quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Tempo...

Depois de dias e semanas sem inspiração (ou tempo) para escrever, retorno com uma sede gigantesca do saber, após fazer leituras (na verdade, colocá-las em dia) para disciplina de Teorias da Educação.
Quem me dera que o tempo físico correspondesse ao tempo do pensamento, tão rapido, mas produtivo, diferente do físico, rápido, mas incapaz de aproveitar toda a vontade que reside em mim, de ler, escrever e refletir...
Após um dia inteiro de leituras e horas de escrita, estou esgotada, porém, espero ansiosa pelo dia seguinte, onde retomarei as leituras e pensamentos deixados de lado, enquanto o tempo me consumia em outras atividades, tão importantes quanto esta de pensar.

Em breve, coisas novas. Novas ideias, piadinhas, devaneios e textos.

A história da pedagogia moderna (e de como fiquei surpresa, e parcialmente esclarecida, sobre minha educação escolar)

Duas semanas depois da discussão do texto “Século XVI: O início da pedagogia moderna” do livro “História da Pedagogia” de Franco Cambi – texto que ainda não havia lido na ocasião – resolvi encarar hoje, tarde chuvosa de quinta-feira, 14 de outubro de 2010, uma longa leitura, embarcando numa viagem pela história da pedagogia moderna. Tarde esta, repleta de esclarecimentos acerca da minha vida escolar. Surtos de pensamentos “ahá! Agora eu entendi” seguidos de surtos maiores ainda de pensamentos e algumas palavras impulsivas em voz alta de “Agoooora eu entendi!!!!”, tornaram minha clareza intelectual ainda maior e mais ansiosa por novas leituras. Continuo acreditando que quem lê viaja e quanto mais leio, mais quero ler. Sede inalcançável do saber!

A mágica leitura começa com o título “Um século de grandes fermentações”, referindo-se ao Século XVI, marcado por profundas fermentações e contradições, segundo Cambi, nos mais diversos campos: social, político, religioso e cultural. Época marcada pelo individualismo, domínio da natureza, Estado moderno (territorial e burocrático), afirmação da burguesia, economia de mercado e capitalista, etc. Século onde o “velho e novo se defrontam” e onde a leitura dos “clássicos torna-se estímulo para uma criação nova, estética e não mais apenas imitação”. (aula de ECO me assombrando por aqui – não imitar, colocar seu EU no texto e blábláblá – como se eu não fizesse isso sempre e como se eu não sofresse imenso preconceito por parte de professores, colegas, amigos e afins, demonstrando uma atitude incoerente com a fala e/ou um discurso ainda não colocado em prática no convívio da academia. Ou estou muito errada ou estão muitos, muito errados! Vai saber!)

E como formigas que percorrem uma trilha segurando pedacinhos de folhas, Cambi nos “alimenta” (referindo-me à sede/fome do saber) com pedacinhos de teorias que ajudaram a construir a pedagogia moderna. Na transição do medieval para o renascimento, reside a radical transformação do homem, que antes pecador, submisso e “sujo”, passa a ser dono do próprio destino. Não quero aqui desmerecer os lembretes de Pessanha em seu texto “Humanismo e pintura” do livro Artepensamento de Adauto Novaes, onde alerta para os cuidados de não rotular como extremos medieval/renascimento, já que esta transformação ocorreu gradativamente, na medida em que a estrutura sócio-econômica européia se modificou e possibilitou ao homem à reflexão sobre a própria existência, colocando em debate as relações hierárquicas da época e pensamentos aristotélicos/tomistas sobre o lugar das coisas e do homem.

O homem não tem um lugar preciso na sociedade. Os “novos-ricos” também podem ascender socialmente, já que as atividades urbanas permitiram tal ascensão. O homem renascentista passou a reivindicar sua liberdade, seus valores e direitos. Reivindicou sua dignidade. O homem renascentista tem a capacidade de criar, inovar, descobrir, pensar, moldar o ambiente e os recursos disponíveis para própria sobrevivência. Ele é superior a todos os demais seres da natureza (veremos se isso é verdade, hãm!) E neste caso, sendo o conhecimento, possibilidade de poder, como já visto nas instituições religiosas, o homem renascentista reivindica este poder. O homem passa a ser considerado o “Deus na Terra”, capaz de intervir e agir nas forças da natureza. É capaz de mostrar a divindade da sua mente, por meio da linguagem e mostrar que recebeu dons divinos do intelecto e das mãos.

