quinta-feira, 25 de agosto de 2011

"O que é mídia-educação?" de Maria Luiza Belloni


É um livro pequeno e fininho, mas cheio de passagens super importantes, que relacionam mídia e educação. É uma pequena bíblia sobre o assunto e compartilho aqui alguns trechos que destaquei na minha síntese de 10 páginas, como já fiz com outros livros por aqui.

A ideia é ajudar pessoas interessadas no assunto, que não conhecem o livro e com uma síntese podem se familiarizar melhor, antes de se debruçarem numa leitura mais cuidadosa.

O que é mídia-educação?
Maria Luiza Belloni

Prefácio – Maio de 2009

“Não observamos, no Brasil, avanços significativos no que diz respeito a mídia-educação e os principais obstáculos a seu desenvolvimento continuam ativos. O que não significa que não exista uma multiplicidade de experiências singulares inovadoras e importantes, mas elas são fruto do trabalho incansável de professores, jornalistas, comunicadores, religiosos, todos eles, mídia-educadores militantes e têm, por sua própria natureza, abrangência restrita quando não um estatuto marginal”. Neste sentido, 'a mídia-educação ainda continua ignorada e ausente.'

“Da ‘aldeia global’ passamos à ‘sociedade da informação ou do conhecimento’ e à ‘sociedade em rede’, com suas utopias próprias: inteligência coletiva, cibercultura, liberdade de expressão, democratização da cultura e do conhecimento, etc.” ... “As indústrias culturais (rádio, cinema, televisão, impressos) viveram uma verdadeira ‘revolução tecnológica’ decorrente do progresso técnico nas telecomunicações e na informática, cujo resultado é a digitalização de praticamente todos os dispositivos técnicos no trabalho ou em casa, particularmente os de comunicação.”.... “Com a difusão acelerada das TIC e da Internet, os usuários têm acesso a mídias sofisticadas que permitem interatividade com programas, interação com outros internautas e acesso à informação e entretenimento quase sem limites.”

“O papel da mídia-educação, neste contexto, torna-se ainda mais crucial, porém sua realização se revela mais  complexa ante as ilusões libertárias e igualitárias contidas nas promessas da ‘rede’. As novas tecnologias representam, evidentemente, novos desafios para a mídia-educação que deve aprender a lidar com: i) uma cultura midiática jovem, muito mais interativa e participativa; ii) fronteiras menos precisas entre uma elite produtora de mensagens e a massa de consumidores típica de massa; iii) novos modos de perceber o mundo e de aprender; iv) novas formas de fazer política e significativas possibilidades democráticas. As formas e os sentidos de que se vão revestir essas novas potencialidades ainda não realizadas dependem dos modos de relações que os jovens vão desenvolver com as mídias: apropriações mais democráticas, críticas e criativas dependerão, em grande parte, da capacidade de a sociedade oferecer oportunidades de mídia-educação às novas gerações.”

“A mídia-educação é hoje tão necessária ao exercício da cidadania quanto era a alfabetização no século XIX.” Ela poderia ser entendida também como uma espécie de  inclusão digital, ou seja, “à apropriação dos modos de operar estas ‘máquinas maravilhosas’, que abrem as portas do mundo encantado da rede mundial de computadores, possibilitando que o usuário se torne também produtor de mensagens. As dimensões da mídia-educação como objeto de estudo, isto é, ‘leitura crítica’ de mensagens, e ferramenta pedagógica, que diz respeito a seu uso em situações de aprendizagem, continuam fundamentais para a implementação de sua prática nos espaços escolares associativos.” 

Para isso, "será necessário que a mídia-educação penetre efetivamente nos sistemas de ensino de modo interdisciplinar e transversal, oficial e integrado ao cotidiano das práticas pedagógicas.” 

É preciso haver uma ‘profunda transformação cultural’ e “que a vontade política responda à demanda social e que a mídia-educação seja inscrita nas prioridades educacionais, o que depende da convicção e da mobilização de educadores comprometidos com a qualidade do ensino e com a cidadania.”

“É preciso também entender como as novas gerações se apropriam das técnicas de informação e comunicação que o avanço técnico vai colocando...” e “quais os modos como a instituição escolar, e especialmente os professores, estão se apropriando destes instrumentos e os integrando (ou não) ao seu cotidiano.”

Belloni acredita ‘na educação e na comunicação como instrumentos de luta para emancipação dos indivíduos e das classes, e não apenas como meras estruturas de dominação e reprodução das desigualdades sociais.’

É preciso que o estatuto da Criança e Adolescente saia do papel e ganhe realidade no Brasil, ‘assegurando que todas as crianças brasileiros tenham acesso efetivo a uma educação de qualidade com todas as tecnologias disponíveis e a uma comunicação livre e sem preconceitos.”

P. 1, 2 e 3

Capítulo 1 – A mediação escolar indispensável para a cidadania

“A criança terá direito à liberdade de expressão; este direito inclui a liberdade de procurar, receber e partilhar informação de todos os tipos, independentemente de fronteiras, seja oral, escrita ou impressa, na forma de arte ou através de qualquer outro meio de escolha da criança” (Convenção da ONU sobre direitos da criança e do adolescente, 1989)

Para isso é preciso ‘formar o cidadão competente para a vida em sociedade, o que inclui a apropriação crítica e criativa de todos os recursos técnicos à disposição desta sociedade.’

Autodidaxia: novos modos de aprender

Faz 40 anos que Mc Luhan lançou “o meio é a mensagem” e muitos tentam entender ‘o que e como se aprende por intermédio das mídias’. ‘Ao transmitir a mensagem, afirmava ele, o meio transmite também algo que lhe é mais inerente e que age sobre o conteúdo, transformando-o. Este algo a mais é o que chamamos de ‘linguagens das mídias eletrônicas’. P. 6

“Crianças que vêem televisão têm melhores aptidões para construir conceitos de relações espaços-temporais, para compreender as relações entre o todo e suas partes, e até para identificar os ângulos das ‘tomadas de imagens’. Isso significa um ‘reforço das faculdades de abstração, pois qualquer teria, é antes de mais nada, uma maneira de ver as coisas (Greenfield, 1988) Parece incontestável, hoje, que as crianças desenvolvem por impregnação capacidades cognitivas e perceptivas, como por exemplo: fazer anotações enquanto vêem um programa de vídeo; inventar uma boa pergunta para animar um chat; saber intervir num programa de TV interativa (jogo, teleconferência, etc) reconhecer um quadro famoso ou estilo de um pintor, reconhecer e identificar um trecho musical, entre muitas outras já conhecidas e banalizadas, e outras ainda inimagináveis. (Perriault, 1996 p.241) p. 6-7

“O desenvolvimento de uma maior autonomia no contato com estas mídias favorece o surgimento de outras competências tais como organizar e planejar seu tempo, suas tarefas, fazer testes, responder formulários, etc.” ... “Em contrapartida, o fascínio que estas máquinas exercem sobre crianças e adolescentes pode levar a situações de mania e/ou dependência, da medida em que as pessoas se desligam facilmente da realidade física e sócio-afetiva circundante para se ligarem em alguma dessas realidades virtuais, propiciadas por uma dessas máquinas maravilhosas.” P. 7

Questões a serem formuladas:

- Como poderá a escola contribuir para que todas as nossas crianças se tornem utilizadoras (usuárias) criativas e críticas destas novas ferramentas e não meras consumidoras compulsivas de representações novas de velhos clichês?

- Como pode a escola pública assegurar inclusão de todos na sociedade do conhecimento e não contribuir para a exclusão de futuros ‘ciberanalfabetos’?

Dupla dimensão da integração das TIC na educação: mídia-educação e comunicação educacional

Como lidar com estes desafios?

-Integração das tecnologias de modo criativo, inteligente e distanciado, no sentido de desenvolver a autonomia e a competência do estudante e do educador enquanto ‘usuários’ e criadores das TIC e não como meros ‘receptores’.

-Mediatização do processo de ensino/aprendizagem aproveitando ao máximo as potencialidades comunicacionais e pedagógicas dos recursos técnicos: criação de materiais e estratégias, metodologias, formação de educadores (professores, comunicadores, produtores, tutores), produção do conhecimento.

