quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O papel do mestre e do ensino em Agostinho e Tomás de Aquino – regar a semente

(sobre textos já lidos, para próxima aula de Teorias da Educação - 15/09/10)

Livro: "Introdução à Filosofia da Educação - Temas contemporâneos e História" - vários autores - organizado por Pedro Angelo Pagni e Divino José da Silva - R$41,00 em 3x (porque "mestrar" custa caro e livro é pra sempre!)

Texto: Parte 2 - "A filosofia, o papel do mestre e a educação humana: Retrato do pensamento medieval e renascentista"

Capítulo 4: "Sobre o papel do mestre e do ensino em Agostinho e Tomás de Aquino" por Marcos Roberto Leite da Silva

Detalhe: grifos com caneta fluorescente azul e asteriscos nas partes importantes.

Vou falar das partes importantes. (ou dos asteriscos)

Segundo Silva, "os autores foram escolhidos pelo critério de importância nos respectivos momentos históricos." Agostinho, por fazer parte da era Medieval, com o intuito de estender o cristianismo. E Tomás, num período de efervescência intelectual, no intuito de pacificar a inquietação juvenil. (tocada por novos conhecimentos, diante da cristandade). O nascimento da escola? Talvez.

Agostinho então pretendia evangelizar a sociedade. Pretendia conciliar fé e razão, sem associar o aprendizado à violência, coisa que foi submetido a fazer em sua juventude. Aparentemente contrário aos castigos e crueldades impostas para aprender o grego e suas fábulas, Agostinho via nas palavras em latim das amas (escravas?) o verdadeiro aprendizado. Não porque não era obrigado, mas porque dispunha sem pressão aos ouvidos, tais palavras e assim, depositava suas próprias impressões. Aqui, reside a reflexão pessoal? Depósito de repertório único? Escolha do caminho?


"Nesse ambiente, diz Silva, pensar o conhecimento é pensar um despertar humanizador das verdades divinas aos quais todo homem pode aceder. A alma do homem é o verbo e Deus é a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo", portanto assim como em Platão, aprender é recordar, mas não a partir do mundo das ideias, e sim do despertar do intelecto para os conteúdos da iluminação divina. Despertar o saber. Então, assim como Deus, que se comunica com as palavras certas, deve o educador discernir a palavra adequada. Deve despertar o saber no aprendiz, no aluno. (de novo, promover a reflexão?) Mas saber que reside no bom e no belo, portanto na verdade.


O educador deve conhecer seu alcance e sua estrutura para optar pela palavra em sua ação educativa. O educador deve deixar vir?


Entre tantos asteriscos azuis grifados no texto, recortes soltos - como letras aleatórias em sopa de letrinhas - se unem e ganham novo sentido num novo contexto. Estava eu aqui citando, recortando o texto e minha escrita preferiu soltar-se. Citando Agostinho só consigo pensar em questões atuais e como sua visão sobre educação, é atual, ainda que voltada para o cristianismo. O autor vê isso e eu também vejo.


Passagens como "é interiormente que o conhecimento se processa" só reforça a ideia de semear o conhecimento no aluno. Não plantar, mas semear. Não abrir um buraco e jogar uma planta pronta, virtuosa, do nosso jardim docente, mas depositar uma sementinha e regar, esperando, torcendo para que ela floresça. O esforço é maior. Regar, proteger do vento, do sol, das pragas. Ter paciência, fé, esperança. É frustrante, mas é possível.


Agostinho defende a paixão do educador, a pouca fala, a melhoria da exposição, a centralidade do e no aluno, a formação do educador, o material a ser usado e o lado sensível, associado ao bom e belo de Platão, mas principalmente ao lado onde reside Deus, o cristianismo, a fé. E somente semeado, o saber é despertado. Tendo conhecimento, a vida humana torna-se virtuosa, boa e bela. Pois a iluminação divina se dá no intelecto. Aqui vale questionar, o conhecimento é sempre bom e belo?


