quarta-feira, 8 de junho de 2011

"Pedagogia do bom-senso" de Célestin Freinet

"Não se obriga um cavalo que não tem sede a beber!" 

 A demanda de leitura do mestrado me consome bastante tempo, mas finalmente consegui destacar todas as passagens importantes de uma pedagogia, presente neste livro, que considero fundamental.São passagens belíssimas e inspiradoras para qualquer pessoa apaixonada, que se proponha a educar!

Reforço que meu trabalho no momento não é articular estas passagens em outros contextos ou com minha pesquisa, mas somente destacá-las, para futuramente usá-las em citações e articulações, na escrita da minha pesquisa.

Compartilho no blog e na web, por acreditar numa "cultura participativa" e "inteligência coletiva", onde os usuários podem trocar informações e conhecimento, numa troca produtiva e mútua!


“Minha longa experiência dos homens simples, das crianças e dos animais persuadiu-me de que as leis da vida são gerais, naturais e válidas para todos os seres.” (p.1)

“O cão tem que caçar para se formar!” (p.5)

“O cão novo será treinado em companhia de cães excelentes, tendo apenas que seguir o exemplo deles.” (p.6)

“Nunca se deve bater nos mais novos. Deixe-os ou faça com que sejam castigados por outra pessoa, se necessário; mas nunca será pelo medo que você alcançará seus fins.” (p.6)

“O investigador de gênio é sempre aquele que caminha na direção da simplicidade e da vida.” (p.8)

“A verdade é que nossos mestres e os seus servidores nunca têm interesse em que nós descubramos as leis claras da vida”. (p.9)

“A educação não é uma fórmula e escola, mas sim uma obra de vida!” (p.9)

“É já na semente, ou no broto, que o jardineiro prudente cuida e prepara o fruto que virá. Se esse fruto é doente, é porque a própria árvore que o gerou estava enferma ou degenerada. (sobre os pais?!) Não é do fruto que se deve tratar, mas da vida que o produziu. O fruto será o que fizeram dele o solo, a raiz, o ar e a folha. Deles é que devemos cuidar, se quisermos enriquecer e garantir a colheita.” (p.10)

“Os seus alunos decoram a tabuada num mundo que será amanhã, o da máquina de calcular!” (p.13)

Freinet diz que existem professores que orientam alunos a estudar e fazer as lições para se tornarem “homens”, mas argumenta de homens que progrediram sem ajuda da escola. “Triunfou devido a outras virtudes que a escola não soube descobrir nem cultivar!”. (p.14)

“É assim que sempre nos enganamos, quando pretendemos mudar a ordem das coisas e obrigar a beber quem não tem sede!” (ou interesse e vontade! p.17)

“O problema essencial da nossa educação não é de modo algum o ‘conteúdo’, mas a preocupação essencial que devemos ter de fazer a criança sentir sede! Então a qualidade do conteúdo seria indiferente? Só é indiferente para os alunos, que na escola antiga, foram treinados a beber, sem sede, qualquer bebida!” (obrigar a decorar conteúdos que não os interessam - p.18)

“Não preparamos homens que aceitarão passivamente um conteúdo, mas cidadãos que, amanhã, saberão enfrentar a vida com eficiência e heroísmo e poderão exigir que corra para dentro do tanque d´água clara e pura da verdade”. (p.18)

“Não se obriga o cavalo que não tem sede a beber!” (p.18)

Com isto, é necessário fazer a criança sentir sede. Sede do saber e do conhecimento. E se obrigada, a criança pode até sentir aversão e se recusar a “aprender” determinado conteúdo, buscando sozinha uma outra “fonte”.

“Se o aluno não tem sede de conhecimentos, nem qualquer apetite pelo trabalho que lhe você lhe apresenta, também será trabalho perdido ‘enfiar-lhe’ nos ouvidos as demonstrações mais eloqüentes.”

“É lamentável qualquer método que pretenda fazer beber o cavalo que não está com sede. É bom qualquer método que abra o apetite de saber e estimule a poderosa necessidade do trabalho.” (p.19)

Talvez o “deixar vir” o conteúdo e os interesses, para então atuar com o repertório e necessidades que os alunos apresentam.

Freinet defende o trabalho com prazer. Aquele ao qual nos “dedicamos com entusiasmo, por ser nossa condição de vida, e a qual, como toda obra de vida, damo-nos completamente.” (p.23)

“A vida prepara-se pela vida.” (p.25)

O autor também se coloca como criança, onde conserva a impressão tão comum da juventude, sentindo e compreendendo de uma forma que, como criança, educa crianças.