“A escola deve integrar as tecnologias de informação e comunicação porque elas já estão presentes e influentes em todas as esferas da vida social, cabendo à escola, especialmente a pública, atuar no sentido de compensar as terríveis desigualdades sociais e regionais que o acesso desigual a estas máquinas está gerando!” p. 10

Capítulo 2 – Da tecnologia à comunicação educacional

“A educação das mídias é condição necessária na educação para cidadania, sendo um instrumento fundamental para a democratização das oportunidades educacionais e do acesso ao saber e, portanto, de redução das desigualdades sociais.” (Belloni, 1991 e 1995) p. 12

“A noção de educação para as mídias abrange todas as maneiras de estudar, de aprender e de ensinar em todos os níveis (...) e em todas as circunstâncias, a história, a criação, a utilização e a avaliação das mídias enquanto artes plásticas e técnicas, bem como o lugar que elas ocupam na sociedade, seu impacto social, as implicações da comunicação mediatizada, a participação e a modificação do modo de percepção que elas engendram, o papel do trabalho criador e o acesso às mídias.” (UNESCO, 1984) p.12

Belloni fala das visões apocalípticas em torno das mídias. Visões de que as máquinas dominarão o mundo e punirão os homens, frequentemente retratadas em filmes e histórias.

“Vivemos numa era da informação: na qual a informação é uma nova moeda de troca, ou uma nova medida de valor, constituindo uma nova ‘ficha simbólica’ tão importante quanto o dinheiro (Giddens, 1994). A ideia da sociedade da informação faz parte também do discurso oficial das organizações internacionais, como a UNESCO por exemplo, que considera as TIC ‘como elemento essencial para compreender as sociedades contemporâneas’ (Relatório Delors, UNESCO, 1996).” P. 21

“As TIC avançaram mais rapidamente que a própria informação!” p. 21

“Para compreender o impacto dessas tecnologias nas sociedades e instituições, nos processos e relações sociais, na produção e reprodução da sociedade e de suas estruturas simbólicas, é necessário ir além das considerações técnicas – sejam elas ‘apocalípticas’ ou ‘deslumbradas’. É preciso valorizar o mundo real dos sujeitos, considerá-los como protagonistas de sua história e não como ‘receptores’ de mensagens e consumidores de produtos culturais. É preciso retomar a velha fórmula: abandonar o conceito ‘do que a televisão faz às crianças’ e substituí-lo pelo conceito ‘do que as crianças fazem com a televisão’. (Schramm, 1965, Pinto, 1998).

Belloni defende que é importante saber o que as pessoas fazem com as mídias, com os artefatos midiáticos e técnicos.

É importante ‘compreender como a instituição escolar está lidando com esse imenso desafio. Quais as novas finalidades sociais da educação formal e não formal? Qual a escola que queremos? Que competências são necessárias para formar o cidadão do 3º milênio e seus professores?’ p. 22

Tecnologias e Educação

“Finalidades ampliadas e necessidades e demandas crescentes. Estas são as macros tendências para o futuro. Os sistemas de educação terão que dar respostas a estas demandas. A educação tende a crescer em número e em complexidade.” (Carmo, 1997; Perriault, 1996b; UNESCO, 1996) p.22

“As sociedades contemporâneas já estão a exigir um novo tipo de indivíduo e de trabalhador em todos os setores sociais e econômicos: um indivíduo dotado de competências técnicas múltiplas, habilidade no trabalho em equipe, capacidade de aprender e de adaptar-se a situações novas. Para sobreviver na sociedade e integrar-se ao mercado de trabalho do século XXI, o indivíduo precisa desenvolver uma série de capacidades novas: autogestão (capacidade de organizar seu próprio trabalho), resolução de problemas, adaptabilidade e flexibilidade frente a novas tarefas, assumir responsabilidades e aprender por si próprio e constantemente, trabalhar em grupo de modo cooperativo e pouco hierarquizado (Trindade, 1992).” P.22 e 23

“Será preciso reformular radicalmente currículos e métodos de ensino, enfatizando mais a aquisição de habilidades de aprendizagem e a interdisciplinaridade (o que implica diminuir a quantidade de conhecimentos)” p.23

“Os sistemas de educação terão necessariamente que expandir suas ofertas de serviço, ampliando seus efetivos de estudantes em formação inicial e criando novas ofertas de formação continuada.” P. 23

“A integração das novas tecnologias de informação e comunicação, não apenas como meio de melhorar a eficiência dos sistemas, mas principalmente como ferramentas pedagógicas efetivamente a serviço da formação do indivíduo autônomo.” P. 24

“Campos emergentes de pesquisa e práticas como a andragogia, a mídia-educação, a educação a distância e a comunicação educacional podem vir a contribuir inestimavelmente para a transformação dos métodos de ensino e da organização do trabalho nos sistemas convencionais.” P. 24

“A educação será um processo de autoaprendizagem, centrado no sujeito aprendente, considerado como um indivíduo autônomo, capaz de gerir seu próprio processo de aprendizagem.” P. 24

“As TIC estão cada vez mais presentes na vida cotidiana e fazem parte do universo dos jovens, sendo esta a razão principal da necessidade de sua integração à educação.” (Belloni, 1999) p. 25

Mediatização: da tecnologia à comunicação educacional

“Neste contexto de transformações socioculturais provocadas pela disseminação das tecnologias “da inteligência”, a mediatização das mensagens pedagógicas está no coração dos processos educacionais, merecendo este novo conceito que nos detenhamos um pouco em sua significação.” P. 26

“Mediatizar significa, então codificar as mensagens pedagógicas, traduzindo-as sob diversas formas, segundo o meio técnico escolhido.” “Definir as formas de apresentação de conteúdos didáticos, previamente selecionados e elaborados, de modo a construir mensagens que potencializem ao máximo as virtudes comunicacionais do meio técnico escolhido no sentido de compor um documento autossuficiente, que possibilite ao estudante realizar sua aprendizagem de modo autônomo e independente.” P. 26

“Mediatizar significa conceber metodologias de ensino e estratégias de utilização de materiais de ensino/aprendizagem que potencializem ao máximo as possibilidades de aprendizagem autonômoca. Isto inclui desde a seleção e elaboração dos conteúdos, a criação de metodologias de ensino e estudo, centradas no aprendente, voltadas para a formação da autonomia, a seleção dos meios mais adequados e a produção de materiais, até a criação e implementação de estratégias de utilização destes materiais e de acompanhamento do estudante de modo a assegurar a interação do estudante com o sistema de ensino.” P. 26 e 27

“As TIC, ao mesmo tempo em que trazem grandes potencialidades de criação de novas formas mais performáticas de mediatização, acrescentam muita complexidade ao processo de mediatização do ensino/aprendizagem, pois há grandes dificuldades na apropriação destas técnicas no campo educacional e em sua ‘domesticação’ para utilização pedagógica. Suas características essenciais – simulação, virtualidade, acessibilidade a superabundância e extrema diversidade de informação – são totalmente novas e demandam concepções metodológicas muito diferentes daquelas metodologias tradicionais de ensino, baseadas num discurso científico linear, cartesiano e positivista. Sua utilização com fins educativos exige mudanças radicais nos modos de compreender o ensino e a didática.” P. 27

Novos professores, outros alunos

“O papel do professor tende a ser amplamente mediatizado: como produtor de mensagens inscritas em meios tenológicos, destinadas a estudantes a distância, e como usuário ativo e crítico e mediado entre estes meio e os alunos!” p. 28

“Os novos ‘modos de aprender’ são ainda uma incógnita para a maioria dos professores. “ (Perriault, 1996b)

“A introdução da imagem e seus suportes técnicos (a tela da TV e do computador) no universo da palavra escrita suscita muitas interrogações ainda sem resposta. Como utilizar a imagem como fonte do saber?” p. 28

“Embora seja ainda uma utopia o aluno autodidata que espera encontrar no professor um parceiro para construção do conhecimento, a autodidaxia já é uma característica essencial dos modos de aprendizagem das crianças e jovens em sua relação com as máquinas de informação e comunicação, sendo, pois, fundamental que a formação de professores inclua este elemento novo!” p. 28

“O professor terá que aprender a trabalhar em equipe e a transitar com facilidade em muitas áreas disciplinares. Será imprescindível quebrar o isolamento da sala de aula convencional e assumir novas e diferenciadas funções. A figura do professor individual tende a ser substituída pelo professor coletivo.” P. 29

“O professor terá que aprender a ensinar a aprender!” p. 29

Educação como autoformação – “Sem uma educação adequada para a apropriação crítica desses dispositivos técnicos, corremos o risco de criar não uma sociedade da informação, mas uma sociedade de ciberexcluídos ou de cibernaufrágos.” (Martin, 1998) p. 29