O conhecimento não dá poder? Não é com ele que os fortes oprimem os fracos? Não é na ignorância que os povos são manipulados e controlados? O grande problema da sociedade não é a falta de uma educação de qualidade?


Estes questionamentos fazem-me pensar em como as reflexões, colocações de Agostinho, na visão de Silva, reforçam o papel do educador de semear. De fato, o conhecimento ilumina, mas é de fato onde reside somente o bom e o belo?


Se todos tivessem o mesmo nível de conhecimento, talvez não existisse a injustiça. Pois não existiria minoria e nem maioria. Se todos se unissem para lutar pelos seus direitos, fizessem uso das armas e técnicas, depusessem um governante mal intencionado, talvez não existisse injustiça. Mas sem injustiça não haveria revolta, pois a injustiça ocorreria com o governante mal intencionado, que já não poderia existir se todos tivessem o mesmo nível de conhecimento.


O nível de conhecimento estaria então associado à idade? O bom e belo seria adquirido com o passar dos anos como aprendiz? É bom e belo o mais velho? O educador?


Parece mais complicado analisar dessa forma. Surgem mais perguntas que respostas. Que bom então. Parece-me então que o papel do educador é contínuo. Semear. Não plantar. Sem começo, nem fim. Apenas meio. Onde habita o amor, palavra que une aquilo que é divino ao que é humano.


Diante da minha inquietação, trago reflexões sobre Santo Tomás, pois foi na inquietação juvenil de sua época, que se reconheceu a necessidade de critérios mais racionais para se aceitar a fé. Pode o homem ensinar e ser mestre, ou só Deus? Pode alguém ser chamado “o seu próprio mestre”? Pode o homem ser ensinado pelo anjo? É ensinar função da vida ativa ou da contemplativa?


Na visão de Silva, São Tomás associa o conhecimento intelectual à experiência sensível. O conhecimento está fora de nós e não dentro. Ou seja, não precisa ser despertado. E sim, percebido. Ou seja, é o intelecto que deve ser despertado, o lado sensível, para perceber o conhecimento que está disponível. A experiência produz o conhecimento. Seria dever do mestre, do educador, estimular potencialidades no aprendiz por própria vontade e empenho. Pois todo homem, pode desenvolver, por si mesmo, suas potências. Aqui vale comentar sobre as experiências práticas de Artes na escola. Não é porque o aluno não é estimulado a desenhar que não possa desenvolver individualmente essa habilidade. São vários os casos de crianças que se tornam habilidosos adultos desenhistas, por vontade própria, sem ter tido qualquer estímulo na escola. Mas quando feito na escola, é ainda melhor. Ou alcança uma fatia maior de jovens criativos.


Cabe colocar, segundo Silva, “que o homem não pode ensinar de modo perfeito a si próprio, mas possui excelentes meio de aprender, com o auxílio dos mestres”. Como é o caso dos adultos habilidosos desenhistas que citei anteriormente, que procuram em outros meios, aprimorar técnicas de desenhos, quando não estimuladas nas escolas. Fazendo cursos paralelos, observando técnicas diferentes, cursando faculdades de formação específica e encontrando em outros meios, mestres. “O homem não pode ensinar a si próprio, mas é aluno eficiente, capaz de conhecer.” Dito isto, parece realmente possível o homem ensinar, ser mestre e ser seu próprio mestre.


O homem teria então uma potencialidade ativa para conhecer, derivada de uma unidade do ser. O ser é também pensar e querer. Não é estático, mas autopresença. Aprender então é uma atividade própria do ser. Atividade peculiar do aluno. “O professor é alguém que aproxima ou desperta, no aprendiz, o interesse, enquanto o ajuda por experiência a evitar os desvios de uma ciência menos perfeita”. O aluno é o ser ativo, centro do sistema educativo. Não bastam palavras, é necessário sentido a partir da experiência pessoal. O aluno precisa se interessar e experimentar para aprender.


