Blog para publicação de RESENHAS de ótimos livros e que por um tempo serviu como exercício de escrita sobre a experiência do Mestrado em Educação. Aqui você encontrará: impressões, pensamentos, reflexões sobre as aulas, textos, livros, professores, colegas, e tudo que envolveu (e envolve) esta experiência fantástica de estudar, pesquisar, ler, escrever, produzir e re-inventar. (incluindo frustrações, inseguranças, desencontros e afins)
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Fazer ciência ou intervenção política?
Apenas uma alteração resume:
R.: Fazer ciência E/ou intervenção política.
Mitologias de Barthes - Sou produtora, mitóloga ou leitora?
Digo textos, porque esgotei meu pensamento com os primeiros (da luta livre aos brinquedos) e resolvi partir para o último "O Mito - Hoje".
Leitura esta, causadora de dores-de-cabeça (intelectuais, se possível) e intenso cenho franzido.
Faltaram exemplos. Não os dele, mas exemplos que eu pudesse entender melhor.
Confusão de ideias, conceitos e reflexões. Leitura difícil. (pergunto-me se só foi pra mim!)
Enquanto lia, só me perguntava se eu era produtora, mitóloga ou leitora de mitos.
Diante da experiência na graduação, deduzo que apenas leitora.
Fui bastante resistente em resistir.
Eu gosto dos brinquedos de plástico e filmes tolos. Qual o problema?
Talvez aqui resida a minha melhor oportunidade de falar de um mito contemporâneo (se ele existe de fato), o mito do estudante de cinema. (ou do estudante universitário em geral ou do mestrando em geral).
Primeiro, vamos ao mito de Barthes, começando pela pergunta básica: O que é mito?
Recortando seu texto, aplicando a morte do autor, nascimento do leitor (eu), entendo por mito uma ideologia. (vou tentar facilitar) Mito é uma fala, mas não qualquer, uma fala que necessita de condições especiais para que a linguagem se transforme em mito. É um modo de significação, uma forma. Tudo pode constituir um mito (podemos falar das coisas livremente), se houver possibilidade do discurso, afinal o mito só pode acontecer quando o objeto já tem definição e sentido prévio, pois o mito deforma um sentido já existente. Dá um novo sentido.
Um mito pode ser antigo, mas não necessariamente eterno.
Depende da História, pois é nela que se constitui.
Baseia-se em transformar História em Natureza. (eu arriscaria dizer que é transformar hipótese em verdade absoluta, mas como ele não disse isso, só arrisco dizer)
O mito não é o real, propõe o irreal como real.
Não se define pela mensagem do objeto, mas pela maneira como a profere.
Mito é um valor, uma metalinguagem, uma significação.
Toda significação recorre à semiologia, que eu sintetizaria na relação entre significante (objeto, imagem, vazio), significado (conceito) e signo (sentido).
O conceito do mito ao sentido é a deformação.
Seu ponto de partida é o ponto terminal de um sentido.
É apropriação do conceito, é fala roubada, destituída, despolitizada.
Possui motivação, recorre à falsa natureza.
Tem efeito imediato, na leitura esgota-se na primeira vez.
Mito é uma fala excessivamente justificada. É o senso comum. (é?)
Diante do que é mito, Barthes oferece três definições da relação do homem com o mito:
1.Produtor do mito (parte de um conceito e procura uma forma pra ele)
2. Mitólogo (decifra a deformação e a compreende)
3.Leitor do mito (vive o mito como uma história verdadeira e irreal - senso comum, talvez?)
Inevitável perguntar-me: quem sou eu diante do mito?
Barthes parece ser indiscutivelmente o mitólogo. Produtor talvez? Também.
E eu, pareço ser a leitora. Aquela que vive o mito. Entrega-se a ele. Delicia-se.
E sinto culpa de não sentir culpa nenhuma. Deveria sentir culpa?
Deveria sentir culpa de acreditar nos mitos? De vivê-los?
Ao renegar não me torno um mito também? Como aconteceu com o surrealismo?