“Deve a escola educar também para a cidadania ou só para a produção?” p. 29

 Capítulo 3 – Mídia-educação: Ética e Estética 

O papel da televisão no processo de socialização

“Os jovens, em sua maioria, consideram que aprenderam algo importante e sério pela televisão. Para eles, a telinha tem uma grande legitimidade, como fonte do saber, semelhante à da escola. É portanto, reconhecida como ator importante pelos próprios sujeitos desse complexo processo de socialização.” P. 31

“A sociedade perpetua-se através de um amplo processo de transmissão a cultura: o saber acumulado (a ciência e a técnica), os valores, as representações e as normas coletivas (as estruturas simbólicas) são apresentados às crianças e adolescentes como imagens e modelos em sua experiência, utilizando-se deles em suas interações, aceitando-os ou recusando-os, testando seus próprios limites. A socialização é o resultado destas interações características deste processo são mediatizadas, principalmente, mas não exclusivamente, pela linguagem verbal, razão pela qual sempre baseamos nossas pesquisas na análise do discurso dos jovens sobre a telinha e suas mensagens.” P. 32

“Nas sociedades contemporâneas (de economia globalizada quanto ao capital, mas localizada quanto ao trabalho) a importância dos meios de comunicação e, mais recentemente, das tecnologias de informação é muito grande em todas as esferas da vida social, com conseqüências claras para os processos culturais, comunicacionais e educacionais.” P. 32

“A escola, por exemplo, instituição especializada em socialização, ainda não absorveu as transformações nos modos de aprender de sua clientela, trazidas pela televisão, e já se depara com os laboratório de informática, que vieram para ficar, com suas novas linguagens multimídias e potencialidades interativas.” P. 32

“O processo de socialização é o espaço privilegiado da transmissão social de valores, dos modos de vida, das crenças e representações, dos papéis sociais e dos modelos de comportamento.”p. 33

“Enquanto a família, classe social, o bairro e, às vezes, a religião são fatores de unificação – o objetivo é o consenso – difundindo os valores e normas consideradas comuns a todos numa sociedade.” P. 33

“As significações transmitidas pela televisão são apropriadas e reelaboradas pelas crianças a partir de suas experiências e integram-se ao mundo vivido no decorrer de novas experiências.” P. 34

“A aprendizagem da criança frente á televisão é involuntária, inconsciente, sem querer, sem saber.” P. 35

“É extremamente difícil avaliar a importância da televisão enquanto instituição de socialização, devido à complexidade deste processo, no qual a interiorização das normas e valores transmitidos depende também da aceitação ativa das crianças e adolescentes, que lhes atribuem – ou não – legitimidade.” P. 35

Violência

Belloni fala sobre o sucesso da violência na televisão, cada vez mais utilizada como estilo estético, o que tende a banalizar o efeito no espectador, que acaba achando engraçadas as cenas de terror.

“O excesso de imagens violentas na TV, característica antiga da nossa paisagem audiovisual, tende a naturalizar e a legitimar o uso da violência como meio de resolver conflitos.”

Onde a cultura dominante é o consumismo e a felicidade é identificada como mercadoria. Bem X Mal. A divisão maniqueísta do mundo que lhes é proposta. E essa relação, tende a “justificar o uso da violência como meio legítimo de resolver conflitos, desde que usada em defesa de fins considerados nobres, do ‘bem’, identificado com a sociedade, o país, a ordem ou a justiça.” P. 37

E a não violência acaba sendo ‘conotada como símbolo de covardia e caminho para derrota e a frustração.’ P. 38

“Num país de profundos contrastes sociais, minado pela miséria e ignorância, a violência acaba sendo percebida como meio legítimo de sobrevivência!” “Ações coletivas para resolver problemas não fazem parte do discurso dos jovens, coerente com a moral predominante no discurso televisual.” p. 38

“A crença de que a televisão reflete, como um espelho, a realidade violenta que vivemos parece ser uma idéia aceita por muitos jovens, mas também por adultos. A participação – mediatizada pela TV – nos conflitos mundiais, por exemplo, dá ao telespectador a impressão de viver num mundo violento, mesmo quando ele mora numa pacata cidade do interior. Para a maioria, que vive nos grandes centros urbanos, esta impressão é confirmada pela violência real. É preciso relativizar esta questão: mesmo vivendo em cidades violentas não somos testemunhas ou vítimas de situações violentas todos os dias.” P. 38 e 39 (Bellonii, 1992ª)

“Dupla ilusão criada pela televisão: de que reflete o real de modo realista e de que esta realidade é terrivelmente assustadora, cheia de violência que nos ameaça, mas que finalmente somos felizes em viver de modo tranqüilo.” P. 39

“A violência é valorizada como sinal de coragem e meio de obter êxito (ser um ‘vencedor’), a não violência E acaba sendo ‘conotada como símbolo de covardia e caminho para derrota e a frustração.’” P. 38 e 39

Sexualidade

“A televisão funciona como uma janela para o mundo dos adultos, apresentando às crianças e adolescentes, formas estereotipadas dos valores, normas e modelos de comportamento socialmente dominantes!” “E eles não tem maturidade ainda de compreender, muitas vezes, provocando conflitos e ansiedade”. P. 40

“As narrativas vão sendo construídas a partir de fórmulas de sucesso, e a cada repetição, o estereótipo é refinado, aperfeiçoando seu potencial comunicativo.” P. 41 E essa repetição acaba se tornando modelos de comportamentos padronizados. P. 44

“As mensagens da telinha, porém, também agem por impregnação, de modo quase subliminar, pois o ‘conteúdo’ é mascarado pela forma, por apelos comunicacionais muito eficazes, tais como alusões arquetípicas, situações humorísticas ou de grande dramaticidade, personagens vividos por galãs ou atrizes muito apreciadas.” P. 41

Belloni ressalta que meninas e meninos tem comportamentos diferentes em relação à televisão. (p. 43)

Educação para as mídias

Diante de todos os problemas listado por Belloni, uma educação para mídia se faz necessária.

“É ilusório pensar que a mídia triunfante irá renunciar ao seu poder e se adaptar aos objetivos da escola. Também é ilusório esperar que as famílias (sobretudo nas camadas mais pobres) tenham condições de conscientizar seus filho se educá-los para a leitura críticas das mensagens da televisão. Somente a escola pode – teórica e praticamente – conceber e executar mais esta tarefa fundamental de educação para mídia. Como depositária do espírito crítico, responsável pela elaboração das aprendizagens e pela coerência da informação, a escola detém a legitimidade cultural e as condições práticas de ensinar a lucidez às novas gerações. Diante dos desafios da técnica em geral e da mídia em particular, a escola deve se adaptar, se reciclar e se abrir para o mundo, integrando em seu ensino as novas linguagens e os novos modos de expressão.” (UNESCO, 1984 apude Belloni, 1991) p. 44 e 45

“O receptor crítico, ativo, inteligente, capaz de distanciar-se da mensagem midiática e exercer sobre ela seu poder de análise e crítica, de outro lado, a formação do comunicador, visando à qualificação plena do profissional não apenas competente, mas responsável, capaz de distanciar-se do imediatismo típico da mensagem midiática e de exercer sobre ela uma influência esclarecedora, realmente informativa – ética – escapando das armadilhas da manipulação fácil.” (Belloni, 1995) P. 45

“A educação para a mídia é a necessidade de integrar os meios de comunicação à escola, do ponto de vista dos novos modos de expressão que eles introduzem no universo infantil.” “A mídia representa um campo autônomo do conhecimento que deve ser estudado e ensinado às crianças da mesma forma que estudamos e ensinamos literatura, por exemplo. A integração da mídia à escola tem necessariamente que ser realizada nestes dois níveis: enquanto objeto de estudo, fornecendo ás crianças e adolescentes os meios de dominar esta nova linguagem; e enquanto instrumento pedagógico, fornecendo aos professores, suportes altamente eficazes para a melhoria da qualidade do ensino, porque adaptados ao universo infantil.”   P. 46 (Belloni, 1991)

Nesse sentido, “será preciso formar os educadores para esta tarefa e também promover o desenvolvimento dessa ‘nova disciplina universitária’”, onde as ciências da informação e comunicação se cruzam. (Gonnet, 1997)

O papel da escola é formar um cidadão competente para o futuro! P. 48

Capítulo 4 – Reflexões sobre a mídia

“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido virou uma representação. O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre as pessoas, mediatizada pelas imagens.” (Guy Debord, A sociedade do espetáculo, 1971)