Ao meu ver, o encontro entre Agostinho e São Tomás não é contraditório, mas complementar. Para um, o conhecimento é interior, e cabe ao mestre despertar este conhecimento no aluno, por vontade própria, considerando suas condições particulares e individuais (estaria aqui a diferença entre os seres e a impossibilidade da justiça absoluta?). E para o outro, o conhecimento é despertado de forma ativa pelo aluno. Ele participa do processo de ensino-aprendizagem, e também cabe ao professor orientar, conduzir, despertar as habilidades e potencialidades do aluno para o saber, para o conhecimento. A palavra não é suficiente, é necessário vivenciar, experimentar.

Encontrinhos de corredor

Como assim?
Como assim encontrinhos de corredor?
Tudo assim.
Não há melhor ocasião para o diálogo e a troca, como os encontrinhos de corredor.
Dividir frustrações sobre o texto que não se entendeu.
(deveria ter entendido? assim de primeira?)
Perguntar sobre a tarefa da aula tal.
Comentar sobre a aula de fulano. Quais os próximos textos?
Discutir um conceito que não se discutiu na sala.
Citar informalmente outros autores.
Falar da experiência docente.
Questionar datas, regras, regimentos e posturas.
Conversar de tudo um pouco.
Quebrar o gelo.
Enfim...não há melhor ocasião para o diálogo e a troca, como os encontrinhos de corredor.
Melhor forma de se aproximar dos colegas, mesmo os mais solitários, como eu.
Melhor maneira de pontuar um texto, antes mesmo da aula começar, e sentir mais segurança nas colocações que pretende fazer em sala, afinal - como nas comunidades do orkut - alguém também pensa (ou não pensa) como você.
(falei das comunidades do orkut porque eu achava que só eu via o coelhinho na lua! que ingênua!)
Melhor ocasião para conhecer alguém melhor, perguntar um pouco sobre a vida, dividir as frustrações comuns do mestrado, falar da bolsa, dos gastos, prazos, sonhos, projetos, experiências.
Encontrinhos de corredor deveriam estar no currículo, como carga horária obrigatória. Não?
Deveriam ser validados pra alguma coisa então.
São tão úteis, mesmo em suas aparentes inutilidades.
Tão cativantes e comuns. São obrigatórios.

Você! (estou supondo um leitor)
...que nunca teve um encontrinho de corredor, tenha-o!
É fácil! Chegue um pouco antes da aula, fique por perto da sala, do prédio, dos colegas e puxe assunto. Teça um comentário. Tire uma dúvida. Comente sobre o tempo. Faça alguma coisa!
E assim, você terá um essencial e necessário, encontrinho de corredor.