“É como adulto-criança que descubro, através dos sistemas e métodos que tanto me fizeram sofrer, os erros de uma ciência que esqueceu e desconhece suas origens.” (p.27)

Freinet acredita que se o educador não voltar a “ser criança”, não entrará no reino encantado da pedagogia. Em vez de procurar esquecer a infância, acostumar-se a revivê-la e reavivá-la com os alunos, “procurando compreender as possíveis diferenças originadas pela diversidade de meios e pelo trágico dos acontecimentos que influenciam tão cruelmente a infância contemporânea.” (p.28)

Aceitar que a infância delas hoje equivale a nossa de ontem, nem melhor ou pior.

“Somos uma geração de copistas-copiadores, de repetidores condenados a registrar e a explicar o que dizem ou fazem homens que nos afirmam ser superiores e que, muitas vezes, só têm sobre nós o privilégio da antiguidade nessa arte de copiadores e de repetidores.” (p.31)

Freinet defende que a criança deve plantar a curiosidade e colher por conta própria, através da própria experiência. Que muitas vezes, os educadores tentam facilitar os conteúdos, sem considerar as dúvidas e questionamentos que a criança tem, muitas vezes descartados pelos adultos. A criança quer colher, conhecer a origem, não somente se satisfazer com o que está dado!

Ele diz que se quisermos crianças inteligentes, críticas e autônomas, devemos parar de colocá-las em moldes e devemos estimular sua curiosidade, audácia e criatividade. Devemos ficar felizes quando elas se desviam dos caminhos que propomos, pois é essa inquietação o combustível para o aprendizado.

Ele também critica, métodos que fazem a criança repetir algum exercício, quando realizado rápido demais. Professores julgam ter sido mal feito, só por terem sido feitos rápidos demais.

E ele também aconselha que “se valorize o mais humilde do mais humilde dos seus alunos!” (p.41)

Ele fala também da importância do desafio e da finalidade das atividades.

“A escola nunca é uma parada. É a estrada aberta para os horizontes que se devem conquistar.” Não prender-se aos problemas do passado, mas concentrar-se aos caminhos que apontam para o futuro! (p.47)

Ele critica a obrigação do uniforme. “Não pratique na era das camisas da Lacoste, a pedagogia da casaca!” (p.50)  E fala que ninguém pode vivenciar experiências no lugar do outro. É importante experimentar, como cair, tentar, quando se aprende a andar de bicicleta.

“Infeliz a educação a que pretende, pela explicação teórica, fazer crer aos indivíduos que podem ter acesso ao conhecimento pelo conhecimento e não pela experiência. Produziria apenas doentes do corpo e do espírito, falsos intelectuais inadaptados, homens incompletos e impotentes.” (p.53)
Freinet diz que quando reprimimos alunos que tendem a se desviar do caminho que planejamos, “nós os tornamos estúpidas porque reprimimos brutalmente todas as tentativas de emancipação”.

Ele aconselha que devemos conservar o “apetite natural” do aluno. Educarmos conforme suas necessidades e curiosidade.

Se extremamente controladas, as crianças perdem a capacidade de agir diante da vida. Tornam-se passivos e não conseguem procurar ou conquistar nada sozinhas.

“É necessária a aventura da vida!” (p.57)

Freinet aconselha ainda a “não se fingir de morto”. Questionar, inquietar-se, ser agente ativo da vida. E como educador, permitir essa abertura entre os alunos.

“A atmosfera de uma classe depende, sobretudo, do gênero e da qualidade do trabalho que se faz nela.” (p.67)

E o autor recomenda, aceitar as diferenças, que muitas vezes fica evidente em alunos julgados “deliqüentes” ou “indisciplinados”. “Aqueles que nunca pecaram, que lhes atire a primeira pedra!” (p.68)

Apesar de todos esses conselhos, ele diz que não se deve abandonar métodos antigos de trabalho, antes de encontrar métodos melhores para substituí-los.

E também comenta de alunos-Adriano, que são aqueles que não precisam de manual, instrução ou estágio de aprendizagem. Parecem ter extrema facilidade de aprendizado. (p.70)

Aconselha a não desencorajar os alunos “corredores”, que não tem tantas habilidades em sala de aula, mas se destacam em outras habilidades. Talvez justamente o que acontece na Oficina de Artes. Os alunos indisciplinados, costumam se disciplinar na Oficina de Artes.