Na sociedade do espetáculo e de produção de massa, ‘a obra de arte’ (que sempre foi mercadoria) é agora produzida em série e reproduzida ao infinito pela fria eficiência da máquina, diria Benjamin. A produção cultural é coletiva, o que deixa pouco lugar à criação original e individual e à arte popular. P. 50

“Além de babá, a televisão atua como professora, como conselheira e, provavelmente, como companheira!” p. 51

Belloni diz que a TV age como uma droga sobre as crianças pequenas, de acordo com inúmeras pesquisas.
P. 51

“É preciso compreender as regras de produção desse discurso ideológico da mídia que invade nossa vida cotidiana. E estas regras são produzidas nos países desenvolvidos.” P. 52

“A utilização das máquinas para a produção é antiga e já mereceu atenção de grandes pensadores, a começar por Marx no século XIX. O que é novo na sociedade atual não é a mecanização do trabalho, mas a mecanização da vida em geral, da esfera privada da vida social: o lazer, a cultura, a vida doméstica. O homem moderno, urbano e ‘racional’ passa durante seu dia de uma máquina a outra para trabalhar, tranportar-se, preparar seus alimentos, conversar, divertir-se e até namorar.” P. 54

“Toda sociedade reproduz sua cultura no indivíduo, sob forma de personalidade.” P. 56

“O homem e sua consciência são produtos de uma sociedade. O homem é um ser social e isto significa que ele é o resultado de sua sociedade. O processo de socialização, realizado pela família, escola e outras instituições sociais, influi sobre o indivíduo para que ele se conforme às normas sociais dominantes, ao mesmo tempo em que lhes transmite os conhecimentos técnicos acumulados pelas gerações anteriores e desenvolve habilidades necessárias para sua adaptação ao sistema social e econômico.” P. 56

“A escola partilha cada vez mais sua responsabilidade na socialização dos jovens e crianças: a televisão, em particular, preenche parte do tempo livre das novas gerações. Aumenta, assim, inexoralmente, o controle da sociedade organizada, planejada, tecnificada, sobre o indivíduo. O controle social é então exercido sob múltiplas formas e através de instituições várias entre as quais a escola e a mídia são as mais importantes.” P. 57

“As crianças e adolescentes nas sociedades contemporâneas, aprendem mais com a televisão do que com pais e professores.”

“Os homens de todas as épocas sempre tentaram exorcizar o tempo através de imagens!”
“Essa vontade de transcender a morte e ficar para sempre cristalizado na representação de si mesmo.” “O retrato e a estátua nos permitem evitar a morte espiritual – o esquecimento!” p. 60

Se antes o homem produzia as imagens, agora são mecanismos que ‘sozinhos’ criam imagens, que acabam substituindo as experiências realmente vividas. Mas de alguma forma, é uma forma do homem se perpetuar...

O homem moderno é narcisista. Se preocupa com a aparência, com sua imagem, com a velhice e morte, e não pensa nas gerações futuras.

“A vida moderna é tão completamente mediatizada por imagens eletrônicas que não podemos deixar de reagir aos outros como se suas ações – e as nossas – estivessem sendo gravadas e transmitidas, simultaneamente, a uma audiência invisível, ou então armazenada para mais tarde serem examinadas de perto. Sorria, a câmera observa você!” (Lasch, 1979) – Relação com o filme O Show de Truman.

“A celebridade é um mito típico das sociedades contemporâneas. ‘Aparecer na televisão’.” P. 63 (fascínio por reality shows)

“Este mundo do simulacro, da aparência, vai formando a personalidade das novas gerações. A escola enquanto canal de socialização vai perdendo sua importância no processo de transmissão cultural e especializa-se na transmissão de conhecimentos e técnicas ligadas principalmente ao mundo do trabalho, da produção. A educação entendida como ‘formação integral da personalidade’ fragmenta-se como função de diferentes instituições sociais especializadas.” P. 65

“O mundo real povoa-se de imagens em lugar de ser animado por ações e interações humanas.”

“Esta presença constante de imagens fictícias, que ocupam partes cada vez maiores do tempo livre das crianças, rouba-lhes o tempo da não-escola, dedicado ao brinquedo e à imaginação e à vida social cheia de experiências interativas com seus pares e com os adultos.” P. 66

Capítulo 5 – Programa Formação do Telespectador

“Como modernizar o ensino – adaptando-o às exigências das novas gerações – sem perder de vista suas finalidades maiores (formação do sujeito consciente autônomo, ou da cidadania), sem se deixar envolver  dominar pelo tecnicismo mecânico e redutor?”” p. 70

Belloni defende este programa com a finalidade de que o aluno possa ‘perceber os truques da telinha, compreender suas técnicas de persuasão, desmontar sua magia para ver como funciona.’

Um usuário que possa ‘escolher a programação, pratique o zapping inteligente, exercendo sempre um olhar atento e crítico sobre as mensagens da televisão. E até mesmo desligar esta máquina muito especial e ir viver a vida em vez de ficar a vendo passar na telinha.’ P. 70

Belloni defende a importância de dar informações, levantar questões, provocar os jovens, criando desafios que deverão contribuir para o desenvolvimento do senso crítico e da percepção consciente, para formação de atitudes ativas frente à televisão. Isso seria educar para a mídia!!

Diante da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a escola deve se preparar para ensinar Mc Luha e Gutemberg, o que ‘significa estudar a televisão e suas mensagens como se estuda literatura.’

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Educação e Mídia: Um espaço de conexões não lineares.

 

Participei na última terça-feira, da mesa redonda 'Educação e Mídia: Um espaço de conexões não lineares' na III Semana da Educação em São José e trouxe para o blog, as falas das Profª Dra. Maria Luísa Belloni e Maria Helena Bonilla, em suas respectivas apresentações.


Achei o evento super bacana e o mais legal: totalmente gratuito!!


São José deu um excelente exemplo de como organizar um evento, pois ao chegar recebi pastinha e crachá com controle digital, havia também lanche de produtos orgânicos, com biscoitos, café e frutas, além dos banheiros do Espaço Multiuso serem totalmente limpos e o local das palestras ser grande e bem distribuído, com cadeiras, dois telões grandes, e na abertura, ainda pudemos apreciar apresentações culturais das crianças. Muito legal mesmo!!!
 

Vamos às palestras:

Tecnologias Digitais na Educação: desafios e possibilidades
Drª Maria Helena Silveira Bonilla

DESAFIOS

Bonilla fez uma apresentação com slides e partiu de tópicos para aprofundar algumas questões.
Considerando um público de professores, com formações diversificadas, achei que ela foi bem objetiva e clara nas suas explanações! Adorei!!

Diferenciou a tecnologia analógica e digital com palavras-chaves numa VIRADA CONCEITUAL:

Analógico: extensão, sentidos, TV, jornal, rádio – AUMENTO DO ALCANCE MUSCULAR
Digital: proposições, matematização de dados - GERENCIAMENTO E MANUSEIO DE DADOS

Transformação na velocidade, fragmentação, aceleração, turbulências de informações e conhecimento.

Diante dessas transformações a sensação é de desamparo, de incertezas, de estar perdido, de não dar conta.

“O todo é inalcançável!” diria Pierre Levy

A pergunta é: Como dar conta?!!

Redes e conexões

É importante ressaltar que com as mudanças tecnológicas, a articulação de conteúdo não é mais vertical, e sim, HORIZONTAL. Não se depende mais de grandes mídias para produção. As possibilidades foram ampliadas, permitindo novas potencialidades, que há 20 anos atrás não existiam.

Bonilla fala da convergência de mídias, onde informação e conhecimento convergem em um único aparelho, que detém múltiplas funções e onde ocorre um fluxo intenso de conteúdos, como áudio, imagens, vídeos, textos, etc, além da própria hibridização. E tudo isso só foi possível com a tecnologia digital, não-linear, pois na analógica era impossível, por ser naturalmente linear.

A escola precisa pensar como se inserir nesse novo ambiente e nova realidade, afinal ela é responsável pela transmissão e produção de informação.

É importante mudar o conceito que se faz do uso do computador, como um lugar sem função, onde não se faz nada, pois hoje o estudante ‘estuda’ mais e na verdade, faz tudo ao mesmo tempo.

Outro fator determinante é mobilidade (wifi – rede sem cabos), onde a informação está na ‘palma da mão’ com os celulares e tablets, promovendo uma imersão midiática, e produzidos com tamanho cada vez mais reduzidos.

Se antes se falava em salas com computadores, agora a mobilidade permite outras possibilidades. Uma prova disto é a compra de tablets (ipad) pelo Ministério da Educação.