Ansiedade e medo

Prometi que escreveria este post. Prometi a mim.
Talvez já tenha caducado, mas vale a pena recordar.
Do que se trata?
Trata-se da divulgação do blog para os colegas e professores do mestrado.
Na semana passada, claro.
Primeiro...medo.
Aquele medo onde reside a coragem, porque coragem não existe sem medo.
Coragem é enfrentar o medo.
Neste caso, medo da rejeição, do pensamento contrário, do retorno das minhas ideias tolas (ou não tão tolas), dos fantasmas da escrita.
Criei o blog para mim, para praticar minha escrita, mas mentiria se também não tivesse criado para uma possível divulgação.
Criei na ânsia de dar vida aos meus pensamentos, através das palavras, já que nem sempre tenho ouvidos disponíveis. Pensamentos sobre tudo. Dedos frenéticos teclando na minha mente.
Escrever no blog é como falar em voz alta.
É como ter ouvidos sempre disponíveis. Mesmo que esses ouvidos não falem. Não retornem.
É como ordenar os pensamentos desordenados e refletir sobre.
É libertador e exercita a escrita. Ajuda na articulação.
Enfim, é ótimo e foi a melhor saída que poderia ter pensado para minha ânsia de falar/escrever.
Se em 2006, quando criei meu primeiro blog sobre cinema, esperava ansiosa por retorno, hoje eles nem me importam mais. É o que menos importa! (não que não importe)
Enxerguei novo sentido para a frase "Não deixe nada para depois, não deixe o tempo passar", (Pitty) citação musical que coloquei no fim do blog de cinema.
Eu realmente não deixei.
Não deixei que os menosprezos da graduação aos meus textos me intimidassem, ou que o fato de não haver coments, também.
Não esperei, não lamentei, segui adiante.
No lugar da ansiedade e do medo: segurança, liberdade, determinação.
Não há uma meta. Só um caminho. O caminho da escrita.
Então, após duas semanas deste blog, no qual escrevo, resolvi divulgar. Abertamente.
Para os professores, para sala, colegas, amigos, para estranhos curiosos (que ouvem conversinhas de corredor e se interessam pelo blog). Para quem interessado estiver.
E tive retornos. Bons. Deixaram-me contente.
Alguém viaja na maionese como eu! EeeeeEeeee
Mas quando vierem os retornos ruins, não desanimarei, tentarei estar preparada.
Errar é a melhor oportunidade de aprendizado. Então, que venham os erros também!
A sede continua. A inspiração também.
Que venham todos, dividir suas loucurinhas comigo! =)
Estarei sempre disponível!

Proibido para menores

por Alessandra Collaço da Silva


Quando vejo classificação/recomendação por faixa etária em algum filme, sempre me pergunto o que levou tal comissão, equipe e/ou responsável a determinar o que no conteúdo é impróprio para determinada faixa etária. Porque filmes como “Cidade de Deus” de Fernando Meirelles (2003), recomendado para maiores de 16 anos e “Tropa de elite” de José Padilha (2008), recomendado para maiores de 18 anos, tão assistidos pelos meus alunos de 12 e 13 anos, não são adequados, mas mesmo assim, ícones e referências, em suas produções audiovisuais. (eles adoram dizer: “perdeu playboy!”)


Em certa ocasião na escola, em uma semana de planejamento (comum nas férias escolares) deparei-me com um texto de Gardner que caracterizava o início do pensamento abstrato, por volta dos 12 anos. Ou seja, início de um pensamento que não se dá apenas na superfície, mas que começa a entender a subjetividade de conteúdos apresentados, talvez até entenda melhor sobre ironia, humor negro, sarcasmo, e que a violência dos filmes não está ali por si só (ou está?), mas para representar a construção de sujeito, de sociedade, de valores distorcidos, mas nem por isso valores que devam ser usados como referência.


Ao unir minha reflexão sobre recomendação para determinada faixa etária, com o pensamento abstrato que se inicia a partir dos 12 anos, segundo Gardner e o fato de que cada “leitor” do mundo coloca na sua leitura, o próprio repertório (escritura que destrói a origem), diria o mestre Barthes, deparei-me com um problema real: qual é o problema real? Classificar o filme não impede que este aluno, ainda sem a tal formação crítica, com seus 12 e 13 anos, tenha acesso ao conteúdo, tido como impróprio. E diante de uma era digital, jovens equipados das mais variadas mídias, principalmente as móveis, como celular e internet, têm acesso ao que bem entendem, se não no cinema ou na vídeolocadora, acessam pelo youtube ou na casa dos amigos. Essa constatação (se pode ser considerada constatação) me leva a crer que classificar o filme não tem uma utilidade muito clara, a não ser para os pais e educadores, que “maduros” e “sábios” sabem que tal filme não é adequado. Mas isso não significa muito para os jovens, pois se para mim, jovem recém formada, com pouca experiência docente, não era claro o que determinava a faixa etária, imagina para eles, imaturos pela própria imaturidade da idade.