Ele sugere banir métodos de interrogação. “Ninguém gosta de ser interrogado, nem os adultos, nem as crianças, porque o interrogado imediatamente se coloca em situação de inferioridade em face do interrogador, e porque o ser humano não suporta a sensação de inferioridade.” (p.79)

“Vamos ajudar a criança, manter nela o desejo e a necessidade do trabalho, deixar que ela seja a interrogar e a pedir conselhos, e arranjemos as coisas de maneira que ela faça bem o sulco, e triunfante, possa admirar o resultado do próprio esforço.” (p.80)

“A natureza é assim: ninguém gosta de obedecer passivamente.” “O adulto não é exceção. Existe, o indivíduo habituado ao rebanho, dobrado pela obediência, domesticado a ponto de ter perdido essa reação vital que é a dignidade. A criança, porém ainda é nova. Basta sentir que você quer orientá-la por um determinado caminho, que o seu movimento natural é escapar em sentido oposto.” (p. 82)

Freinet faz uma colocação importante. De que a “criança pode chegar ao topo da escada sem subir metodicamente todos os degraus”. Instintivamente pode encontrar um novo caminho de conhecer o saber. E diz que as escolas não necessariamente são esse lugar.

“Na origem de toda conquista está não o conhecimento, que só vem normalmente em função das necessidades da vida, mas a experiência, o exercício e o trabalho!” (p.92)

 “Existem escolas onde, há séculos, todos se esforçam por andar apoiado nas mãos. A aprendizagem é longa e laboriosa. Os que se recusam não têm tempo para ela ou são reconhecidos como incapazes, são excluídos para sempre do mundo que anda apoiado nas mãos.” Nestas escolas “acham essa postura, de andar com as mãos, uma maneira de se deslocar tão normais, que chegam a lamentar os pobres seres humanos que teimam – contra toda ciência, segundo dizem – em andar apoiado nos próprios pés!” (p.95 e 96)

“O mais delicado da nossa tarefa de inovadores não é treinar as crianças para deslancharem com tenacidade no sentido da vida, mas habituar os educadores a se manterem apoiados nos pés, segundo as leis do bom senso e da natureza.” (p.98)

“Até hoje, a Escola foi e continua sendo o Tempo onde a criança, depois de ter realizado alguns gestos rituais, entra na sala de aula na ponta dos pés para viver uma vida totalmente diferente da sua verdadeira vida, no respeito religioso pela palavra do professor e na submissão às ‘Escrituras’. Essa Escola-Templo não se preocupa em preparar a criança para a vida!” (p.102)

Freinet acredita que esta Escola-Templo abstrai a vida, e é “persuadida de que o conhecimento abstrato, a cultura intelectual, o culto das idéias e das palavras são o verdadeiro e definitivo de toda a educação.” (p.102)

“Longe de nós o pensamento que o livro, o raciocínio lógico e a palavra esclarecida sejam supérfluos ou inúteis. São a condição do progresso, mas deverão entrar em ação apenas quando a experiência houver lançado seus alicerces e enterrado suas raízes na vida individual e social.” “Experimentar e ajustar não só materiais brutos ou peças mais ou menos trabalhadas, mas elementos de criação e de vida.” (p.109)

“Transformar tecnicamente a Escola da saliva e da explicação em inteligente e flexível canteiro de obras, eis a tarefa urgente dos educadores.” (p.110)

“Desconfie da saliva. Com muita freqüência ela não é mais do que um meio da impotência e da ilusão!” (p.111)

“Raciocine, você insiste, sem perceber que todo raciocínio são e válido se apóia em dados e em elementos que só a experiência e a vida podem preparar e estabelecer. Repita, exercite a memória, recorde! Garantiram-lhe que a memória é o principal instrumento do conhecimento, e a repetição a chave da pedagogia. Você aprenderá à sua custa que a memória das palavras é só sobrecarga para o espírito e um embaraço para o comportamento da vida. Sem experiência, ela não é nada. É a parede que erguemos pedra por pedra, sem nos importarmos com os alicerces, e que será sempre incerta e vacilante.” (p.112)

“Aquele que trabalha, economiza palavras e aquele que fala muito, sempre economiza trabalho. Poupe sua saliva e organize o trabalho!” (p.112)

“Desça ao nível das crianças, para você jogar o jogo delas, ver como elas, reagir como mesmo ritmo. Arregace as mangas para trabalhar com as crianças. Deixe de dar ordens e castigar, atire-se ao trabalho com os alunos. Não tenha medo de sujar as mãos, de se machucar com uma martelada, de hesitar nos casos em que a criança mais viva domina a situação, de tatear, de se enganar, de recomeçar.” (p.114)