Bonilla então pergunta: Como vamos trabalhar a educação? Enquanto estivermos aprisionados em formas de ensino defasadas.

Ela coloca o exemplo de escolas na Bahia que em abriram as caixas de computadores que receberam, por não saberem lidar com o equipamento.

A formação dos professores não acompanha e não acompanhou o contexto tecnológico atual.
As escolas ao invés de aprender e pensar com as novas tecnologias, estão ‘tirando’ e ‘proibindo’ novas tecnologias em sala de aula,como os celulares, redes sociais, o que seria a saída mais fácil, diante do desconhecimento e despreparo em lidar com esta nova situação, mas essa atitude não prepara o aluno para a sociedade atual. Tirar o cotidiano do aluno de sala de aula (mídias), não o prepara para a realidade.

Bonilla então diferenciou as gerações da seguinte maneira:

Geração web 1.0: inserida num contexto, onde só era possível ACESSAR E CONSUMIR a informação.

Geração web 2.0: inserida num contexto onde os usuários estão migrando para ambientes de rede, participam, articulam, socializam e produzem mídia. Produção de informação e conteúdo, dentro e fora da escola. Inteligência Coletiva, cultura participativa – articulação do saber.

Obs.: Bonilla chegou a comentar rapidamente sobre a geração web 3.0: tem relação com Inteligência Artificial

Com isto, a escola perdeu o controle sobre o aluno e o desafio é justamente esse: Aprender a lidar com a autonomia de produção do aluno.

Como potencializar suas habilidades?

Bonilla também fala da COMPUTAÇÃO EM NUVENS, pois hoje não precisamos mais de computadores com grande capacidade de armazenamento. As informações se ‘estocam’ em redes, servidores e não se sabe ao certo esse caminho e não se tem mais controle. O acesso a informação é rápido, mas deletar um e-mail, não significa deletá-lo definitivamente do banco de dados do servidor.

Bonilla então questiona: Como fazer?

É preciso mexer nos currículos e mexer com a linearidade do ensino. E fazer isso, causa estranhamento, insegurança, incerteza e desconforto. A reação é de negação e resistência.

Se antes na geração web 1.0, se considerava a pesquisa na internet como ‘cópia’, é preciso repensar, já que hoje é possível produzir conteúdo, além de só consumir.

Como então trabalhar e fugir da idéia de consumo e cópia?

Fugindo da idéia e concepção de tecnologia como FERRAMENTA.

O computador não deve mais ser considerado uma ferramenta extra, porque é essencial.
É preciso pensar o computador como um AMBIENTE, e sair da idéia de transmissão de informação para PRODUÇÃO.

Apresentar um trabalho no datashow é como apresentar no antigo retroprojetor. Só mudou o meio!
Mas antes que se cobre formação dos professores de Educação Básica, é preciso lembrar que na Universidade essa mudança precisa ser incorporada urgentemente. Repensar os currículos e investir na incorporação das mídias na sala de aula.

BANDA LARGA – Condição necessária para mudança

E para acesso a rede, é preciso ampliar a banda larga no Brasil. Por enquanto ela só atinge 50% da população urbana (nem se fala da área rural) e ainda é baixa. 300 computadores de uma escola conectados com velocidade de 1 Mega não serve pra nada, além dos jovens não terem paciência de esperar por tanto tempo. Sua atenção é frágil, numa era de ritmo acelerado.

Por isso, a banda larga para todos, inclusive aqueles que não tem condições de pagar é condição necessária para transformação na Educação.

POSSIBILIDADES

Diante dos desafios apontados, nem tudo está na capacidade de decisão do cidadão. Muitas mudanças dependem de políticas públicas.

É importante lembrar que o acesso à informação e comunicação é DIREITO HUMANO UNIVERSAL, e se hoje essa comunicação está num contexto de consumidor receptor-emissor, a interação é fundamental para produção descentralizada de conhecimento.

“Incorporar o jeito de ser! Jeito alt+tab” (Nelson Pretto)

As gerações atuais tem a capacidade de realizar multitarefas, mudando de janelas rapidamente, produzindo e consumindo conteúdo e novas linguagens. Ao invés de condená-las, deve-se absorvê-las, como é o caso do “internetês”, que apresenta muita potencialidade de comunicação, por ser uma comunicação através de códigos, natural e necessário num contexto onde o fluxo é intenso.

É preciso entender que este é um novo jeito de ser!! Os jovens de hoje fazem tudo ao mesmo tempo e as gerações passadas ainda funcionam no sistema ‘mono’, que faz uma coisa de cada vez.

A interação exige concentração, então o discurso de que os jovens não se concentram é equivocado.

É preciso também repensar a questão de autoria. Onde hoje existem leitores-autores, cada um constrói conhecimento de forma diferente e constitui seu próprio caminho.

Não somos mais apenas consumidores!!

A escola não pode mais ser apenas de leitura e escrita textual. É preciso incorporar NOVAS E TODAS linguagens, para estimular todas as habilidades (imagética, auditiva, etc), diferentemente desenvolvidas em cada pessoa.

É preciso apropriar-se das tecnologias como cultura contemporânea e não mais como ferramenta!!

Assim como o livro foi no Século 20 uma grande revolução, a Internet e a Tecnologia Digital correspondem na mesma proporção de importância no Século 21.

Outra questão: Como então relacionar educação e cultura?!

Inclusão Digital X Educação – ainda é feito fora do espaço da escola

Fazer não é suficiente para se apropriar. É preciso incorporar.
Políticas públicas não dão conta e muitas escolas só permitem acesso, sem uso pedagógico, ainda na idéia de tecnologia como ferramenta.

Como então integrar e articular o uso cultural, pedagógico, além da inclusão digital?!

Primeiro deve-se perder a ideia de apropriação de informação e aceitar a partilha de conhecimento.

Os ‘softwares livres’ permitem acesso livre ao CONHECIMENTO, com isso é possível remixá-lo, resignificá-lo, portanto é preciso repensar o conceito de PIRATARIA, COPYRIGHT e etc!!

Essa dinâmica da liberdade foge das estruturas fechadas das Grandes Mídias.
É preciso pensar na concepção de atores-autores, e na produção e socialização de conteúdo.

Autores – produtores – prepositores GERAM cultura – conhecimento – cidadania

ESPAÇOS DE PRODUÇÃO COLETIVA

As redes sociais, wikis, blogs, twitter, youtube, etc são ambientes virtuais de aprendizagem a té novos gêneros textuais!!

Nas escolas tradicionais ainda se tem a ideia de que cada um deve construir uma parte. Um não pode mexer na criação do outro. E esse conceito de apropriação precisa ser repensado!! Aceitar que o sujeito não aprende mais sozinho, pode compartilhar e colaborar.

É preciso estimular a criação, imaginação e articular local/global.
É preciso participar e procurar uma auto-organização a partir de cada realidade e criar espaços de reinvidação.

Basta observar os movimentos sociais mundiais, realizados a partir das redes sociais como a ‘Revolta da Catraca” em Floripa e revolução no Egito.

Essa mudança também é uma questão social e política!!

Na Bahia, nos projetos onde Bonilla está inserida há criação de um site para produção e postagem de VÍDEOS:


Outra alternativa é a WEB-RÁDIO – com um computador e um microfone é possível explorar a expressão oral, produção textual, articulando conhecimento escolar e cultural. E num contexto de pouca banda larga se apresenta como alternativa possível.

A orientação e mudança curricular exige tempo, por isso ainda é um processo de longo prazo.

Contatos: bonilla@ufba.br



Mídia-educação como eixo pedagógico para integração das TIC à escola

Drª Maria Luisa Belloni

A palestra de Belloni complementou a da Bonilla em vários aspectos, e acrescentou em algumas outras coisas.

Ela começou a apresentação, dizendo que a mídia-educação é um campo ainda novo de pesquisa. E comentou sobre a Tecnificação intensa da vida humana e sobre a compressão do tempo e espaço.

Democratizar o conhecimento, socializar novos gêneros e transmitir o saber são as formas de transformação do anima-homem em ser social. Aquele que não convive em sociedade, não se torna ser social.

É preciso desenvolver a cidadania para poder participar da sociedade. Conhecer as vantagens e desvantagens, riscos para escolher e decidir.

A desinformação é organizada pelas mídias de massa e eles interferem na vida social. Um exemplo disso é a
programação da televisão, com baixo nível de reflexão. Porque não se questiona? Porque somos obrigados a assistir e ter acesso a um conteúdo tão pobre?!