No renascimento retoma-se Platão e a importância das virtudes. Estudar, experimentar, pesquisar é enxergar a beleza do novo e do detalhe. O conhecimento aperfeiçoa e adorna o homem. Mas quando se fala em experiência, não é aquela corriqueira, do senso comum, mas controlada, instrumentalizada, como vista nas obras minuciosas de Leonardo Da Vinci, artista renascentista, que se preocupou em estudar a fisionomia humana para retratá-la da forma mais fiel possível., entre outros experimentos. Experiência como aprimoramento de uma técnica, de um saber, de observações, pesquisa e relações. Com as descobertas, surgiram dificuldades e com elas, as necessidades, que por sua vez, estimulam novas descobertas. E neste ritmo de exaltação humana e incentivo à pesquisa e à curiosidade, exaltou-se a ciência, a razão humana, e separou-se de vez a fé da razão e o divino do humano. E é nesta divisão que reside a dúvida, a capacidade de questionar e pensar sobre a própria existência. E com a dúvida, destroem-se verdades absolutas, tanto tempo ditas, mas completamente frágeis. E criam-se verdades possíveis.

Contagiada por Pessanha, retorno ao texto de Cambi, posterior à revelação humana do renascimento, de um novo humanismo. Diante do desenvolvimento do urbano, das ascensões sociais, dos questionamentos e valorização do homem, parece natural que a educação e pedagogia sofram profundas transformações. “O século XVI renova a educação religiosa e a formação do cristão, afastando-se tanto dos terrores e compromissos da Idade Média quanto do cristianismo neoplatônico do humanismo.” O individual começa a ganhar grande importância e a ética, estende-se entre indivíduo e sociedade. Este pensamento forma o homem moderno, posterior ao renascentista, que deve “formar-se, ao mesmo e sempre, por si e por outros”. Por isso, a pedagogia moderna caracteriza-se por mudanças nas técnicas educativas e escolares, criando um sistema de vigilância sobre o indivíduo, reprimindo-o e controlando-o. A escola moderna assume um papel instrutivo, planificado e controlado, racionalizando todos os seus processos e exercendo um papel social, civil e profissional. A escola moderna nasce com a Igreja no poder soberano do conhecimento, dando lugar ao Estado, que passa a carregar a responsabilidade da educação do homem.

A Reforma e a educação

Diante de um novo humanismo, ainda envolto no religioso, rompe-se também a hegemonia do cristianismo, através de Lutero, Calvino e outros adeptos de uma nova forma de pensar a religião. Se antes o trabalho era desvalorizado na tradição clássica e medieval, com o novo humanismo ganhou reconhecimento, e tornou-se potente estímulo à fundação do mundo moderno e o surgimento da civilização capitalista. Este novo homem, capaz de criar e pensar, poderia exercer individualmente reflexão entre sua fé e as Sagradas Escrituras. Durante a Reforma, privilegiou-se então a instrução dos grupos burgueses e populares com o fim de criar condições mínimas para uma leitura pessoal dos textos sagrados, por isso, essa necessidade da leitura e do saber passou a pautar os princípios da educação moderna, pois somente um homem instruído poderia dar continuidade à reflexão individual.

Para Lutero, a educação deveria apoiar-se no estudo das línguas para compreensão do Evangelho. Portanto a escola deveria ser organizada em quatro setores: línguas; obras literárias; ciências e artes; e jurisprudência e medicina. A freqüência escolar se limitaria a uma ou duas horas por dia e o tempo restante dedicado a trabalhar em casa e aprender um ofício. (coisa feita por nossos avós e porque não dizer, até hoje, como visto nas tardes ocupadas por aulas de artes marciais, culinária, artesanato, desenho, línguas estrangeiras, etc?) No centro da vida escolar está o mestre, que substitui a família, quando esta se mostra incapaz de desenvolver o próprio papel formativo em relação ao jovem. (Não estaria aqui um grande problema e possibilidade de argumentação para sustentar uma discussão sobre o descaso antigo/atual dos pais/famílias com seus filhos, jogando toda responsabilidade de educação dos seus filhos às escolas e aos professores, também pais/famílias, seres imperfeitos e incompletos como todos os outros??)

