesa: "Khilá! (Des)encontros da Voz na Travessia Brasil-Moçambique"

Esta semana aconteceu a defesa da tese de doutorado da nossa colega Roselete, com o título "Khilá! (Des)encontros da Voz na Travessia Brasil-Moçambique", muito emocionante e especial!!

Com isto, resolvi postar sobre ela e sobre as últimas 4 defesas que compareci, super especiais e que podem ilustrar um pouquinho dos trabalhos realizados pelos colegas do Grupo de Pesquisa Núcleo Infância Comunicação e Arte (NICA), da linha (ou curva, espiral, círculo) de pesquisa Educação e Comunicação do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSC.

Começo com minhas impressões e 'pescadas' sobre o trabalho da Roselete Fagundes de Aviz de Souza -"Khilá! (Des)encontros da Voz na Travessia Brasil-Moçambique" 

Banca:
Dra. Gilka Elvira Ponzi Girardello (CED/UFSC-Orientadora)
Dr. José de Sousa Miguel Lopes (UEMG-Examinador)
Dra. Ida Mara Freire (CED/UFSC-Examinadora)
Dr. Wladimir Antonio da Costa Garcia (CED/UFSC-Examinador)
Dra. Glória Mercedes Valdívia Kirinus (UFPR-Examinadora)
Dra. Telma Anita Piacentini (UFSC-Suplente)
Dra. Mônica Fantin (CED/UFSC-Suplente)



E participação da cineasta moçambicana Isabel Noronha.

 
Em conversa com Roselete, ela me disse que sua inquietação e curiosidade partiam da pergunta "Como a mídia interfere na 'voz' das pessoas?" e em sua travessia, novas questões, inquietações e curiosidades moldaram outras possibilidades de trabalho.

Em relação a Educação, seu trabalho reflete sobre a questão da formação e da voz como algo aberto, como uma viagem, como um devir. Sobre o professor como um viajante, sem itinerário ou cartilha. Seria possível?!

'Khilá!' significa uma interjeição que esboça uma tentativa de canção, ou no caso, de uma pesquisa de doutorado.

Roselete também falou sobre a importância da pausa na pesquisa, na vida, no aprendizado. O vazio, pausa, intervalo, silêncio como essencial para criação, produção e funcionamento das coisas. Ela diz que 'o entre é essencial para o movimento". E cita Barthes e sua ideia de neutro e das coisas que se sobrepõem. 

Para ilustrar essa relação da voz e do silêncio, Rose trouxe a música "O silêncio" de Arnaldo Antunes:

"antes de existir computador existia tevê
antes de existir tevê existia luz elétrica
antes de existir luz elétrica existia bicicleta
antes de existir bicicleta existia enciclopédia
antes de existir enciclopédia existia alfabeto
antes de existir alfabeto existia a voz
antes de existir a voz existia o silêncio
o silêncio
foi a primeira coisa que existiu
um silêncio que ninguém ouviu...."

Roselete então apresentou a proposta da sua tese e como pensar 'a voz' na perspectiva de vários pensadores, artistas e autores, no capítulo "Sete visitas à exposição na casa da voz": Derrida, Barthes, Deleuze, Guattari, Kandisky, Mia Couto, Nietzsche, foram alguns deles.

Voz como morada e narrativa, como diferença, como formadora de subjetividade, como algo que não precisa da presença física, voz como escuta, silêncio, vazio. Porque o branco, vazio, silêncio nem sempre são 'o Nada', mas possibilidades e alegrias. Mas ela diz que o silêncio também violência, medo e é através da expressão e da arte que às vezes pode ser superado.

Rose também trouxe a influência de Deleuze e da importância da decepção, do desencontro, momento fundamental da busca. Ela diz que o 'toque', a sacada, a compreensão e aprendizado pode acontecer muito tempo depois da experiência vivenciada. 