Por isso, como fazer das tecnologias instrumentos de cidadania?!
Como fazer das tecnologias instrumentos de expressão e criação?!

O cinema e o imaginário humano contribuíram para uma construção negativa da visão sobre a tecnologia.

É preciso colocar os usuários no centro do processo. A TV e a internet são as mídias mais importantes do processo de socialização.

Existem ainda muitas desigualdades a serem superadas e o reflexo disso é a quantidade de professores que ainda não se apropriaram das tecnologias. O acesso ainda corresponde a classe social. O abismo entre TV e Internet é imenso.

Para haver mudança é preciso articular na educação básica integral, tecnologias, projetos de aprendizagem inovadores, interação de linguagens, ciência, mídia e arte. Para a mídia-educação, os eixos integradores são a mídia e a arte.

É preciso compreender que existem novos meios de aprender:

Autodidaxia: gerações que aprendem de modo autônomo. Não se sabe exatamente porque acontece, mas acontece. A criança mexe sozinha e ensina os adultos.

Colaborativa
Múltiplas informações – processamento paralelo, já iniciado com o videogame.

Com essas novas formas de aprender, as teorias de aprendizagem não dão conta (Piaget, etc), por isso é necessário usar essa base e ir além.

Vivemos numa Era de Inversão de Papéis, crianças sabem mais que os adultos. Mas é preciso que o consumidor tenha consciência e desenvolva o senso crítico.

Novas possibilidades não determinam liberdade!!


Esta seria a dimensão da mídia-educação:

-Leitura crítica de mensagens. (Porque os jovens gostam tanto de vampiros?!)
-Meio de expressão indispensável para o exercício da cidadania, estimulando a participação ativa dos jovens.
-Ferramenta pedagógica – uso em situações de aprendizagem ou integração aos processos educacionais.

Belloni diz que ‘sem ler um livro, não se pode escrever’. (Não?!)

A mídia-educação seria um direito universal da criança, pois não é apenas inclusão digital (mera alfabetização da massa), mas um letramento audiovisual, uma formação crítica e criativa em ‘pixel’. Seria um domínio da leitura e escrita.

Mídia-educação como educação, expressão, informação, opinião e participação em decisões que lhes digam respeito. Formar cidadãos que exijam conteúdo (mercadoria) de qualidade.

‘Dominar as telas para não ser dominado por elas!’

Não só utilizar possibilidades das técnicas, pois por ser interativa cria a ilusão de ‘liberdade’. 

Sugestão de Escola-parque – educação integral com as TICs + Arte + Mídia-educação.

Modos de uso criativo, críticos e inteligentes podem fazer das TICs, meio de democratização do acesso ao conhecimento e à cultura, já que as mídias podem ser instrumentos poderosos de opressão.

Belloni fala da formação de professores e que já na Universidade o atraso é evidente: ensinar sem tecnologias!

Para ela, mídia-educação é o único meio de sintonizar cultura da escola com a cultura dos alunos.

PERGUNTAS E RESPOSTAS para BONILLA E BELLONI:

Após as apresentações, algumas perguntas foram colocadas para serem debatidas.

‘A escola não tem controle nem do livro didático, então como cultivar o uso do laptop?!’

Bonilla respondeu que é um problema que só pode ser resolvido com formação de professores.

‘Como envolver e mobilizar o professor para essa mudança?!’

Belloni diz que novas gerações são as que transformam a sociedade.

As velhas gerações devem ter a humildade de reconhecer que podem aprender com as novas gerações.

Não adianta formar o professor externamente, com formação continuada, cursos extras e afins, tudo fora do espaço da escola, é preciso acompanhar esse professor em sala de aula.

E para Belloni, trabalhar arte e mídia é o eixo central de integração com as TICs na educação.

‘Como fazer se ainda não há recursos?!’

Bonilla diz que é possível fazer com o mínimo, cabe ao professor estudar essas possibilidades.

‘Qual o papel da Universidade?!”
Bonilla diz que as políticas públicas são fragmentadas e isso dificulta o trabalho do MEC e das Secretarias. Uns não se comunicam (e nem querem) com os outros.

A própria universidade está atrasada. Existem ainda poucas pesquisas sobre o processo de aprendizagem atual e ainda menos sobre práticas diante deste novo contexto.

Bonilla ainda diz que apenas 20% das universidades públicas foram professores. 80% são formados em universidades privadas, onde não há controle e tanto comprometimento, a formação é defasada.

Belloni complementa que as novas gerações tem mais conhecimento que seus professores, doutores, etc, e por isso vivemos um período de transição, em breve, naturalmente os professores das novas gerações já ingressarão engajados com as novas tecnologias, onde o aprendizado é autônomo.

É preciso vislumbrar o futuro e não se amarrar no passado!

terça-feira, 12 de julho de 2011

Pausa necessária....


Mais um semestre do mestrado se encerrou e mais uma pausa é necessária para repor as energias... em agosto 1 ano de leituras, escrita, novos conhecimentos e experiências, se completa...

Porém essa pausa...será de muitas leituras e preparação para qualificação que se aproxima...

As disciplinas obrigatórias acabaram, mas começa agora, a necessária disciplina psicológica...'seja o que Deus quiser'!!!

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Seminário Estadual de Cineclubismo, Cinema e Educação

Dia 05 de julho - terça-feira 
Palestras com pesquisadores da área!!

E na parte sobre experiências, fui convidada a falar sobre a experiência da oficina de cinema da Escola da Ilha!! Vai ser bacana!!!

Confraternização - Turma Eco 2010

Quarta-feira, 22 de junho de 2011, tivemos nossa última aula de Linguagens e Mídias
E aí estão quase todos os colegas da Turma ECO 2011...

Kelly, Adriana, Ana, Ally, Gilson, Lauro
Mayra, Profª Dulce, Gabi
Paty e Tim
 
Não participei da primeira etapa da disciplina em abril, ministrada pela Profª Aracy, por estar viajando em lua de mel, mas a segunda etapa, conduzida pela Profª Dulce, se constituiu de seminários, onde todos os alunos apresentaram alguns livros da ementa da disciplina, articulados com outras leituras complementares. Foi bem produtivo e proveitoso!!

E finalmente no nosso último encontro, eu e meu colega Lauro, apresentamos "Cultura da convergência" de Henry Jenkins em tempo recorde de 1h30. Foi bem bacana!! 


Ao final, encerramos a aula com um lanche junino reforçado, com quentão, pipoca, cachorro-quente, pé de muleque, e eu levei uma nega-maluca no estilo "charge", com toques de bombom e amendoim! Estava uma delícia!!

Com este post, aproveito para incluir as fotos da confraternização de 2010, das disciplinas "Barthes e a Educação" e "Teorias da Educação" que também foram super especiais!!


sexta-feira, 17 de junho de 2011

"Arte-mídia" de Arlindo Machado

Li este livro semana passada, para a disciplina de "Linguagens e mídias" ministrada pela Profª Dulce, onde foi trabalhado no seminário "Arte e contracultura" de alguns colegas da disciplina (Ana, Rô, Gilson e Tim). O autor levanta várias questões interessantes para minha pesquisa, como a relação da arte com a mídia, da hibridização dos meios, entre outras relações, que compartilho aqui, através de passagens bem importantes do livro.

O livro é bem pequeno e fino, tem apenas 84 páginas, custa menos de R$15,00, e se divide em 3 partes, mais a introdução.


Arte-mídia: conceito para “designar formas de expressão artística que se apropriam de recursos tecnológicos das mídias e da indústria do entretenimento em geral, ou intervêm em seus canais de difusão, para propor alternativas qualitativas”. Compreende “as experiências de diálogo, colaboração e intervenção crítica nos meios de comunicação de massa” e “abrange também quaisquer experiências artísticas que utilizem os recursos tecnológicos recentemente desenvolvidos, sobretudo nos campos da eletrônica, da informática e da engenharia biológica.” (p.7) “Inclui também artes visuais e audiovisuais, literatura, música e artes performáticas”, além da “criação colaborativa baseada em redes, as intervenções em ambientes virtuais ou semivirtuais, a aplicação de recursos de hardware e software para a geração de obras interativas, probabilísticas, potenciais, acessíveis remotamente, etc”. “Engloba e extrapola expressões anteriores, como ‘arte&tecnologia’, ‘artes eletrônicas’, ‘arte-comunicação’, ‘poéticas tecnológicas’, etc. (p.8) (mídia-educação?!)