“Ainda estaríamos na pré-história se não tivessem levantado por toda parte e não fossem ainda inúmeros os insatisfeitos e os iluminados que, estendendo as mãos para o inacessível, vão tentando ultrapassar o que é, perscrutando a noite que os oprime. São suas as audácias que marcam as lentas fases do progresso, mesmo e sobretudo se eles forem as vítimas injustas. Não pense que na Escola, você deve imitar os mais velhos, empregar os seus métodos mesmo que bem conceituados na sua época, usar os manuais com que se declaravam satisfeitos e orgulhosos.” “Devemos permanecer sempre de atalaia, experimentar nossos passos, partir da tradição, apoiar-nos nela nos momentos difíceis, mas ultrapassar e abandonar os caminhos traçados, lançar pontes, cavar túneis, escalar encostas, alcançar cimos, para irmos sempre em busca de mais claridade e mais sol.” “Tire o chapéu para o passado! Tire o casaco para o futuro!” (p.116 e 117)

“É necessário ter experiência e conhecimentos, mas são necessários sobretudo amor e preocupação permanente de estar ao seu serviço, pois o êxito é a recompensa de um educador inteligente e devotado!” (p.118)

“Seja prudente com a novidade. Nunca a procure por ela mesma, mas pela melhoria que poderá proporcionar ao seu trabalho e a sua vida.” (p.119)

“Não seja nem o tradicionalista endurecido, nem o inovador caçador de aventuras. Procure técnicas práticas e flexíveis; desgaste-as conosco, na experiência coletiva; faça-as suas até marcá-las com a sua maneira de andar e com o seu temperamento.” (p.120)

“O homem que deixou de construir (aprender?) é um homem que a vida venceu e que só deseja a noite, contemplando o passado morto. Prepare gerações de construtores!” (p.123)

Freinet aconselha, mesmo sabendo que “os construtores estão sempre construindo, e haverá quem os acuse de desordem e de impotência.” (p.124)

O autor diz que não é preciso um teste especial para se conhecer o valor e o rendimento de um educador. “Se faz o trabalho com prazer e se interessa profundamente pela profissão” é certo que os educandos serão bem tratados. “A técnica virá depois, se ainda faltar e, enquanto isso, a solicitude permanente do educador saberá “atenuar as insuficiências profissionais”. (p.125)

“Seria necessário lembrar os pais e aos professores que um educador que já não tem gosto pelo trabalho é um escravo do ganha-pão e que um escravo não poderia preparar homens livres e ousados; que você não pode preparar os alunos para construírem, amanhã, o mundo dos seus sonhos, se você já não acredita nesta vida; que você não poderá lhes mostrar-lhes o caminho se permanecer sentado, cansado e desanimado, na encruzilhada dos caminhos.” (p.126)

“Conserve nas crianças essa alegria simples que sentimos ao seguir fora dos caminhos já muito pisados, ao nos ferir nos espinhos  e agarrar aos rochedos de onde se descobrem os profundos horizontes de luz; cultive nelas a embriaguez dos triunfos, sem no entanto correr o risco de se perder ou extraviar; mantenha-as em grupos harmoniosos, no seio dos quais possam sentir-se amparadas umas pelas outras e compartilhar a grande força que nos vem das nossas mãos unidas; mobilize-as ao mesmo tempo para fazer avançar cada vez mais os caminhos claros e livres que permitam a audácia renovadas das gerações que estão por vir.” (p.128)

“As crianças têm necessidade de pão, do pão do corpo e do pão do espírito, mas necessitam ainda mais do seu olhar, da sua voz, do seu pensamento e da sua promessa. Precisam sentir que encontraram, em você e na sua escola, a ressonância de falar com alguém que as escute, de escrever a alguém que as leia ou as compreenda, de produzir alguma coisa de útil e de belo que é a expressão de tudo o que trazem nelas de generoso e superior.” “A criança precisa de pão e rosas!” (p.129)

“Deixe a criança tatear, alongar os tentáculos, experimentar e cavar, inquirir e comparar, folhear livros e fichas, mergulhar a curiosidade nas profundezas caprichosas do conhecimento, numa busca, às vezes árdua, do alimento que lhe é substancial. Isso nem sempre se fará sem choro e ranger de dentes.” (p130)