Rose então encerrou falando sobre como seu trabalho poderia ser aproveitado na educação. Talvez um 'fazer pensar' sobre uma outra didática, uma nova postura do professor diante da educação, "ir não sei aonde, buscar não sei o quê!" (Angela Lago) ou melhor seria: ir para algum lugar fazer/buscar alguma coisa, só não saber exatamente o quê. Postura de descompromisso, desencontro, desaprendizado, de liberdade frente ao convite de mudança. Postura de 'ser no fazer, a partir do fazer'.

"Uma janela se abriu
Um sol poente se fez
A melodia surgiu
Assim toda de uma vez!"
(Aline Frazão)

Rose iniciou sua fala cantando Aline Frazão e terminou com este belo verso! =)

Considerações da banca:

Não fiquei até o final, mas ouvi alguns comentários muito bacanas.

A Profª Glória Mercedes Valdíria Kirinus falou sobre a condição de julgamento de uma banca (ataque/defesa) e preferiu chamar aquele momento de 'dança'. Disse uma frase muito bacana "quando leio algo, sou contagiada profundamente pelo discurso e fica difícil dizer algo sem estar impregnada por essa voz que me contagia." Falou também sobre a relação do trabalho de Rose com o conhecimento bíblico e a criação divina, Deus 'foi de um lugar a outro'. Criar como viajar, se transportar. Na Grécia, ônibus significa metáfora! Talvez por isso, para irmos a algum lugar, ás vezes precisamos de 'metáforas'.

Ela diz que o que torna uma tese rica, é a capacidade de provocação para novas leituras e resgate de velhas. Talvez por isso, ao lermos muito, em conversas é inevitável não resgatar autores, estabelecer relações e articular com a fala, típico de um membro de uma banca, mas de quem se dispõe a estudar mais e mais!


Já o Profº Miguel Lopes citou Saramago: "Às vezes precisamos caminhar para bem longe, para encontrar o que está bem perto!" E Rose confirmou, dizendo que às vezes é necessário sair da escrita para dar conta dela e percebeu isso fazendo um curso de cerâmica, onde aprendeu que é possível limpar (mais) algo que parecia pronto e do olhar de perto e à distância.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

ABCiber 2011 - “Ator-rede e cibercultura”


com Fernanda Bruno (UFRJ), Erick Felinto Oliveira (UERJ), Lúcia Santaella (PUC-SP)e Theophilos (via web-conferência) e André Lemos (não pode comparecer)

Resumos dos Trabalhos e comentários disponíveis aqui!

Fui assistir a essa mesa temática "Ator-rede e cibercultura” do 5 Simpósio ABCiber 2011, dica da colega nic@ Lyana e gostaria de ressaltar que é um assunto 'novo' pra mim e apenas anotei aquilo que consegui pescar nas apresentações. Em geral foi bem interessante, porque me pareceu uma nova proposta de pensar a pesquisa acadêmica, através dos 'rastros' que deixamos ao navegar e 'agir' na 'rede'. Como discutimos esse momento de 'hibridismos' na sociedade 'midiática e digitalizada', parece um assunto de extrema importância para entender pensamentos, movimentos, falas atuais e futuras na Academia. 
 
Achei curiosa a fala de Lucia Santaella: "Eu sempre digo aos meus alunos: se não conhecerem 30% da obra de determinado autor, nem citem!" hahaha Ótima fala! Fica dica dela!

Enfim, espero que a contribuição seja útil de alguma forma!! Seguem as impressões de cada apresentação, na ordem em que aconteceram!

O social não existe de muitas maneiras; o social está por fazer. Ressonâncias de uma ontologia política das redes para a cibercultura”