Com o não-grau zero? Com a esquerda (que não é revolução)? Direita, reto, frente, atrás?
A esse ponto, sinto que entendo Barthes. Entendo sua preocupação e ainda prefiro não.
Prefiro não resistir. Prefiro não habitar lugar nenhum.
Nem cult ou não-cult. Só eu.
No ato de desmitificar, reside o mito.
Ao fazer cinema, espera-se que eu entenda de cinema, faça cinema, veja cinema, o tempo todo, por completo e eu simplesmente não sou só isso. Pareço carregar um fardo de ter visto todos os filmes que existem, quando vi os que me interessavam. Vi os que eu queria ver. E que o tempo e espaço me permitiram ver.
Se não me interesso por determinado filme, movimento revolucionário, diretor, ideologia, não sou merecedora de estudar cinema? Como o arquiteto que não desenha tão bem, ou o médico que escolhe apenas uma especialidade?
Na terras dos estudos, sempre se espera algo. Um perfil, uma atitude.
Ou até uma não-atitude. Uma resistência talvez.
Eu poderia falar de muitas coisas, (se é que sei identificar algum mito) como os programas "Pânico na TV" e "CQC" que se propõem, de uma certa forma, a desmitificarem o mito das estrelas/celebridades (em suas posições de status, referências na moda, padrões de beleza, ícones da perfeição, mistificados pela mídia) colocando-as em situações reais, naturais, ou pelo menos, situações distantes dos imaginários coletivos, constrangeando-as, ridicularizando-as, provocando-as, mostrando um lado até então desconhecido. Mas ao fazer isso, cria-se um novo mito, um novo sentido, um novo padrão, repetido e esgotado incansalvemente. Cria-se uma nova natureza, quando não passa de história, de irreal, de imagens manipuladas, porque o real não existe no recorte, na edição, limitado por tempo e espaço definido. (não pra mim!)
O real é o real. Quando um espectador (como um leitor) se dispõe a colocar a sua leitura diante de um personagem (todos somos personagens diante das câmeras, sabendo ou não disso), não está lendo o real, está lendo o que quer ler.
Também poderia falar das tendências de moda, que se inspiram nos movimentos de resistência, ideologias e revoluções, criando modismos, como feito com o punk, hippie, indie. E logo, vestir-se de tal maneira, representa tal ideologia, descolada do seu sentido original, seu contexto histórico, esvaziando sua significação. E aquele que acreditava em tal ideologia, acaba cedendo, para não ser confundido com o senso comum. Deixando de se vestir como gostava ou acreditava, para não se render ao senso comum. Até esta postura, foi mistificada. Na roupa, na maneira de se vestir, agir, chorar, sentir.
Poderia falar de muitas outras coisas, como a linguagem permite, mas em tudo parece haver o vazio. Se não agora, possivelmente depois. E o que parece realmente importar para alguns diante desta constatação é a necessidade da revolução. Que nunca se transforma em mito, pois quando se transforma, deixa de ser revolução.
Lendo novamente o título, questiono-me novamente? Quem sou eu no mito de Barthes?
Sou a produtora, a mitóloga ou a leitora? Talvez os três, não sempre, nem ao mesmo tempo.
Talvez eu ajude a produzir, decifre em alguns momentos e viva intensamente os mitos em outros. E continuo me perguntando, qual é o problema?
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
O papel do mestre e do ensino em Agostinho e Tomás de Aquino – regar a semente
Livro: "Introdução à Filosofia da Educação - Temas contemporâneos e História" - vários autores - organizado por Pedro Angelo Pagni e Divino José da Silva - R$41,00 em 3x (porque "mestrar" custa caro e livro é pra sempre!)
Texto: Parte 2 - "A filosofia, o papel do mestre e a educação humana: Retrato do pensamento medieval e renascentista"
Capítulo 4: "Sobre o papel do mestre e do ensino em Agostinho e Tomás de Aquino" por Marcos Roberto Leite da Silva
Detalhe: grifos com caneta fluorescente azul e asteriscos nas partes importantes.