Além de Lutero, outros colaboradores como Melanchton, Calvino e Erasmo sugerem um modelo de educação semelhante, pensando na instituição da escola, instituída e financiada pelos administradores das cidades, como lugar para capacitar o homem a compreender o Evangelho, ainda que individualmente.

Melanchton defende a importância da instrução e da cultura antiga para penetrar a verdade das Escrituras. “Diz que a ignorância é a maior adversária da fé, por isso deveria ser combatida, mediante uma reforma radical das escolas e recuperação da autoridade cultural e moral dos educadores.” A função da escola é formar indivíduos cultos e conscientes através de uma instrução clássica e rigorosa, atribuindo às autoridades civis a tarefa de instituir e financiar as escolas e de nomear professores de boa cultura clássica.

Calvino também defendendo a salvação do homem através da Palavra divina contida nas Escrituras, acreditava na necessidade da freqüência escolar para todo representante da nova Igreja, apontando as línguas e ciências seculares como os instrumentos fundamentais da formação humana. Somente um homem instruído poderia administrar a cidade.

Erasmo, complementa a época da Reforma, afirmando a centralidade da educação e a necessidade de uma língua universal, tida como necessária para a comunicação e paz entre os povos. Também recomenda o estudo dos clássicos, das línguas antigas através da conversação, leitura e contato direto com textos, sempre associados à vida cotidiana e com várias disciplinas como teologia, agricultura, geografia e história. Ele acreditava que o cultivo da razão era essencial para a verdadeira humanidade e a tarefa de cultivar compete à educação. Recomenda que isto seja feito a partir da mais tenra idade para que os maus hábitos ainda não tenham se estabelecido no indivíduo, sempre respeitando as limitações físicas e temporais das características naturais de cada idade. A natureza – dotes físicos e mentais, o método – orientação e instrução e a prática – relação entre a natureza e o método, formariam os três principais fatores da educação, além da importância do mestre, que reconheceria as diferenças individuais os sujeitos e seguiria as modalidades de ensino mais oportunas. Erasmo ainda destaca a importância da preocupação dos pais com a educação dos seus filhos e a responsabilidade da comunidade em providenciar escolas eficientes, sendo uma função pública.

A proposta de Erasmo seria o sistema didático mais completo do humanismo europeu, ainda que ignore estudos não listados, mas apontando problemas mais gerais da pedagogia e soluções possíveis como atenção à infância, promoção da educação pública e formação dos educadores, assuntos contemporâneos e discussões inacabadas.

A pedagogia da Contra-reforma e as novas instituições educativas

Com a ruptura do cristianismo, operada por Lutero, diz Cambi, a Igreja Católica precisou renovar sua doutrina. O Concílio de Trento surgiu como proposta, mas é combatido pelo antigo espírito da Idade Média e pela filosofia aristotélica-tomista. A Contra-Reforma preocupou-se em propor “um modelo cultural e formativo tradicional em estreita conexão com o modelo político e social expresso pela classe dirigente”, dando vida a novas instituições de ensino, ligadas ao modelo colégio/internato. “O homem se redime do pecado não pela fé, mas também através de suas obras.”

O hábito e a obediência são indicados como meio e fim da educação e é neste patamar, de renúncia, que estaria melhor preparado o sujeito para a vida adulta. Foram alguns colaboradores deste pensamento, Antoniano, Ângela Merici, Zaccaria, São Jerônimo, Calazans, Néri e Loyola.

Para Antoniano, a educação moral era baseada no temor de Deus, no papel central da família, do pai, educação feminina e escolar. A educação para ele seria um meio de melhorar a sociedade cheia de corrupção e calamidades e na renúncia total dos questionamentos sobre a fé. (formar cidadãos submissos?) Ou ainda que existam questionamentos, que eles sejam controlados, organizados rigidamente, desvinculando-se ao caráter de liberação e exaltação do homem, proposto pelos mestres renascentistas.

Ângela Merici, única mulher destacada por Cambi e responsável por um modelo de educação, preocupava-se em educar moças, consolando “virgens aflitas, instruindo ignorantes, amparando as pobres, visitando enfermas e abraçando qualquer dificuldade”.