E o pensamento abstrato? Tudo bem que eles talvez ainda não o possuam (como ter certeza de algo a essa altura?), mas não significa que não sejam capazes de reproduzir a leitura, ainda que superficial, que fazem dos filmes, vídeos, experimentos audiovisuais e afins. Então talvez o problema não deva “morar” no conteúdo impróprio, afinal alguma leitura eles irão fazer, pois sempre a fazem, mas sim na representação, na projeção, na reflexão (se é que ela acontece). Talvez o problema esteja no como. Como eles lêem?


Nesse caso, como professora de cinema, (aquela que ensina as técnicas de realização de um audiovisual, desde a ideia até a edição), sinto que devo deixar vir o repertório. Deixar vir as construções violentas, as distorções de valores, as tramas superficiais e personagens incoerentes. Deixar vir para então, talvez agir. Questionar e provocar esse aluno sobre sua proposta e sua construção em vídeo. Confrontá-lo, esperando argumentos (se é que isso é possível). Testar seu repertório. Porque é inútil querer controlar o conteúdo ou forçá-los a fazer filmes com mensagens positivas, moral da história e reflexões de adultos. (tipo: salve o planeta, proteja os animais, recicle) Isso é fingir que se ensina algo, pois a construção não veio de dentro. Se o que eles querem é construir a violência, é ali a melhor oportunidade de mediar o conhecimento, o pensamento. A reflexão tem que vir de dentro, ela não vem no livro, ou num exercício tolo, ou muito menos é plantada. Ela deve ser semeada e ganhar vida própria, como qualquer idéia que germina e contamina o pensamento ferozmente. A ideia deve partir deles e esse é provavelmente o maior desafio para o professor. E o maior problema ao lidar com mídia hoje. Como? Como fazer? Como usar essa leitura, muitas vezes distorcida, e promover a reflexão? Como instigá-los, provocá-los, semeá-los? Deixando vir?


Não defendo aqui a liberdade, mas a valorizo, pois todo leitor é livre dentro de sua prisão de repertórios. Prisão pela idade, pela oferta, pela procura, pelo conteúdo limitado e ilimitado, pela imaturidade, pensamento concreto, abstrato, pelo que nos define e não define. Prisão pelo conhecimento, que não é espontâneo (nos procura ou é procurado). Liberdade pela escolha, onde residem ideias, interpretações, distorções, expressões.


Os caminhos são muitos. Por isso, cabe ao professor, ao mediador, ao educador, deixar vir, para então, talvez, agir.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Próximos posts

Os dedos coçam para escrever, mas o tempo é fundamental para a escrita, portanto para não esquecer de coisas que quero escrever, coloco aqui assuntos que tratarei em breve:

Prontos na cabeça:

-Encontrinhos de corredor (sobre encontros de corredor - haha) OK
-O ensinar para Tomás e Agostinho (sobre textos já lidos, para próxima aula de Teorias da Educação) OK
-Fazer ciência e/ou intervenção política? (sobre última aula de Sem. Dis. ECO) OK*
-Referências no texto (sobre citações no texto e na fala) OK
-Ansiedade e medo (sobre expectativas e retornos dos colegas, amigos e afins sobre o blog) OK

Propostas futuras:

-O exercício de Gilka (falar da experiência prática do exercício que Gilka propõe em texto lido na aula de ECO, sobre escrita contínua/rascunho - que ainda não fiz - em três perguntas)
-Mitologias (livro - que ainda não li - para aula do Barthes) OK

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O médico e o monstro - bom x mau?

Aproveito minha reflexão sobre o filme "O Médico e o Monstro" de Rouben Mamoulian (1931), feita para o meu blog de cinema (www.allycenourinha.blogspot.com) e adapto quase na íntegra aqui neste blog, pois foi inevitável nesta escrita, não fazer relação com os textos que estamos vendo na aula de Teorias da Educação sobre Platão e seus conceitos sobre justiça, amor, medida e afins.


"O Médico e o Monstro" de Rouben Mamoulian (1931), é uma entre várias versões adaptadas para o cinema, do livro (título original em inglês: The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde) de Robert Louis Stevenson , publicado em 1886.