Arte e mídia: aproximações e distinções

“Mídia e arte. Que fazem eles juntos e que relação mantém entre si? Dizer arte-mídia significa sugerir que os produtos da mídia podem ser encarados como as formas de arte de nosso tempo ou, ao contrário, que a arte de nosso tempo busca de alguma forma interferir no circuito massivo das mídias? Em sua acepção própria, a arte-mídia é algo mais que a mera utilização de câmeras, computadores e sintetizadores na produção de arte, ou a simples inserção da arte em circuitos massivos como a televisão e a Internet. A questão mais complexa é saber de que maneira podem se combinar, se contaminar e se distinguir arte e mídia, instituições tão diferentes do ponto de vista das suas respectivas histórias, de seus sujeitos ou protagonistas e da inserção social de cada uma. O objetivo deste livro é buscar respostas a essa questão.” (p.8 e 9) (seria minha pesquisa uma forma de buscar também?!)

“A arte sempre foi produzida com os meios de seu tempo.” E assim como Bach e Stockhausen, que “buscavam extrair o máximo das possibilidades musicais de dois instrumentos recém-inventados e que davam forma à sensibilidade acústica de suas respectivas épocas”, outros artistas tem se esforçado em fazer o mesmo com os meios atuais. (p. 9)

Porque, o “artista do nosso tempo, recusaria o vídeo, o computador, a Internet, os programas de modelação, processamento e edição de imagem? Se toda arte é feita com os meios de seu tempo. As artes midiáticas representam a expressão mais avançada da criação artística atual e aquela que melhor exprime sensibilidades e saberes do homem do início do terceiro milênio.” (p.10)

A apropriação que a arte faz do aparato tecnológico contemporâneo “difere significativamente daquela feita por outros setores da sociedade, como a indústria de bens de consumo. Em geral, aparelhos, instrumentos e máquinas semióticas não são projetadas para a produção de arte.” São feitas para produção em larga escala, como o caso do fonógrafo, que desembocou na poderosa indústria fonográfica, mas nunca para a produção de objetos singulares, singelos e ‘sublimes’.” (p.10) (Será?! Mas algum artefato é? Não é justamente o artista que dá um novo contexto e sentido para os recursos disponíveis ao seu redor?!)

“A fotografia, o cinema, o vídeo e o computador foram também concebidos e desenvolvidos segundo os mesmos princípios de produtividade e racionalidade, no interior de ambientes industriais e dentro da mesma lógica de expansão capitalista. Mesmo os aplicativos explicitamente destinados à criação artística, como os de autoria em computação gráfica, hipermídia e vídeo digital, apenas formalizam um conjunto de procedimentos conhecidos, herdados de uma história da arte já assimilada e consagrada” (p.11) e colocados a disposição de “um usuário genérico, leigo e ‘descartável’, de modo a permitir a produtividade em larga escala e atender uma demanda de tipo industrial.” (p. 12)

“Existem, portanto, diferentes maneiras de se lidar com as máquinas semióticas cada vez mais disponíveis no mercado eletrônico. A perspectiva artística é certamente a mais desviante de todas, uma vez que ela se afasta em tal intensidade do projeto tecnológico originalmente imprimido às máquinas e programas que equivale a uma completa reinvenção dos meios.” (p.13)

“O que faz, portanto, um verdadeiro criador, em vez de simplesmente submeter-se às determinações de aparato técnico, é subverter continuamente a função da máquina ou do programa que ele utiliza, é manejá-los no sentido contrário ao de sua produtividade programada.” “É uma recusa sistemática de submeter-se à lógica dos instrumentos de trabalho, ou de cumprir o projeto industrial das máquinas semióticas, reinventando, em contrapartida, as suas funções e finalidades. Longe de se deixar escravizar por uma norma, por um modo estandardizado de comunicar, as obras realmente fundadoras na verdade reinventam a maneira de se apropriar de uma tecnologia.” (p.14 e 15)

Seriam então os vídeos dos alunos, maneiras de subverter as tecnologias? Não somente consumir, mas também produzir, através de seus celulares e máquinas fotográficas, sendo explorados por novas funções, resultando em vídeos que expressam idéias, histórias e sentidos. Seria subversão?

“As técnicas, os artifícios, os dispositivos de que se utiliza o artista para conceber, construir e exibir seus trabalhos não são apenas ferramentas inertes, nem mediações inocentes, indiferentes aos resultados, que se poderiam substituir pro quaisquer outras. Eles estão carregados de conceitos, eles têm uma história e derivam de condições produtivas bastante específicas. A arte-mídia, como qualquer arte fortemente determinada pela mediação técnica, coloca o artista diante do desafio permanente de, ao mesmo tempo em que se abre às formas de produzir do presente, contrapor-se também ao determinismo tecnológico, recusar o projeto industrial já embutido nas máquinas e aparelhos, evitando assim  que sua obra resulte simplesmente num endosso dos objetivos de produtividade da sociedade tecnológica.” “O artista busca se apropriar das tecnologias mecânicas, audiovisuais, eletrônicas e digitais numa perspectiva inovadora, fazendo-as trabalhar em benefício de suas idéias estéticas. O desafio da arte-mídia (ou mídia educação?!) não está, portanto, na mera apologia ingênua das atuais possibilidades de criação. A arte-mídia deve, pelo contrário, traçar uma diferença nítida entre o que é, de um lado, a produção industrial de estímulos agradáveis para as mídias de massa, e de outro, a busca de uma ética estética para uma era eletrônica” (p.16 e 17)

Porém, não seria importante este artista conhecer as regras clássicas? Ampliar seu repertório, para então transgredi-lo?!

“A videoarte talvez tenha sido um dos primeiros lugares onde essa consciência se constituiu de forma clara desde o início.” (p.17)

Mas não podemos esquecer, que muitas transgressões, como a estética videoclipe, por exemplo, tornam-se regras. Carrière diz que as transgressões no cinema, como toda moda, vem e vão! Nascem como novas e são apropriadas exaustivamente até se tornarem “velhas”.

Arlindo Machado comenta de vários artistas da videoarte, e que “em nosso tempo, a mídia está permanentemente presente ao redor do artista, despejando o seu fluxo contínuo de sedução audiovisual, convidando ao gozo do consumo universal e chamando para si o peso das decisões no plano político. É difícil imaginar que um artista sintonizado com o seu tempo não se sinta forçado a se posicionar com relação a isso tudo e a se perguntar que papel significante a arte pode ainda desempenhar nesse contexto. (p.22)

“Sabemos que a arte é um processo de constante mutação.” “O mundo das mídias, com sua ruidosa irrupção no século XX, tem afetado substancialmente o conceito e a prática da arte, transformando a criação artística no interior da sociedade midiática numa discussão bastante complexa.” “Com o cinema, por exemplo, os produtos da criação artística e da produção midiática não são mais facilmente distinguidos com clareza.” “Há controvérsias se ele seria uma arte ou um meio de comunicação de massa. Ora, ele é as duas coisas ao mesmo tempo, se não for ainda outras mais.” (p.23)

“Não há também nenhuma razão para esses produtos qualitativos da comunicação de massa não serem considerados verdadeiras obras criativas do nosso tempo, sejam elas vistas como arte ou não.” (p.25)

“Assim como o livro impresso, tão hostilizado nos seus primórdios, acabou por se revelar o lugar privilegiado da literatura, não há porque a televisão e a Internet não possa abrigar as formas de arte do nosso tempo.” (p.26)

“Talvez possamos com proveito aplicar à arte produzida na era das mídias o mesmo raciocínio que Walter Benjamin aplicou à fotografia e ao cinema: o problema não é saber se ainda cabe considerarmos ‘artísticos’ objetos e eventos tais como um programa de televisão, uma história em quadrinhos ou um show de banda de rock. O que importa é perceber que a existência mesma desses produtos, a sua proliferação, a sua implementação na vida social colocam em crise os conceitos tradicionais e anteriores ao fenômeno artístico, exigindo formulações mais adequadas à nova sensibilidade que agora emerge.” (p.26)

“Com as formas tradicionais de arte entrando em fase de esgotamento, a confluência da arte com a mídia (ou convergência, segundo Jenkins) representa um campo de possibilidades e de energia criativa que poderá resultar proximamente num salto no conceito e na prática tanto da arte quanto da mídia – se houver, é claro, inteligências e sensibilidades suficientes para extrair frutos dessa nova situação.” (p.27)

“Quem fazer arte hoje, com os meios de hoje, está obrigatoriamente enfrentando a todo momento a questão da mídia e do seu contexto, com seus constrangimentos de ordem institucional e econômica, com seus imperativos de dispersão e anonimato, bem como com seus atributos de alcance e influência. Trata-se de uma prática ao mesmo tempo secular e moderna, afirmativa e negativa, integrada e apocalíptica. Os públicos dessa nova arte são cada vez mais heterogêneos, não necessariamente especializados e nem sempre se dão conta de que o que estão vivenciando é uma experiência estética.” (p.29)

Tecnologia e Arte: como politizar o debate 

“As novas tecnologias, associadas ao processo de globalização, penetraram todos os espaços do planeta e interferiram na vida de todos os povos, até mesmo das populações mais isoladas e refratárias à modernização, como é o caso dos povos indígenas. (exemplo da vídeo-carta ikpeng)” (p. 32)

“Não há mais como ignorar o fato de que a conexão universal via Internet é um fato consolidado e sem retorno.” (p.33) Isso não quer dizer que tenha sido feito de maneira igualitária. Há ainda muita desigualdade social e digital ao redor do mundo, diz Machado.