Zaccaria, interessado em lutar contra uma heresia coletiva, propôs um modelo rigoroso de formação de jovens religiosos, destacando-se a leitura, línguas antigas como latim e grego, história, matemática, além da dança, esgrima e música. (importância das artes).

Entre tantas contribuições, uma de extrema importância foi a de Néri, que além de afirmar semelhanças com os colaboradores anteriores, destacou o significado educativo das atividades físicas, lúdicas e teatrais a favor dos jovens de condição humilde, afastando-os dos perigos e riscos dos seus ambientes de procedência.

Na Contra-Reforma, a disciplina e obediência são as grandes virtudes para o homem cristão, e prioriza-se a submissão, a repetição, memorização, criando um problema enorme discutido atualmente: o grande problema de pensamento, construção da opinião crítica e capacidade de análise individual. Os sujeitos não aprendiam a pensar e colocar-se no mundo. (e ainda não aprendem! Como fazer? É uma pergunta que nos assombra!)

O Renascimento pedagógico na Europa

Num período caracterizado por “intelectuais empenhados numa dura luta contra a cultura tradicional e escolástica para a afirmação de uma concepção educativa de tipo fisiológico e literário”, surgem novas instituições para a formação e novas concepções pedagógicas, baseadas em intelectuais anteriores, como Erasmo (aquele da proposta mais completa, ainda que imperfeita).

Vives propõe um método indutivo como guia nos processos de ensino-aprendizagem, pois considera “o conhecimento, aquele que recebemos quando os sentidos são levados a observar as coisas corretamente e de maneira metódica, conduzindo a uma clara razão”.

Rabelais, também leitor de Erasmo, e autor de uma obra de ficção marcada pela ironia e sutileza da crítica “Gargantua”, propõe uma concepção da educação caracterizada pelos estudos dos clássicos, pelo jogo e pelas atividades físicas, e ainda pelas ciências naturais, medicina e Sagrada Escritura. A atividade educativa é articulado em atividade de estudo e de jogo, intimamente harmonizadas. Nesta educação, homens e mulheres se reúnem livremente sem qualquer obrigação, dedicando-se ao jogo, estudo, ao amor, e entre eles não haveria nenhum sequer que não soubesse ler, escrever, cantar, tocar e falar diversos idiomas.

Na base do pensamento de Rabelais, está Montaigne, que reside num meio termo entre fé e razão, homem e divino, medieval e renascimento, antecipando uma visão moderna da educação. Para ele, a educação deve preocupar-se com a capacidade de julgamento do indivíduo e do espírito crítico dos alunos, coisa ausente em muitos professores, criticado duramente por Montaigne. (problema encontrado hoje, talvez por desvalorização das artes e formação do professor)

Na educação deve residir a dúvida, o questionamento, a capacidade do aluno de ser curioso, de ter vontade de aprender e de se colocar diante das coisas e do mundo. Tudo que nos rodeia é válido para a reflexão. Montaigne valoriza as leituras, viagens, conversações, educação física, filosofias, que ensinam a viver, e histórias, que entram no mundo dos homens. E aqui mais uma vez, ressalta a importância da associação do conteúdo com a vida cotidiana.

O crescimento da Modernidade: educação e pedagogia

Antecipando uma maneira de pensar como vista em Montaigne, o século XVII sofreu profundas transformações e modificações acerca da identidade do homem, Estado moderno como estado absoluto, a nova ciência, economia capitalista e criação da sociedade e do sujeito moderno. Se ainda pouco, vimos concepções interessantes sobre educação, resgatando os clássicos, e propondo métodos, a Modernidade deu lugar a uma educação responsável pelo sujeito moderno, que priorizava o controle, o direcionamento para certos comportamentos e normas, assemelhando-se às concepções da Contra-Reforma, valorizando a disciplina, ordem, obediência e submissão. Diferente do caráter religioso, o poder não reside na Igreja, mas no Estado, e agora, o sujeito ainda que seja um “si” individual e consciente da própria existência e complexidade, é também um sujeito radicalmente governado pela sociedade e suas regras. A escola passa a ser responsável pela formação do homem civil, bem-educado e de boas maneiras.