Cito uma passagem que extraí de um site, sobre o livro, para fazer o gancho com o filme:

"A história de Stevenson baseou-se na vida dupla de um habitante de Edimburgo, na Escócia, chamado William Brodie: de dia ele era um respeitado marceneiro; à noite, roubava as casas dos moradores da cidade.
A história se passa em Londres, no final do século XIX, centro urbano com quatro milhões de habitantes. Devido ao grande contraste econômico entre os industriais (cada vez mais ricos) e os miseráveis (cada vez com menos oportunidades de emprego e vida digna), Londres passou a ser palco de inúmeros crimes horríveis. Justamente por isso, em 1829, foi criada a Scotland Yard, que se tornaria mais tarde reconhecida por sua eficiência em resolver crimes e por tomar parte das inúmeras páginas das histórias policiais inglesas."
(Disponível em: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/o/o_medico_e_o_monstro

O filme de Rouben Mamoulian, é protagonizado pelo ator Fredric Marcha, que vive o personagem com dupla personalidade, Dr. Henry L. Jekyll - o médico e Mr. Hyde - o monstro.
Diante do progresso de Londres, o médico, noivo de uma bela dama, dialoga com seu amigo advogado, Dr Lanyon, sobre a possibilidade do homem possuir duas personalidades, uma boa e uma má. Por ser agente da ciência, Dr. Jekyll acredita ser possível extrair do homem, tudo que existe de ruim e assim, permanecer só o que é bom, como se um não dependesse do outro. Ele acredita na possibilidade, defendendo-se como um curioso, como o curioso e insatisfeito cientista que criou a lâmpada e colaborou para o progresso (que ele cita no filme), evitando deixar Londres às escuras ou dependente de mecanismos primitivos e limitados. Dr. Jekyll acredita nos sacríficios a favor da ciência, do progresso. (retrata esse pensamento ao deixar uma carta para a noiva, caso sua experiência científica dê errado).
Em vários percursos do filme, Dr. Jekyll confronta o amigo, promovendo a reflexão de que nele (e em nós espectadores) existem dois lados, do racional e irracional, daquilo que reside na consciência e inconsciência, do feio e de belo. Atitudes que controlamos e instintos incontroláveis. Mal natural que habita o feio, pois para Platão, por exemplo, o bom habita o belo (ou o belo no bom). E o amor deseja o belo. Não um belo, padrão de beleza, limitado e rotulado, mas o belo como conhecimento, verdade, sabedoria, justiça, medida, filosofia.
Dr. Jekyll então, ao permitir o conflito entre sua própria natureza, entre o que considera certo e errado, bom e mau, quando é seduzido por uma meretriz ao defendê-la de um cafetão, (sendo um bom homem) deixa fluir o desconhecido, o instinto, a paixão carnal, atração que inunda o racional, e acaba sendo confrontado pelo amigo advogado: "O que você está fazendo? Você é noivo!" Dr. Jekyll aproveita a deixa para reforçar seu discurso de que algo de tentador reside em sua natureza e provoca o amigo, afirmando que na natureza de todo homem é assim, portanto para combater o mau, basta isolá-lo.