Fernanda Bruno

Fernanda diz que ‘o social não existe de muitas maneiras, pois está por vir’. Cita Bruno Latour e Aristóteles para afirmar que o ser ‘existe’ de muitas maneiras e está por ‘descrever’. Distingue humanos de não-humanos, onde inclui seres não-humanos naturais e artificiais (computador, Internet, etc). Com isto, diz que agir é produzir uma diferença e que nunca agimos sós, portanto um ator-rede pratica uma ação distribuída, onde não somos senhores de nossas próprias ações, nunca agimos sós e nem somos conscientes de nossas ações. Cita Marx ao dizer que para ele é a condição social que define nossa consciência. E questiona: “Quem age conosco?” E responde dizendo que são entidades invocadas, coletivos sociotécnicos.
Neste sentido, as ações do ator-rede deixam rastros. Toda ação no ambiente virtual (internet) deixa rastros que podem ser potencializados e utilizados para vigilância, fins publicitários, etc.
Fernanda diz que se antes haviam pesquisas, questionários, etc para fazer levantamento de dados, hoje estes ‘rastros’ através de programas e sistemas de coleta de dados acessam informações que antes eram de difícil acesso.
Ela mostrou alguns exemplos de infográficos com dados de usuários do Twitter, onde um analisava a expansão da primeira tuitada sobre o terremeto Virgínia. Em outro exemplo, o infográfico mostrava o rastreamento de posições políticas a partir do twitter, produzindo ‘desenhos’ globais – mapas. Em um terceiro exemplo o infográfico era interativo e rastreava o aspecto político social do mundo em tempo real. Fernanda acredita que esse conhecimento dos rastros proporciona uma reinvenção política, na medida em que coleta dados em tempo real. Ela mostrou outro exemplo de infográficos que ‘desenham’ as revoluções pelo mundo, promovendo uma reflexão de como ‘retraçar’. (Ex.: tuites sobre Wall Street)
Ela também mostrou uma foto de um varal de propostas em escala caótica, de algum movimento político, que foi criticado pela mídia, mas que gerou um twitômetro onde os interessados poderiam votar nas propostas que se identificavam. Ganhou um alcance global. Seu grande questionamento é se tudo isto está sendo usado politicamente, onde se insere a Academia na produção de ‘cartografias’?! Estes rastros também poderiam ser utilizados nas pesquisas acadêmicas para conhecer fenômenos sociais e etc.
Fernanda mostrou outro exemplo de infográfico sobre posições da população da França em relação a uma lei sobre publicações na Internet. E diz que estes ‘mapas’ gerados por rastros podem reverberar, alterar, transformar e/ou mobilizar comportamentos sociais.

“Noções-chave para entender as redes em Latour”
Lucia Santaella

Santaella começa dizendo que todos os participantes da mesa temática estavam pesquisando sobre ator-rede, mas foi por coincidência que se reuniram para o evento. Acredita que ocorreu um ‘movimento coletivo’ de pesquisa e que o ‘rastro’ de origem desses estudos teria iniciado com Theophilos Rifiotis.
Sua fala teve ênfase na TAR (teoria do ator-rede ou ANT – em inglês) onde diz que os significados encontrados no dicionário para estas 3 palavras não dão conta, que deve-se ‘fugir’ deles. O conceito de rede vem de Bruno Latour (extraído dos pensamentos de Diderot) e rede não significa Internet. A TAR difere-se de tudo que já foi feito em todos os contextos e trata-se de algo ‘desconcertante’ ao não se aplicar à nada.
Ela contou uma história do livro de Latour, sobre um aluno que perguntava ao professor como poderia utilizar a TAR em seu estudo de caso. O professor respondia que a TAR é útil quando não se quer aplicar à nada, pois serve de argumento negativo. É uma teoria versa em como estudar e não estudar as coisas e como permitir espaços de criação.
Santaella diz que as teorias convencioanis não servem para espaços que mudam constantemente e radicalmente, por isso a TAR se fez necessária, onde ela se aplica aos discursos que se movem e são movidos. E só ela poderia dar conta das múltiplas entidades ou actuantes em seus morfismos específicos de humanos e não-humanos movidos nas Redes Sociais Digitais (RSD).
A TAR nega e não serve para estudar a Internet, enquanto conceito de computadores interligados, mas referencia-se a algo heterogêneo, onde as redes não designam algo com fios físicos, como um esgoto ou linhas de telefone, mas códigos. A TAR considera um ‘habitante’ em relação ao outro em múltiplas formas de interação. A ‘rede’ enquanto engenharia não tem relação com a TAR, mas somente quando considerada interação.
Santaella diz ‘computadores pensam’ e a TAR serve para rastrear situações onde inovações proliferam e fronteiras são incertas e as margens das ‘entidades’ flutuam. Ao citar Latour, diz que ele sugere o resgate do empirismo e dá 5 conselhos:

A)     Considerar a TAR como descrição e construção de rede como atores/actuantes – vale para humano, software, etc.
B)      Descrever – prestar atenção em coisas concretas
C)      Não há origem ou princípios ou recorrência – ‘nossos objetos’ estão sempre ‘no meio’. Obs.: Não há ‘recortes’.
D)     Saber o que é – descrever é cabível à TAR
E)      Ator-rede não deve ser confundido com objeto, pois a TAR é um método negativo – não diz nada sobre o objeto – importa o que influi e não há informação, mas transformação. Obs.: A ciência rompe como treinamento convencional das ciências sociais.

Principais tópicos relevantes:

A)     Distinguir a sociologia do social da sociologia das associações.
B)      Melhor tratar os atores como actuantes, que são aqueles que agem por muitos outros. (não só humanos). “Quem fala em mim, quando eu falo?”
C)      Mediadores não são intermediários (transportadores), pois traduzem, distorcem, transformam, modificam significados. “Abrir as caixas pretas”. Podem ser um ou muitos e depende do fluxo das ações. Ex.: computador, que é um mediador transparente até que estrague e se perceba sua importância.
D)     Redes – pistas deixadas por agentes de movimento
E)      Tradução – nascimento da TAR – oposta à idéia de transporte.
Santaella também comenta da importância de nos libertarmos da noção de ‘causa-efeito’. E que não há nada mais prático do que uma boa teoria! Mas não há empiria sem o auxílio de teorias poderosas!! Com isto, diz que não se pode colocar ‘a mão na massa’ sem antes conhecer bem os ‘ingredientes’! (Não usar a TAR sem conhecê-la muito bem!!)

“’Bruno Latour mit deutscher Akzent’:  Convergências entre a Teoria Ator-Rede e as Novas Teorias de Mídia Alemães”
Erick Felinto

Erick propõe uma associação do pensamento de Latour com o de Benjamin.

Ele diz que Latour promoveu uma reforma nas ciências humanas. E criticou (juntamente com Heidelberg) ‘cruelmente’ o texto mais popular de Benjamin e um clássico nas teorias das mídias: “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, afirmando que Benjamin ‘errou’ em tudo que citou no texto.
Erick se perguntava então o porquê dessa agressividade e nos aconselhou que se deve desconfiar da popularidade e desconfiar também da desconfiança!!