Busca-se com isto, teorizar a educação e a pedagogia, e “Comenius propõe um modelo universal de educação, que veio mediar ciência, história e utopia sobre um pensamento rico de passado e carregado de futuro”. Cambi fala da necessidade da pedagogia ser reconhecida como ciência e autônoma da filosofia e teologia.

O estudo de uma língua universal é reforçado como importante recurso para o bom relacionamento entre os povos. E para isso, o ensino deve considerar as limitações naturais de cada fase de aprendizagem, repetindo o conhecimento de forma gradativa e aprofundada nas diferentes fases, delimitadas como fases elementares, médias e superiores. Sugere-se a associação das palavras às imagens e da importância de bons professores, cultos e sábios, considerando as capacidades de cada aluno e da gradativa construção do conhecimento que ocorre nos jovens.

Outra importância contribuição desta época, é a valorização das narrativas como preparação para a conversação. Inicia-se o uso das fábulas, contos de fadas, carregados de significados morais, gradativamente despertados na infância e já trabalhados na juventude e fase adulta.

O nascimento da escola moderna

Com a criação do método científico, a divisão dos conceitos de mente e pensamento, fé/divino e realidade natural, surge um modelo de educação preocupado com a aprendizagem intelectual ligada à formação da mente, que encontra na instituição da escola, regras disciplinares, práticas de ensino e programas bem estruturados e bem definidos. (perdeu-se aqui a importância das Artes?)

A escola, como sugerida por diversos intelectuais e colaboradores, passa a ser de responsabilidade do Estado, capaz de formar o homem-cidadão, o técnico e intelectual. (trocou-se o bom cidadão pelo bom cristão). Tem por função combater o analfabetismo e difundir os rudimentos da cultura (ler e calcular) e as classes são divididas por idade, mediante disciplinas e submetidas à prática de exames.

Diante das contribuições históricas e diferentes concepções educacionais, a escola se divide num sistema de 3 estruturas básicas: público-estatal; religioso-eclesiástica e privada.

A escola elementar inicia no sujeito, fazendo uso dos instrumentos básicos de elaboração cultural, o ensino do alfabeto e dos números; a escola média tem caráter profissional, talvez por isso, escolas técnicas substituam o atual ensino médio, e a superior instrui sobre conhecimentos específicos, profissões superiores ou liberais.

Há ainda a divisão do tempo em lições, didática, avaliação através do exame, livros de texto e construção do conhecimento partindo do simples para o complexo. Criam-se rituais na vida escolar, como as chamadas, registros, boletins, que permanecerão centrais em toda história da escola moderna, exercendo um papel disciplinar e formativo.

Com uma série de rituais e ferramentas de avaliação, a escola passa a ser responsável pela formação do homem civil, que necessita tornar-se bem-educado, adequando às regras de comportamento social, estilo de vida e usos corretos do corpo e das relações sociais. Com isto, criam-se rituais na própria vida social, não listado por Cambi, mas que saltam em minha mente com uma clareza gigantesca, como os rituais tradicionais sociais e religiosos da formatura, casamento, batismo, aniversários, enterros, posses e afins.

A escola passa a ser um lugar de socialização das regras sociais relativas à saudação, refeição, conversação, diversão, passeio e enfim diversos momentos da sociedade. (de corte e atual). A corte assume um lugar central de estilo de vida e de cultura que impõe modelos de comportamento e ideológicos, fazendo surgir a noção de status social. Surge a sociedade civil, vigiada, controlada e enquadrada como modelo a ser seguido.

E reforçando a importância do uso das narrativas de caráter educativo, valoriza-se o romance e o teatro, como forma de despertar o imaginário individual do sujeito, e toda sua complexidade, autonomia, contradições, fazendo-o refletir sobre si mesmo e sobre o mundo, ainda que continuamente controlado pelo Estado.

Adorno e Becker comentam sobre este assunto paradoxal de liberdade de pensamento e controle de ações, de forma indireta, quando debatem sobre a emancipação do sujeito, como forma de libertar-se da menoridade, conceituada por Kant, como um estado “auto-inculpável, de falta de entendimento, decisão e coragem de servir-se sem a orientação de outrem”. É possível de fato se emancipar? Ser livre, seguindo as próprias determinações, desordenando o ordenado? É possível não ser influenciado pela sociedade nas escolhas, decisões e comportamentos, tão impregnados de padrões e modelos?