Com isto, em suas experiências de laborátorio, Dr. Jekyll, cria uma "poção mágica" e faz de si uma cobaia, tomando a poção e sofrendo uma transformação física. No lugar do belo e bom doutor, surge um monstro (ainda que pictórico no filme, por ser antigo) mau e feio. Monstro que se considera livre, como livre nos sentimos ao saciar um desejo, ao seguir um impulso, ao perder o controle e seguir instintos. Lugar onde reside o prazer, a paixão, o irracional. Monstro dentro de todos nós, que precisamos controlar diariamente, para não nos desordenarmos diante das regras impostas pela sociedade. Não exatamente regras como "o certo," mas aquilo que permite a convivência civilizada (se é que ela é possível). Aproveito e cito Carl Jung, quando diz que o conflito entre duas naturezas fundamentais é necessário para o equilíbrio. (fazendo referência à consciência e inconsciência humana) É necessário conhecer-se por inteiro e saber lidar com os próprios conflitos, que sempre irão existir e fazem parte do crescimento pessoal como ser humano.
Dr. Jekyll então torna-se o monstro inconseqüente Mr. Hyde. E na experiência de liberdade, fica cada vez mais difícil para o médico, não tornar-se Hyde, pois o prazer aflora os instintos, e a curiosidade habita o homem.
Ao se deliciar com o mau, com o prazer carnal, como o homem e mulher que se rendem ao prazer do sexo e "traem" o compromisso formal assumido com seus companheiros e companheiras, o mesmo faz Dr. Jekyll com a noiva, ao deitar-se com a meretriz que antes o seduziu, enquanto era bom e belo. A meretriz que antes via somente o bom e belo no médico, passa a enxergar apenas o mau e feio no monstro, sem entender que os dois são a mesma pessoa.
É o que acontece conosco por exemplo, quando conhecemos alguém bonito fisicamente, mas este "alguém" ao revelar-se mau caráter, de péssima índole, nos faz enxergar uma feiúra antes inexistente (talvez uma feiúra na alma).
Ou ao contrário, como se vê no "conto de fadas", adaptado no filme "A bela e a fera" (1991) dos estúdios Walt Disney, em que o príncipe, tão belo, ao destratar uma pobre senhora, sofre a maldição da feiúra e somente quando Bela vê na fera, beleza, o encanto se quebra e ele torna-se belo novamente, voltando a forma física de príncipe.
Estes exemplos reforçam a ideia de que onde reside o bom, reside o belo.
Para vivermos em harmonia, precisamos respeitar uns aos outros e as duas naturezas fundamentais que existem em nós, sem desmerecer nenhuma, pois o conflito é necessário para o amadurecimento e crescimento pessoal. Nem belo e feio, nem mau e bom, mas unidade, complemento, equilíbrio.
Finalizando, encerro com mais um trecho do site que citei acima:
"Segundo as teorias de Dr. Jekyll, o homem, na verdade, não é apenas um, mas dois. Todo ser humano é dotado de duas naturezas completamente opostas equilibradas de acordo com sua saúde mental. Uma é boa, aquela que traz admiração das pessoas, compaixão dos mais velhos, elogios dos amigos e da esposa ou namorada; outra é má, aquela que é violenta, agressiva, mal-educada, feia e temida por todos. Quando bem distribuídas, com pequenas alternâncias de estado, o homem pode ser considerado normal, mas há os casos em que uma natureza se sobrepõe a outra, tentando se libertar. O problema torna-se grave quando quem alcança a liberdade é o lado negativo, gerando as fatalidades que estamos acostumados a presenciar nos noticiários."
Ou seja, nem Dr. Jekyll ou Mr. Hyde, mas os dois!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Mestrar ou mestrear?