Ele destaca então dois pontos:
-agência dos objetos
-tradução/mediação

E comenta sobre a ‘angústia da influência’ sobre autores que sofrem o peso de estar sempre a sombra dos grandes mestres e clássicos, tentando ser original. Ele diz que uma teoria é híbrida, nunca é pura porque é resultado de diferentes ‘atores’, motivada pro paixões.
                Ele acredita que Benjamin seja um visionário que antecipou a teoria de ator-rede antes mesmo de Latour, pois Benjamin acreditava que era preciso ‘pensar a linguagem não só das ciências humanas, mas também das coisas. (justiça, arte, ciência, etc).’ Erick cita dois textos de Benjamin para promover aproximações com Latour. O texto de sua juventude “Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem dos homens” e “A tarefa do tradutor”.
                Erick cita Benjamin que dizia que ‘as coisas falam’ numa linguagem no sentido de se ‘exprimir’ e por isso os homens as nomeiam e se relacionam com ‘elas’. Isso nos faz repensar sobre os meios, mídias, mediações e tradução.
                Erick cita o autor Gumbrecht, que aconselha as pessoas a pararem de interpretar as obras. O autor sugere que se busque entender o impacto material das coisas sobre nós. O que é esse efeito, impacto, essa ambiência. “Não interpretar a obra, mas que efeito essa obra surte no seu corpo!” Erick usa o exemplo do filme de terror, onde o espectador sabe o que vai acontecer, porque a história sempre se repete, mas a sensação de ambiência com a oba é sempre diferente. O efeito é mais importante que a história.
                Neste sentido, Erick aproxima Gumbrecht com o pensamento de Benjamin e diz que o mundo é como algo formado por coisas, onde tudo pode ser traduzido em algo (Latour). As traduções são o motor do mundo e estas traduções são redes onde há comunicabilidade – tudo que a língua conta tem potencial virtual.
                Erick diz que Latour defende os actantes – não-humanos, porque as ciências sociais não consideraram as coisas como objetos?! Porque não se procurou sentido para as coisas?! Ele cita o mesmo exemplo de Santaella, do computador que quebra, que só emerge como um ser importante quando deixa de funcionar!
                Foi na modernidade que se separou cultura de natureza e se elaborou um projeto de separação de domínio humano de não-humano, excluindo as crenças primitivas e Latour sugere esse resgate, pois nessa época as coisas tinham vida. Natureza é igual a cultura!
                Erick traz o texto “Preocupações de um pai de família” de Benjamin sobre o Odradek, um suposto novelo de lã ou objeto não identificado que está em todos os lares e representa algo entre o não-vivo e vivo, para contrapor com a dicotomia natureza-cultura; humano-não-humano. O personagem do pai diz que o Odradek é inofensivo, mas continuará existindo mesmo quando ele se for. Erick então relaciona tudo isso a Freud e a sensação de estranheza que se não se sabe quando alguns seres são vivos ou mortos, com o exemplo do paciente de Freud que era apaixonado por uma boneca. A sensação de incerteza constante.
                Erick diz que Latour é um filósofo do híbrido e cita “A tarefa do tradutor” para dizer que nenhuma tradução ou obra de arte é feita para aquele que não conhece o original. Não existe obra traduzida literal, mas uma recriação que pode buscar a ambiência, a mesma sensação que a original provoca. Traduzir é uma perda e renúncia, uma tarefa de ambigüidade!

“Redes, Agências e Fluxos”
Theophilos Rifiotis

Theophilos inicia sua fala com a noção de técnica, no sentido de que nas pesquisas na ontologia são contra a separação de técnica (análise) e social, porém só se percebe nessas pesquisas estudos sobre humanos em relação a outros humanos. Latour seria aquele que pensaria uma outra forma, e não com uma teoria (TAR), mas com um método. Ele cita o perspectivismo e que é preciso nos libertamos das metáforas da modernidade, pois estamos aprisionados em suas estéticas, segundo Weber.
Rede seria um processo, um fluxo, algo híbrido, traçado pela tradução/descrição, que não está dado e está por vir! É uma purificação da separação entre natureza e cultura. Redes são representações, processos incessantemente produzidos. Rede como produção, pós-social e uma agência distribuída entre actantes.
Latour seria aquele que estaria propondo um projeto para ‘refazer’ a sociologia e superar as relações de separação. Ele ressalta a comunicação mediada por computador, considerando que mediador é aquele que transforma e intermediário aquele que transporta, como já disse Santaella.
Theophilos diz que é preciso repensar a idéia de meio. E que “ação é um evento, não um ato!” Utilizar a TAR é conhecer os riscos de não se chegar a lugar algum. De considerar relatórios como textos e escritas que precisam ser inventadas para as redes que estão por vir. Os grandes desafios seriam: descrever; considerar a violência das interpretações (repertório pessoal que se impõe sobre as coisas para explicá-las); infernidade das explicações e não ter que diversar (bolar/descrever).