Os dois autores recomendam a rebeldia. Que a rebeldia permaneça, ainda que seja minoria e combatida num lugar onde é extremamente importante, como as Universidades.

Finalizando o texto de Cambi, surge Locke, fundador do empirismo, que seria o pensamento crítico que pretende submeter toda afirmação à prova de experiência, sem desconsiderar a necessária relação existe entre a instrução proveniente do mundo externo e o desenvolvimento interno da mente e das suas funções intelectuais. (Ciências humanas?)

Locke era contra o autoritarismo e as punições corporais como métodos educativos, exaltando os princípios da liberdade e da autonomia dos educandos. O verdadeiro gentleman seria o “homem capaz de renunciar aos próprios desejos e seguir unicamente aquilo que a razão lhe indica como melhor, mesmo que os apetites o dirijam para outro lado”. Talvez a capacidade de fazer a melhor escolha, próxima à humanidade, dentre as possíveis?

Ainda que isto não seja visto na nossa realidade da forma que deveria e poderia ser, Locke acredita que educar bem os próprios filhos é dever e preocupação dos pais, e o bem-estar e prosperidade da nação dependem disso. É função da educação, que ocorre nas instituições da família, escola e trabalho, “formar homens virtuosos, úteis, capazes de bem desempenhar tarefas a que se dedicarão.”

Para finalizar, Locke acredita num “estado feliz do mundo”; raciocinar com as crianças como meio de ensino; formação prático-pedagógica em relação à intelectual e da utilidade das disciplinas ao ensinar os jovens; centralidade da experiência que desenvolve a natural curiosidade das crianças e jovens, amadurecendo seus interesses e afirmando-se através do jogo e trabalho. Ele também ressalta sobre a importância da educação do corpo, também libertando-o das delicadezas da época, e da alimentação comum e simples em refeições regulares. E quanto à educação do caráter e da mente, ressalta que os ensinamentos devem acontecer através do exercício, hábito e raciocínio, diferente da imposição das regras. E por fim, sobre a educação moral, aquela que desenvolve virtudes, deve o professor, preceptor, ser o exemplo prático, para que através da observação da criança, possa ser seguido como modelo de respeito, sujeito consciente das leis, de coragem, compaixão e oposição à mentira.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Barthes...

Terça-feira nublada. Tarde de Barthes.
Corpo presente, mente ausente.
Não sei ao certo aonde estou.
Nem aqui ou ali, só não estou.
A mesma fala monótona.
O mesmo silêncio de sempre.
Quando não falo, pouco me envolvo.
Quando me privo, sinto vazio.
Sem experimentar ou falar-escrever, não leio.
Sem experiência sensível: silêncio!
Barthes querido, me desculpe, mas cansei de você. Hoje. Talvez só hoje.
Às vezes não sei te ler.
Inundas minha mente constantemente.
Vejo você em tudo e tudo em você.
Caso de amor, autor-leitor.
Mas ainda assim, cansei de você. (só um pouco talvez)
Enquanto vejo portas pra entrar, escolho nenhuma e todas.
Sinto-me cobrada e também abandonada.
Ó paixão incômoda, convicção insuportável de ser.
Quero ser assim e ponto.
Quando não quero: tento, mudo.
mas quando quero, outros não querem.
Sempre há aquele que sugere o que não quero ser.
Inclusive ouço como não devo ser.
Mas sou. Não só quero, mas sou e ponto.
Talvez crucificada, eu serei. Uma herege talvez.
Talvez depois da morte, reconhecimento...ou não.

Sejamos egoístas! (arrogantes e impulsivos)

Lição de hoje: Não seja arrogante, egoísta e impulsiva!

Mas se arrogância for acreditar nas próprias convicções. Eu prefiro.
Se egoísta eu for pelo conhecimento, sede do saber, pelo ouvir, falar, trocar. Eu prefiro ser.
Se impulsiva eu for com as emoções, toque, fala, relações.
Ser aquela que oferece a conversa e convida para a amizade.
Que troca e não tem medo de trocar. Eu prefiro sim.
Se não sou aquela que reprime, porque sou reprimida?
Se ouço que não devo julgar, porque sou julgada?
Não reprimir. Deveria ser um mandamento.
Julgar? Inevitável.
Prefiro deixar o outro ser o que quiser ser, desde que não me afete.
Não me intrometo. No máximo, contribuição, sugestão, opinião.
Não sou dona da verdade, nem ninguém.
Não há coisa mais inconveniente que uma crítica não solicitada.
Mas sei eu se não faço isso?
Se alguém me envergonha, aceito, aturo.
Se alguém é diferente, tento, lido.
Se alguém me "punctua", aproveito.
E já dizia o "ditado": Cada um no seu quadrado! (círculo, hexágono, triângulo, ...)