“Você já notou como as crianças, em casa ou na escola, são ajuizadas e fáceis de suportar quando estão totalmente ocupadas numa atividade que as apaixona? O problema da disciplina já não se coloca – basta organizar o trabalho que a entusiasma.” “Assistimos a desordem acidental da oficina ainda não suficientemente organizada; mas os êxitos, de que nos orgulhamos, provam-nos que, em nossas classes, a prova de força foi ultrapassada. Passamos à disciplina democrática – aquela que prepara a criança para forjar a sociedade democrática que será como ela a fizer.” (p.136)

“Somos aprendizes, às vezes com pretensão de mestres e ocultando de bom grado, a nós mesmos, as nossas imperfeições e as nossas impotências. Somos todos aprendizes!” (p.138)

“É fazendo rodar, lado a lado, a carroça e o trator (as velhas e novas tecnologias e/ou métodos de ensino), que se avaliam verdadeiramente os progressos técnicos e humanos a serem explorados e reforçados.” (p.145)

“Sabemos discutir muito bem, no café ou na curva dos caminhos, quando nada nos apressa, o sol está claro e o rio murmura nos pés, mas quando se trata, numa reunião, de dizer verdades aos que criticamos e de tomar diante deles, a posição viril que tomamos entre nós, então já não há homens. Há somente ovelhas e criados!  E na saída, nós nos lamentamos!” (p.148)

“Talvez se você, educador, ajudasse os educandos a afirmar sua personalidade como desejaria ensinar-lhes ortografia e cálculo; se você os treinasse para salvaguardar a própria dignidade, com a mesma ciência pedagógica que emprega para os fazer obedecer; se você tivesse tanto cuidado em formar o homem como em educar o estudante, então talvez tivéssemos amanhã gerações capazes de se defender-se dos faladores e dos políticos que hoje nos dirigem.” (p.149)

“O educador não é um forjador de cadeias, mas um semeador de alimento e de claridade!” (p.151)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

"No mesmo barco: ensaio sobre a hiperpolítica" de Peter Sloterdijk

"Política é a arte do possível!"

Uma frase. Muitos desdobramentos possíveis!

Ainda com as ideias e conceitos desordenados, consegui pescar algumas coisas com a esperança de ter entendido pelo menos algumas passagens dos escritos do autor. Em geral, acredito que o que vivenciamos hoje em relação à política, cada vez mais insustentável na estrutura em que se encontra e o constante individualismo da humanidade, segundo o autor, eram inevitáveis de acontecer. A humanidade caminhou para este destino desde o princípio, e com vocabulário rebuscado, desconstruindo palavras e conceitos, trazendo outras vozes, Sloterdijk nos conta essa trajetória com bastante coerência.

Ao ler um texto complexo, não acho possível compreender tudo de uma vez só, por isso destaco aquilo que me saltou aos olhos. Destacar algumas passagens e impressões em leituras de mestrado me parece um exercício importante e até necessário, quando surgir a necessidade de revisitar algum trecho e não houver tempo de revisá-lo por inteiro.

Quando o autor nos fala que "o mito de Babel apresenta a expulsão da humanidade de um paraíso unitário, cujo conteúdo político poderia se caracterizar por um nome: consenso." Me fez pensar na impossibilidade de haver consenso entre todos nós. Somos tão diferentes, com visões tão múltiplas, então como pensar da mesma forma e querer as mesmas coisas?! Basta observar a grande polêmica que se estabeleceu no Senado com a questão da legalização da Homofobia. “Deputado Jair Bolsonaro e senadora Marinor Brito trocam ofensas após sessão” noticiou o jornal. Independente de que posição eu possa assumir, cada um tem seus motivos e verdades, que defendem com unhas e dentes. Assim como eu acho que um é completamente irracional com seus argumentos, outros pensam justamente o mesmo daquela que eu apoiaria. “O mundo é tudo o que é, para o ilhéu que vive em harmonia com os outros; verdade é aquilo a que se pode conectar a partir da ilha; o que não pode ser para o ilhéu, nunca terá sido.” Talvez por isso, nenhuma decisão consiga ser tomada. Cada um acredita na sua verdade. Não há consenso, infelizmente! (ou felizmente?!) "Quanto mais tempo acumularmos experiências com quem pertencemos, tanto mais clara aparecerá a evidência de que não temos qualquer capacidade de pertença” e a “mais primitiva forma do pertencer-se coletivamente é transmitida pela arte de deslocar pessoas para um interior comum e ampliado”.

Partindo do pressuposto de que “política é a arte de organizar os laços ou forças de ligação que abrangem grupos de até milhões de membros, e para além disso, numa esfera de elementos comuns – seja o elemento comum nefasto do sofrimento sob a tirania ou o elemento comum saudável de uma cooperação entre pessoas competentes na democracia”, Sloterdijk parece nos dizer que esta arte hoje, é a da impossibilidade.