No debate em grupo, alguns comentários e questões  foram levantadas como:
-O que se tem de novo na teoria ator-rede?!
-Devemos considerar o mundo da técnica e da sociedade.
-Trollar também é pesquisar.
-Benjamin e McLuhan ‘descrevem’ experiências ao redor.
-Para Latour descrever está dentro do fluxo – não há um sujeito que descreve um objeto. Não há separação e isso remodela preceitos do que se chama INVESTIGAÇÃO.
-Você está dentro do fluxo!

terça-feira, 14 de junho de 2011

5º Festival Internacional de Teatro de animação - Keskusteluja

Keskusteluja


Sinopse

Keskusteluja, é a mais recente parceria do malabarista Ville Walo e o mágico Kalle Hakkarainen, é uma obra desafiadora do novo circo experimental que contempla a comunicação, combinando projeções de cinema e vídeo resultando em imagens impressionantes. Surrealismo e experimentalismo são as palavras chaves essenciais para descrever este espetáculo.

"Keskusteluja foca em temas da comunicação e na escassez dela. A performance circense e as projeções de vídeo também se comunicam com a música em vários tons, composta por Kimmo Pohjonen / Samuli Kosminen Kluster.

A força da perfomance visual reflete o curso do tempo. Através de projeções móveis na superfície, a coreografia da arte circense cresce como uma coreografia de palco inteiro. Imagens de um antigo filme mudo são combinadas com sequências de vídeos modernos. Niveís de tempo e realidade são entrelaçados e mixados. Identidade e comunicação prolongadas por um bom tempo, como as performances comuns dos dias atuais, encontrando um mundo visual que foi selecionado e modificado de um filme dos anos 20."
(traduzi do original em inglês do site oficial)

Grupo: WHS - Ville Walo e Kalle Hakkarainen (Finlândia)
Duração: 65 minutos
Faixa etária: a partir de 14 anos

Ficha técnica

Autor: criação coletiva
Intérpretes: Ville Walo e Kalle Hakkarainen
Música: Kimmo Pohjonen e Samuli Kosminen / Kluster.
Figurinos e cenários: Anne Jämsä
Desenho de luz: Marianne Lagus
Operador de Luz: Palmu Ainu
Sound design: Heikki Iso-Ahola
Operador de som: Pehrsson Joonas
Vídeo: Kalle Hakkarainen.

Site: http://w-h-s.fi/performances/keskusteluja/

Malabarismos, projeções e fragmentos.
(ou minhas impressões sobre o espetáculo)

Apresentações experimentais não são o meu forte, mas desde que iniciei o mestrado, meus gostos tem se desarticulado. Músicas, filmes, artes plásticas e teatro tem ganhado novo significado. Abandonei velhos hábitos e adquiri novos. Não por escolha. Pela natureza das leituras densas. 

Tenho feito descobertas. Acho que era meio cega! Sinto que ao ler textos difíceis, alguma porta se abre para o sublime. Olhar sensível, delicadeza, algo de visível no banal. O invísivel parece agora tão visível! É como aprender a brincar uma nova brincadeira...quase sem regras!

Depois de uma metade-aula desgastante (conceitos são frágeis e movediços), fomos todos para o 5º FITA para assistir a uma performance experimental. Fui receosa. Medrosa. Essas coisas me eram desgostosas. E o inesperado se revelou para mim. O desconexo me agradou!


O palco está escuro. No centro, apenas uma mesa redonda pequena e um telefone “antigo”.
Dois homens entram. Um senta apático e o outro, malabarista, brinca um uma bola e abre um livro.
A bola tem um rostinho esquelético simpático, que se completa com um corpinho dentro do livro. No brincar com o livro, movimento. Os bracinhos abrem e fecham. Bonequinho simpático, alegre e brincalhão. Tão vivo! Seria a “senhora” morte dos livros?! Meio fora, meio dentro. Indeciso!

O cenário móvel se levanta. Uma sala de televisão?
O apático recebe projeção. Seu rosto se desfigura. Perda de identidade?
Mistura entre ficção e realidade?! Espectador passivo? Real e virtual se confundindo?