Devaneios de aula

Distância das coisas. Reflexão da reflexão.
Ser for assim, essa não sou.
Ao invés da distância, proximidade, paixão.
Nervos à flor da pele. raiva. explosão.
Emocional aflorado. Se antes defeito, qualidade.
Se antes qualidade, defeito. Não há consenso.
Vejo o silêncio como quem consente, acomoda, conforma.
Eu prefiro não.
Prefiro não me acomodar, calar, consentir.
Às vezes prefiro não dizer, gritar, expressar.
Se antes certeza, agora insegurança.
As palavras correm antes que cheguem aos lábios.
Maratona de significados. Soltos, incertos, inseguros.
Viver é lutar e viver esmaga. Desvaloriza. Derruba. Assassina.
Um dia após o outro. levantar, cair e levantar.
Alguns dias no chão, outros de pé.
Mas necessário. Sinto-me um mal necessário.
Provocadora. Coringa. Incendiária.
Aquela que é aprisionada no final da confusão.
Aquela sozinha, solitária, isolada.
Mas viva. Intensa. Completa incompleta.
Aquela que grita diante da multidão calada.
Ainda prefiro ser.
Porque sendo, sinto. Melhor que o silêncio, o vazio, o nada.
Melhor ser algo.
Prefiro a marca, a cicatriz, o rasgo.
Prefiro as rugas mapeando a face, marcando o tempo.
Não que não me apavore, mas aceito.
Não que eu não resista, mas tento.
Não que eu não deseje o contrário, mas entendo.
Adrenalida de face rosada. Voz exaltada.
Vontade de agredir, ferir, chutar, gritar, chacoalhar.
Instinto pulsando na veia.
Não quer vir junto, fica. Fica!
Como o tempo, não espero. Sigo sozinha.
Antes só do que mal acompanhada, mas quando só, tristeza.
Busca incansável por um lugar, um ideal.
Tormento sem perspectiva.
Chama de fé. Quente, reluzente e forte.
Adredito em algo. Sigo cegamente. Preciso.
Determinada, permito impulsos e vontades.
Mal necessário. Sinto-me mal necessário.
O tempo todo, constantemente.
Em raros momentos, um grande e largo sorriso se acende!

III Seminário de Pesquisa em Mídia-Educação

Quando se tem como formação o cinema e quando se faz um mestrado em educação, voltado para o cinema, o que se espera de um evento em mídia-educação, é a presença das mídias.

Auditório da Educação Física, abertura lotada de interessados, telão, vinheta, apresentação musical. Falas engajadas, amadas, odiadas, mas sábias.

Segundo alguns, a "nata" da pesquisa em mídia-educação estava presente, porém como participante-assistente, esperava mais.

Mais mídia.
Mais imagem.
Mais demonstração que fala.
Mais domínio que discurso.

Aquela estrutura de sempre se manteve: palestrantes atrás de uma mesa/cadeira, alguns slides no powerpoint, letra preta em fundo branco, e longas considerações.

De uma abertura cheia, nem metade permaneceu de tarde e igual ou menos, no dia seguinte.
Dois dias, uma proposta interessante, uma tal "nata" presente que não foi ruim, mas podia ser melhor, devia ser melhor.

Acredito que a transformação em mídia-educação (educação para, com e sobre os meios) só poderia ocorrer quando aquele que se propõe a pesquisar for exemplo e deixar de apenas citar exemplos.

Enquanto houver professores que apenas falam como fazer, os alunos continuarão apenas falando como fazer e o "fazer" deixará de ser uma prática para existir só na fala.

Sei que foi escolha de alguns não fazer uso de mídias, mas ainda assim, devia fazer.

O que teria Montaigne a ver com educação?