A humanidade parece estar sempre num jogo de idas e vindas. De apegos e desapegos. Um ciclo contínuo, não em círculo, mas espiral. Existe a necessidade de crescer, evoluir, mas com ela vem o sofrimento, necessário para o equilíbrio, já diria Jung. Nietzsche, bastante referenciado no texto de Sloterdijk, trouxe uma passagem fundamental, que me faz pensar sobre educação. Dizia “que nós plantamos, para que as gerações futuras possam colher”. Não há como saber o resultado do que fazemos hoje. Talvez não importe o resultado, mas sim o processo. Então, num mundo onde reina a impossibilidade da política e do consenso, como educar? Como governar? Como viver em sociedade? Viver em harmonia é e será possível?!

Há duas passagens sobre amizade e reflexão, extraída da filosofia grega, que achei muito interessantes: “a melhor vida consiste em trocar com amigos todos os dias, algumas palavras sobre as grandes coisas.” Seria filosofar? Refletir sobre as coisas e o mundo? Estaria aí a grande motivação para o mundo “girar” em espiral?! Não parar de pensar sobre as coisas, ainda que estejamos vivendo numa era do não-pensar?! E não só pensar, mas pensar entre amigos, entre aqueles onde há afinidade, pois “amigos são homens que, em seus caminhos pelos altos e baixos do Grande, se interpenetram”. Refletir e trocar. Transformar?!

Neste sentido, refletir também poderia significar sofrimento. “Viver na cidade para muitos também significa sofrer com a cidade” e “não se educa o homem que não sofre flagelos” (Goethe). Refletir é sofrer? Refletir é transformar-se? Todos querem e gostam de refletir? Sloterdijk diz que a dor, na grande civilização age de formas diferentes. Em alguns é “estimuladora” e em outros “obstruidora”. Para uma minoria, a carência tem efeito educador e para maioria, age como destruidora de almas. Duas naturezas fundamentais opostas, em possível conflito. Seria a metro-política? Uma inevitável tensão entre centro e periferia? Para governar então, e exercer política, não seria preciso abstrair-se?! “O homem político é aquele que apresenta e representa o poder”. “Só quem praticou de perto o separar-se pode representar o abstrato”. Isto exigiria um “sacrifício da alma”. Seria esta a explicação dos constantes casos de corrupção? A abstração é tão grande que acaba também eliminando o senso do coletivo?

Num mundo onde tendemos ao desprendimento, inseridos em ambientes virtuais, criando e usufruindo de mecanismos que trazem cada vez mais conforto e autonomia, como querer pertencer? Não buscávamos autonomia? Liberdade? Desprendimento? Parece então, improvável viver o coletivo, se o que todos querem é viver o singular. Ao desapegar-nos de Deus, do Estado, da sensação de unidade, e lutarmos pelo múltiplo, pela autonomia e liberdade de pensar e agir, carregamos conosco o fardo, o paradoxo de viver. “Onde quer que surja algo politicamente Grande, certamente haverá um contra-peso por perto”. Ao desejarmos viver desta forma, impossibilitamos a convivência do coletivo em sociedade, então parece natural haver tantos conflitos. Poderia ser diferente? Deveria? “Pós-modernidade é a época do ‘depois de Deus’”.

“De fato, não sabemos que tipo humano seria necessário para preencher os espaço vazios, e que treinamentos devem ser desenvolvidos para que seja reduzida a enorme lacuna entre a forma mundial global e as psiques locais” e “partes consideráveis das populações virarão as costas, com indiferença, a tudo que é político”. (já não viraram?!) “É bom preparar-nos para combates seculares entre as regiões do mundo moderno-globalizadoras e as conservadoras-resistentes”, afinal “num mundo sem forma e numa sociedade sem identidade, são maciçamente tramadas retomadas, renascimentos e reconscientizações de valores antigos”. (uma luta de valores? Aprovar ou não a lei contra a homofobia? Quem é melhor que quem?!)

Talvez a “cura” seria voltar a apegar-se. “A arte do pertencer-se só pode recomeçar a partir das pequenas ordens.” A salvação da humanidade estaria em pequenos grupos. Seria o “semear” de Nietzsche?! E uma possível “anarquia”?! Sloterdijk diz que observando o percurso da História da Humanidade, pode-se aprender duas coisas: “as tentativas de produzir comunidades em grande escala acabam em totalitarismos” e “um descuido das pequenas unidades, deve, a longo prazo, levar a becos psico-patológicos”. O autor diz ainda que “falta à teoria e prática, implantação de uma política para uma era sem impérios”. Seria esta a hiperpolítica?