Curiosa, procurei no google a palavra "mestrar".
E curiosamente, encontrei muita coisa.
Por exemplo:

"Na sua busca por "mestrar" não houve sucesso, não existe nenhum verbo assim na língua portuguesa. Outros resultados, que possam ser interessantes: Faça parte e dê um significado pessoal para sua busca." (Em: http://www.achando.info/verbos/conjugar/mestrar.html)

Ok. Esperava por isso, mas em seguida, encontrei outra coisa, ainda mais curiosa.

"Primeiro de tudo, temos que entender que “mestrar” não existe. Isso mesmo. Esse verbo simplesmente não consta em nosso dicionário da língua portuguesa. É um neologismo criado pelos próprios jogadores para identificar um papel, no caso, o de mestre do jogo. Se quiserem conhecer o termo gramaticalmente correto, creio que devam procurar pela palavra “mestrear”. Particularmente, pretendo utilizar certa liberdade literária para continuar usando o termo “mestrar” (sem aspas) e evitar confundir aqueles interessados em começar a exercer este divertido papel." (O Dom de “Mestrar” – Parte I - link: http://rpgdocavaleiros.wordpress.com/2010/05/05/o-dom-de-mestrar-parte-i/)

"mestrear" significaria, segundo o dicionário online português: (mestre+ear) vint 1 Fazer de mestre; falar como mestre: Mestreava com autoridade. vtd 2 Doutrinar, educar, ensinar: Mestreia adolescentes. (Em: http://www.dicio.com.br/mestrear/)

N
o site "achando", o verbo mestrear, em gerúndio se diz mestreando e em particípio pretérito se escreve mestreado." (Em:
http://www.achando.info/verbos/conjugar/mestrear.html?PHPSESSID=k0vf9j2i1smlqu2emr1rrmrbs1)

E por fim, encontro mais isto "
Galera, após muito refletir, decidi trazer essa discussão à tona. Todo o universo brasileiro de rpgistas faz uso da expressão "mestrar", como se esta fosse de fato a forma correta de designar as ações do mestre. Pois bem, nunca achei que fosse importante corrigir isso. Entretanto, com o passar do tempo, mudei minha opinião. Acho que, pelo menos, aqueles que escrevem matérias devem defender o uso adequado dos termos. Então, o verbo correto é "mestrear". Sei que soa estranho, mas é só no começo, depois todos se acostumam. Os neologismos são fundamentais na construção da lingua. Se não existisse o termo, seria preciso criar. Mas já que existe, não seria melhor resgatar? Afinal, acho que, nesse caso especificamente, se trata de um equívoco e não de um neologismo." (Necro-anjo em: http://www.rederpg.com.br/portal/modules/newbb/viewtopic.php?viewmode=compact&order=ASC&topic_id=735&forum=57)

Discordando, seus colegas/amigos/seiláoque falam logo abaixo: "Bem, a língua brasileira sempre se adapta de acordo com as influências culturais estrangeiras, sistema de alfabetização, nível social, renda, etc. Pode ser mesmo que a expressão seja um equívoco, mas, acabou se fixando no linguajar RPGístico. Pode ser que num outro contexto, num texto mais culto por exemplo, a palavra seja adequada, mas, acho que no nosso meio, dificilmente ela vai mudar...seria como uma gíria geek. Mas, tomando o tópico como base, ao invés de "mestrar" eu prefiria ouvir "maestrar" fazendo uma brincadeira com as expressões, melhor do que simplesmente narrar, seria contar uma história de gorma primorosa e memorável, resgatando a magnífica cultura de contar histórias e fazer de conta. Abraços." (ARCHMAGEILUSIONIST) e "Algo que todo pretenso filólogo tem logo que aprender é (para sua mais sincera decepção, assumo) uma vez estabelecida uma "mania de linguagem", dificilmente ela é revertida. Tanto que, para a maioria das pessoas, o mais natural é pensar mesmo no verbo "mestrar" para conjugá-lo: mestro, mestras e mestra (mestreio-mestreias-mestreia? Não creio!). Não à toa estamos (todos) fadados às línguas mortas..." (MELGALIAN)

Finalizando esse devaneio/copiaecoladogoogle: "Na verdade, mestrear é um verbo irregular defectivo (semi-inexistente) e não remete ao sentido de "narrar". Boa sorte em achar e mostrar uma gramática que contenha esse verbo. E "mestrar" só uma corruptela de "Mestre da Masmorra", do termo original Dungeon Master. Se for pelo sentido correto, Mestrar e Narrar seriam os mais próximos do sentido original. Olha, e sobre o comentário de "cultura morta", não acho que você realmente conheça a extensão de grupos e jogos que existem não só pelo Brasil, mas pelo mundo todo. Ou acha que livros de rpg seriam comercialmente viáveis se não houvessem pessoas pra compra-los e usa-los?" (LUMINE)

Fico com "mestrar" porque flui melhor. Existe na minhaescrileitura! =)