Livro: Introdução à Filosofia da Educação - Temas Contemporâneos e História

Síntese-Ensaio do texto:

FILOSOFIA, EDUCAÇÃO DAS CRIANÇAS E PAPEL DO PRECEPTOR EM MONTAIGNE

de Divino José Da Silva

Montaigne e seu tempo

Montaigne viveu durante a época do Renascimento (séc. XVI), período em que o homem desenvolveu uma nova percepção sobre a relação com o mundo e com os outros homens, e começa a atribuir a si mesmo a responsabilidade pela condução do destino. (preocupação com a formação do ser/o homem faz seu próprio destino/valorização da experiência sensível)

No lugar da certeza, a dúvida

Nessa busca pela formação do ser, percebeu-se que o homem é a chave para decifrar o mundo e as coisas. Percebeu-se que não há verdade absoluta e que o homem não sabe tudo, muito menos é o centro de tudo. E é na fragilidade de saberes constituídos em nome da verdade, que Montaigne apresenta contradições.

Mais uma vez, prevalece o discurso de que o homem “lê” o mundo a partir de sua experiência sensível. (Roland Barthes em “A morte do autor”) E nessa leitura ele coloca suas duas naturezas fundamentais: racional e irracional; consciência e inconsciência; bom e mau; divino e ciência, e é no conflito entre as duas que reside o equilíbrio. Montaigne diz que os impulsos influenciam na forma de ser (ética, moral, valores, cultura, etc), portanto cada pessoa interpreta/processa/percebe de forma diferente das outras.

Diante desta reflexão de que cada pessoa decifra o mundo e as coisas a partir de sua experiência sensível, Montaigne sugere que se desfrute de tudo sem necessariamente se submeter. Sugere conhecer, experimentar, investigar, não apenas imitar, mas buscar nas experiências, renovação eclética, política e moral. Que cada pessoa possa julgar as coisas e o mundo da sua maneira e o papel do preceptor (professor/educador) é justamente disponibilizar as ferramentas para esse fim.

Ensaiar a vida talvez. O autor diz que Montaigne foi o primeiro a usar a palavra “ensaio” para designar um estilo literário. Escrita que representa um modo de pensar a relação entre o “eu” e o mundo. Pode significar experiências, “jogo da imaginação e da inteligência”, “passeio fácil entre idéias e recordações”, “tentativas apenas esboçadas”, “um exercício de escrita, rascunho, algo não-definitivo”, talvez a própria significação de viver, sempre instável, montanha russa de emoções, entre altos e baixos, trajetória sempre inacabada. Ensaiar é interrogar o presente, expor a desconfiança, duvidar dos sentidos, idéias e verdades. Tudo é questionável!

A educação das crianças e o papel do preceptor em Montaigne

Sem certezas, como falar de educação? Tarefa difícil considera Montaigne, afinal se cada indivíduo constrói sua verdade e visão de mundo, como lecionar? Como direcionar o olhar?

Para Montaigne, a criança não deve ser submetida a decorar e memorizar, mas experimentar. O verdadeiro aprendizado está em fazer o aluno despertar o olhar, aguçar os sentidos, exercitar a capacidade de julgar, refletir, analisar com os próprios olhos. (talvez aqui resida o lugar da disciplina de Artes, responsável pelo despertar do olhar crítico, que observa, julga, analisa e reproduz. Que decodifica, desconstrói, reconstrói, reproduz releituras).

O papel do professor/educador é estimular o aluno a elaborar a consciência de si mesmo diante do mundo. Talvez ensinar a filosofar, refletir. (é possível?) Colocar um pouco de si mesmo no “outro”, nas coisas, no mundo, e nessa mistura, apresentar um novo olhar, uma nova forma de pensar, sem buscar uma verdade absoluta, talvez apenas buscar, apenas tentar, procurar, investigar, afastar/aproximar.

Ainda que o professor possa estimular o despertar do olhar, para Montaigne cada criança é diferente uma da outra, portanto não pode haver apenas uma maneira de ensinar, não há uma lição que possa ser aplicada da mesma forma para todos.

A educação (ideal talvez) necessita de flexibilidade, pois não é o conteúdo o que mais importa, mas o processo de construção do aprendizado, o despertar do olhar, o percurso do saber. (e às vezes esse saber demanda tempo, maturidade, processamento, associação, experimentação...)