“A aceleração tecnológica modulou também o ritmo de nossas vidas, exigindo atualizações cada vez mais rápidas, premiando os que se adaptam mais facilmente e descartando os que não conseguem acompanhar a velocidade das mudanças.” “E as novas tecnologias colocaram ainda em risco o meio ambiente em que vivemos, promovendo os cenários catastróficos que diariamente perturbam as páginas dos jornais”. (p.34)

“O navegante da rede, integrado ao corpo das interfaces, não é mais um mero espectador passivo, incapaz de interferir no fluxo das energias e idéias; pelo contrário, ele se multiplica pelos nós da rede e se distribui por toda parte, interagindo com outros participantes e constituindo assim uma espécie de consciência coletiva.” (p. 35) (cultura participativa e inteligência coletiva do Jenkins)

“Ou você está no interior da rede ou não está em parte alguma. E, se você está no interior da rede, você está em todos os lugares.” (Ascott apud Machado - p.36)

“A importação em larga escala de idéias e de modelos de ação de outras realidades socioeconômicas tem impedido o desenvolvimento entre nós de uma consciência alternativa relacionada às novas tecnologias.” “A crítica ainda não foi capaz, entre nós, de discutir as novas tecnologias em toda sua complexidade, limitada que está, muitas vezes, por uma tendência tecnófoba igualmente ingênua e importada de modelos apocalípticos europeus ou norte-americanos.” (p.37)
“Não temos critérios suficientemente maduros para avaliar a contribuição de um artista ou de uma equipe de realizadores.”

Flusser e a filosofia da caixa-preta – exprime um problema novo, na medida que “a fotografia foi a primeira a colocar, no surgimento de aparatos tecnológicos que se podem utilizar e deles tirar proveito, sem que o utilizador tenha a menor idéia do que se passa em suas entranhas.” “um desconhecimento que se transforma em atividade”. (p.45)

“Somos, cada vez mais, operadores de rótulos, apertadores de botões, “funcionários” das máquinas, lidamos com situações programadas sem nos darmos conta delas. Pensamos que podemos escolher e, como decorrência disso, nos imaginamos livres e criativos, mas nossa liberdade e capacidade de invenção estão restritas a um software, a um conjunto de possibilidades dadas a priori que não podemos dominar inteiramente.” (p. 46)

A filosofia de Flusser seria então uma forma de refletir e discutir sobre “as possibilidades de criação e liberdade numa sociedade cada vez mais programada e centralizada pela tecnologia.” (p. 46)

“Cada vez mais artistas lançam mão do computador para construir suas imagens, músicas, textos, ambientes; o vídeo é agora uma presença quase inevitável em qualquer instalação. A incorporação interativa das respostas do público se transformou numa norma (quando não numa mania) em qualquer proposta artística que se pretenda atualizada e em sintonia com o estágio atual da cultura.” (p.53)

Trata-se agora de identificar “onde a inserção de novas tecnologias nas artes está introduzindo uma diferença qualitativa ou produzindo acontecimentos verdadeiramente novos em termos de meios de expressão, conteúdos e formas de experiência.” (p.57)

Convergência e divergência das artes e dos meios

“Podemos imaginar o universo da cultura como um mar de acontecimentos ligados à esfera humana e as artes ou os meios de comunicação como círculos que delimitam campos específicos de acontecimentos dentro desse ‘mar’.” “Na prática, é impossível delimitar com exatidão o campo abrangido por um meio de comunicação ou uma forma de cultura, pois as suas bordas são imprecisas e se confundem com outros campos.” É o caso do cinema, onde ser “impossível falar dele sem a fotografia.” (p.56 e 57)

A especificidade de cada meio, “aquilo que o distingue como tal e que nos permite diferenciá-lo dos outros meios e dos outros fatos da cultura humana”, tem ficado menos evidente, pois a medida que nos aproximamos das “bordas e zonas de intersecção”, “os conceitos que os definem podem ser transportados de uns para outros e as práticas e tecnologias podem ser compartilhadas.” (p.59)

“Fotografia, cinema, televisão e vídeo, apesar de serem bastante próximos em muitos aspectos, foram durante muito tempo, pensados e praticados de forma independente, por gente diferente, e esses grupos quase nunca se comunicavam ou trocavam experiências.” (p.63), porém nas “sociedades humanas, uma ênfase exagerada nas identidades isoladas podem levar à intolerância e à guerra entre culturas, enquanto os processos de hibridização podem favorecer uma convivêcia mais pacífica entre as diferenças”. (p.64)

Se considerarmos o cinema, enquanto “escrita do movimento”, incluindo todas as formas de expressão baseadas na imagem em movimento, “televisão e vídeo também passariam a ser cinema”. E pensando dessa maneira, o cinema encontraria uma vitalidade nova, que pode não apenas evitar o processo de fossilização, como também garantir sua hegemonia perante as demais formas de cultura. Se antes no passado, teatro de sombras, agora com este novo corte e contexto, o cinema expandido se tornaria audiovisual.

“Já não se pode mais determinar a natureza de cada um de seus elementos constitutivos, tamanha é a mistura, sobreposição, o empilhamento de procedimentos diversos,sejam eles antigos ou modernos, sofisticados ou elementares, tecnológicos ou artesanais.” (p.70)

E diante dessa forma múltipla de expressão, surgem novos produtos, com uma “nova gramática”, que depende também de uma “nova leitura” por parte do sujeito receptor. (p.75)

“Os novos processos imagéticos despejam seu fluxo de imagens e sons de forma simultânea, isso exige, da parte do receptor, reflexos rápidos para captar todas (ou parte delas) as conexões formuladas, numa velocidade que pode mesmo parecer estonteante a um ‘leitor’ mais conservador, não familiarizado com as formas expressivas da contemporaneidade.” (p.76)

Não se pode esquecer, que a “hibridização produz inovação e abanco, mas também relações de desigualdade e assimetrias entre os fatos da cultura que ela agrega.” (p.77)

“Além disso, as constantes fusões e mudanças tecnológicas impedem que novas gerações possam ter tempo suficiente para amadurecer o domínio de um meio ou técnica, tornando os novos produtos necessariamente mais superficiais e de fôlego mais curto. Nos tempos da divergência e da especificidade, um cineasta levava muito tempo para chegar à direção, passando pro um longo processo de amadurecimento como assistente de direção e diretor de curtas-metragens. Hoje, uma nova tecnologia ou numa nova mídia não dura mais que cinco ou dez anos, impossibilitando portando o amadurecimento profissional, a constituição de uma linguagem suficientemente desenvolvida, a destilação de uma estética e a formação de um acervo de obras representativas. Às vezes, o hibridismo podem até mesmo dar expressão a algum tipo de esquizofrenia, como acontece nos ambientes computacionais, em que a possibilidade de acesso às mais variadas fontes e formatos digitais e a facilidade de fusão de todas essas fontes na tela do computador fazem com que muitos realizadores se sintam quase constrangidos a juntar tudo, produzindo resultados que estão mais para a pirotecnia de efeitos do que para a consistência estética e comunicativa do produto”. (caso dos filmes atuais...)

“A hibridização e a convergência dos meios são processos de intersecção, de transações e de diálogo, implicam movimentos de trânsito e provisoriedade, implicam também as tensões dos elementos híbridos convergidos, partes que se desgarram e não chegam a fundir-se completamente.” (p.78) 

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Como complemento (e ótima síntese) sugiro a apresentação no prezi do colega Gilson.