“Uma sociedade hiperpolítica é uma comunidade de desafio que no futuro também apostará no aperfeiçoamento do mundo; o que ela tem a aprender é um meio de transformar seus ganhos de tal forma que depois dela ainda poderá haver ganhadores.” Talvez ensinar a semear! Ensinar a continuar refletindo, inquietando-se e com estas inquietações, manter a vida em “espiral” rodando!

"Teorias da Comunicação"

breve.

"A delicadeza" de Denílson Lopes

breve.

terça-feira, 1 de março de 2011

1ª Capacitação do CDI para Educadores 2011


Hoje terminaram as atividades presenciais da capacitação que eu estava fazendo no CIEE para o CDI - Comitê para Democratização da Informática.

Foram cerca de 7 dias de trabalhos intensos, das 13h às 18h, com palestras, dinâmicas, atividades à distância, lanchinhos, "conversinhas de corredor" e debates sobre vários assuntos associados à inclusão digital e metodologia do CDI.

Foi uma experiência bem bacana e uma oportunidade de conhecer melhor o trabalho que a ONG faz, contribuindo para projetos de inclusão digital, além de conhecer uma galera "sangue bom" e empenhada em fazer do seu trabalho, uma oportunidade de futuro melhor para nosso país.

Infelizmente não poderei assumir nenhuma função no momento, nem de educadora ou assessora, por estar com viagem de lua-de-mel marcada em abril, mas espero que os contatos e parcerias feitas, possam me trazer bons frutos futuramente!

A experiência contribuiu inclusive para rever meu projeto de pesquisa do Mestrado e alterar meu vocabulário para "inclusão digital através do cinema". Será?!!

Energia renovada para a volta às aulas e leituras densas, depois de uma maratona desgastante de prepativos pro casório que acontece dentro de 1 mês!!


UFSC aqui vou eu!!!! =)

Para saber mais:

CDI
- Criado em 1995, ano em que a internet chegava ao Brasil, o Comitê para Democratização da Informática – CDI tornou-se pioneiro no movimento de inclusão digital na América Latina e um dos principais empreendimentos sociais no mundo, com uma abordagem socioeducativa diferenciada e um modelo único de gestão, visando à sustentabilidade do projeto. É uma organização não-governamental que utiliza a tecnologia como ferramenta para combater a pobreza e a desigualdade, estimular o empreendedorismo e criar novas gerações de empreendedores sociais. Atende cerca de 13 países e possui mais de 20 escritórios no Brasil. A Rede CDI estende-se aos lugares mais remotos da América Latina e do Brasil, como a Amazônia, beneficiando pessoas de diferentes faixas etárias, culturas, raças e etnias.

Contatos em SC:

Site: http://cliquefuturo.org.br/ e Blog: http://cdisantacatarina.blogspot.com/

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Twitter - fragmento virtual

Janeiro de 2011. Verão. Calor.
Mestrado sem bolsa e recesso escolar: trabalho temporário necessário.
Escritório de advocacia do André. (meu noivo)
Secretária.
Tranquilo. Café, telefone, scanner, xérox e organização.
Internet. Google. Twitter.
Fragmento. Agilidade. Compulsão.
Vício.
Hoje de tarde desci pra fazer um lanche com o André e tinha passado a manhã inteira (e comecinho da tarde) sozinha no escritório pesquisando textos do mestrado (impressão), atualizando blogs, visitando o blog de outros, escrevendo pra amigos no facebook (eles não usam mais orkut - snifis Mark!), checando a caixa de e-mails (que anda meio parada) e tuitando compulsivamente.
Como não costumo falar sozinha (e não há nenhum cachorro ou planta aqui pra servir de desculpa), fiquei muito tempo quieta, mas falando mentalmente pelo twitter tudo que se passava na minha cabeça e que me interessava postar. (com esperanças de respostas - TT, e às vezes me apavorando com quem posta o Nada ou o o que parece Inútil, tipo...ai que sono vou dormir! - falando sozinho talvez? pensando alto?)
Com a Era Digital, e sendo o twitter um forte exemplo disso, o pensamento parece um dedo frenético teclando na mente tudo aquilo que se passa diante da nossa vida e é possível captar e teclar virtualmente. Pensamos assim ou passamos a pensar assim, mais rápido, para dar tempo de teclar?? (como a minha dúvida sobre imaginar, sonhar ou reconstituir um fato importante da vida depois que o cinema criou a câmera lenta)
Enfim, falado sobre a saída para o lanche, notei que minha cabeça ainda estava presa aquele jeito "twitter" de pensar em fragmentos e comecei a conversar freneticamente com o André e ele pedia pra eu repetir o que eu estava falando porque não estava entendendo nada. Eu começava falando de um assunto e terminava em outro.
Notei que eu estava falando em fragmentos. Na verdade, quase em 140 caracteres.
O treino em tuitar as informações (em pouco espaço disponível) tem sido tão intenso, que tenho feito clipping (termo jornalístico) dos meus próprios pensamentos. Com mais ênfase e menos formal, notei imediatamente que por passar tempo demais no twitter, tenho "garimpado" palavras-chave dos meus pensamentos para falar o que quero, porém numa conversa presencial, em que o tempo não acompanha o pensamento, pelas inúmeras distrações, ela se torna inviável.
Como é possível conversar em fragmentos no twitter e pessoalmente a conversa fragmentada se tornar tão confusa?
E antes mesmo de começar a usar o twitter compulsivamente, eu já falava em fragmentos, por tentar dar voz à tudo aquilo que se passa e passava na minha cabeça. Ou seja, uma total desordem que precisa ser ordenada pelo receptor da mensagem, já que ele não conhece a origem da informação.
Sempre tive lapsos de falar pedaços de assuntos e como a pessoa não entendia, eu me tocava que precisava explicar o resto, o contexto, pra mensagem ficar mais clara.
Com isto, usando compulsivamente o twitter há apenas 5 dias e timidamente há menos de 1 mês, tenho me apavorado com os efeitos que ele causa em mim e nas conversas que tenho imediatamete após seu uso.
Se já sou uma pessoa compulsiva, que fala rápido, que devaneia sobre vários assuntos e tem super concetração, ao mesmo tempo que dificuldade em se desconcentrar, significa que o twitter pode ser maléfico de alguma forma (?), a ponto que tenho dificuldade em não usá-lo?
É possível ser um novo vício? Como coca-cola, cerveja, chocolate e orgasmo?
É quase como encontrar um lugar de loucura. De falar sozinho (tipo escrever bom dia quando acorda, como se alguém fosse sempre responder!) e não se sentir maluco se ninguém responde e ao mesmo tempo achar que só porque uma pessoa não te responde, não quer dizer que não te leia ou que ignore tudo que vc fala. (as estatísticas do meu blog de cinema me revelaram isso com 1100 visualizações de uma matéria postada há apenas 3 meses! E meu blog não é popular, por isso acho o número alto!)
Na real, tenho achado tanto o facebok quanto o twitter o novo "falar no msn em grupo".
O problema é que nem sempre quero que todos os add participem da mesma conversa!

É uma suruba de conversas, todo mundo lendo e participando na conversa de todo mundo. E diferente do orkut, parece não haver "proteção" nenhuma (camisinha?). É o momento pós-humano bombando virtualmente!

E o mais engraçado é a quantidade de "cosquinhas-preciso-postar-isso" que vejo os outros sentirem, sem talvez me excluir desta.

É a quebra de privacidade absoluta, inclusive da privacidade de ser quem se é, pois revela, ainda que indiretamente, os gostos, interesses, desejos, traços de personalidade (agressivo, mal-humarado, revoltado, rebelde, sem causa, mentiroso, boçal, falso, malandro, fofoqueiro, fútil, superficial, culto, preocupado, simpático, egôcentrico, etc etc etc...), além de comprometer uma série de comportamentos e atitudes, às vezes incoerentes, já que o virtual é (quase) eterno - já diria a ex do Mark no filme "A rede social" de David Fincher.

Sei que já existe há algum tempo e talvez eu possa estar sendo repetitiva, mas o twitter me parece o coroamente chave de uma humanidade que se desprende cada vez mais do corpo e projeta sua vida, quase na íntegra, para o virtual!


Férias....

Ai ai...como as férias são boas....relaxar a mente, o corpo, os dedos...
Mas como é difícil voltar ao ritmo...
Num trabalhinho tranquilo de verão, ando adiando certas leituras...
A cabeça pipoca de ideias, mas nem sempre os dedos acompanham...
E tenho vontade de ler tanta coisa, quando tenho que ler determinadas coisas...
O lado bom dessas "férias" é pesquisar sobre mídia-educação...então até que há um lado bem produtivo de conhecer e usar o facebook, twitter e ter visto "A rede social" no cinema!