O malabarista reaparece. Mais de uma vez.
Equilibra seu bloquinho e caneta. Rabisca.
Seria um meio de comunicação?!
Tenta equilibrar os objetos e contorna a mão. Seria uma expressão?
Contorna pés e passos. Sempre atarefado.
Descarta uma idéia. Informação descartável. Recomeça.
O homem apático reage. Recolhe o papel-idéia. Teria ficado ativo?

Malabarismos da vida. Telefone e bolas, bolas que significam.
Amores! Família! Amigos! Compromissos! Trabalho! Filhos!
Tão subjetivo! O malabarista se sufoca. As letrinhas pipocam.
Informação, informação, informação.
Nem dá tempo de processar. O malabarista se esgota!

O apático interage com um papelão. Papelão-televisão.
Bebe a água “virtual”. Acredita! Real e virtual se confundem!
Seus passos são guiados. Cuidado! Equilíbrio!
Seria necessário moldar-se às representações?!
Preencher estereótipos? Corresponder expectativas?
Os meios nos guiam? Passos sincronizados, cronometrados, precisos.
Há espaço para improviso?
Cenário-chão. Móvel-imóvel. Projeções do passado no presente.

Surge o homem-fragmento. Caixinhas separadas.
Cabeça, corpo e pés. Homem e mulher.
Numa dança brincalhona. Aprisionados no estático.
Surge o homem-fragmento sem cabeça. Corpo desarticulado.
Corpo sem valor? Substituível? Desmontável?
Seria o homem virtual?! Não há cabeça, só corpo?

Os sons são fortes e sombrios. Metálicos. Linhas cruzadas?
Freqüência sonora misturada?

Os aplausos são tímidos. Salão meio vazio.
Amor e ódio. Alguns adoram, outros não entendem.
Como não enxergar o invisível?!
Sentido somos nós que damos! Que bom!

terça-feira, 1 de março de 2011

1ª Capacitação do CDI para Educadores 2011


Hoje terminaram as atividades presenciais da capacitação que eu estava fazendo no CIEE para o CDI - Comitê para Democratização da Informática.

Foram cerca de 7 dias de trabalhos intensos, das 13h às 18h, com palestras, dinâmicas, atividades à distância, lanchinhos, "conversinhas de corredor" e debates sobre vários assuntos associados à inclusão digital e metodologia do CDI.

Foi uma experiência bem bacana e uma oportunidade de conhecer melhor o trabalho que a ONG faz, contribuindo para projetos de inclusão digital, além de conhecer uma galera "sangue bom" e empenhada em fazer do seu trabalho, uma oportunidade de futuro melhor para nosso país.

Infelizmente não poderei assumir nenhuma função no momento, nem de educadora ou assessora, por estar com viagem de lua-de-mel marcada em abril, mas espero que os contatos e parcerias feitas, possam me trazer bons frutos futuramente!

A experiência contribuiu inclusive para rever meu projeto de pesquisa do Mestrado e alterar meu vocabulário para "inclusão digital através do cinema". Será?!!

Energia renovada para a volta às aulas e leituras densas, depois de uma maratona desgastante de prepativos pro casório que acontece dentro de 1 mês!!


UFSC aqui vou eu!!!! =)

Para saber mais:

CDI
- Criado em 1995, ano em que a internet chegava ao Brasil, o Comitê para Democratização da Informática – CDI tornou-se pioneiro no movimento de inclusão digital na América Latina e um dos principais empreendimentos sociais no mundo, com uma abordagem socioeducativa diferenciada e um modelo único de gestão, visando à sustentabilidade do projeto. É uma organização não-governamental que utiliza a tecnologia como ferramenta para combater a pobreza e a desigualdade, estimular o empreendedorismo e criar novas gerações de empreendedores sociais. Atende cerca de 13 países e possui mais de 20 escritórios no Brasil. A Rede CDI estende-se aos lugares mais remotos da América Latina e do Brasil, como a Amazônia, beneficiando pessoas de diferentes faixas etárias, culturas, raças e etnias.

Contatos em SC:

Site: http://cliquefuturo.org.br/ e Blog: http://cdisantacatarina.blogspot.com/