Vou falar das partes importantes. (ou dos asteriscos)
Segundo Silva, "os autores foram escolhidos pelo critério de importância nos respectivos momentos históricos." Agostinho, por fazer parte da era Medieval, com o intuito de estender o cristianismo. E Tomás, num período de efervescência intelectual, no intuito de pacificar a inquietação juvenil. (tocada por novos conhecimentos, diante da cristandade). O nascimento da escola? Talvez.
Agostinho então pretendia evangelizar a sociedade. Pretendia conciliar fé e razão, sem associar o aprendizado à violência, coisa que foi submetido a fazer em sua juventude. Aparentemente contrário aos castigos e crueldades impostas para aprender o grego e suas fábulas, Agostinho via nas palavras em latim das amas (escravas?) o verdadeiro aprendizado. Não porque não era obrigado, mas porque dispunha sem pressão aos ouvidos, tais palavras e assim, depositava suas próprias impressões. Aqui, reside a reflexão pessoal? Depósito de repertório único? Escolha do caminho?
"Nesse ambiente, diz Silva, pensar o conhecimento é pensar um despertar humanizador das verdades divinas aos quais todo homem pode aceder. A alma do homem é o verbo e Deus é a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo", portanto assim como em Platão, aprender é recordar, mas não a partir do mundo das ideias, e sim do despertar do intelecto para os conteúdos da iluminação divina. Despertar o saber. Então, assim como Deus, que se comunica com as palavras certas, deve o educador discernir a palavra adequada. Deve despertar o saber no aprendiz, no aluno. (de novo, promover a reflexão?) Mas saber que reside no bom e no belo, portanto na verdade.
O educador deve conhecer seu alcance e sua estrutura para optar pela palavra em sua ação educativa. O educador deve deixar vir?
Entre tantos asteriscos azuis grifados no texto, recortes soltos - como letras aleatórias em sopa de letrinhas - se unem e ganham novo sentido num novo contexto. Estava eu aqui citando, recortando o texto e minha escrita preferiu soltar-se. Citando Agostinho só consigo pensar em questões atuais e como sua visão sobre educação, é atual, ainda que voltada para o cristianismo. O autor vê isso e eu também vejo.
Passagens como "é interiormente que o conhecimento se processa" só reforça a ideia de semear o conhecimento no aluno. Não plantar, mas semear. Não abrir um buraco e jogar uma planta pronta, virtuosa, do nosso jardim docente, mas depositar uma sementinha e regar, esperando, torcendo para que ela floresça. O esforço é maior. Regar, proteger do vento, do sol, das pragas. Ter paciência, fé, esperança. É frustrante, mas é possível.
Agostinho defende a paixão do educador, a pouca fala, a melhoria da exposição, a centralidade do e no aluno, a formação do educador, o material a ser usado e o lado sensível, associado ao bom e belo de Platão, mas principalmente ao lado onde reside Deus, o cristianismo, a fé. E somente semeado, o saber é despertado. Tendo conhecimento, a vida humana torna-se virtuosa, boa e bela. Pois a iluminação divina se dá no intelecto. Aqui vale questionar, o conhecimento é sempre bom e belo?
O conhecimento não dá poder? Não é com ele que os fortes oprimem os fracos? Não é na ignorância que os povos são manipulados e controlados? O grande problema da sociedade não é a falta de uma educação de qualidade?
Estes questionamentos fazem-me pensar em como as reflexões, colocações de Agostinho, na visão de Silva, reforçam o papel do educador de semear. De fato, o conhecimento ilumina, mas é de fato onde reside somente o bom e o belo?
Se todos tivessem o mesmo nível de conhecimento, talvez não existisse a injustiça. Pois não existiria minoria e nem maioria. Se todos se unissem para lutar pelos seus direitos, fizessem uso das armas e técnicas, depusessem um governante mal intencionado, talvez não existisse injustiça. Mas sem injustiça não haveria revolta, pois a injustiça ocorreria com o governante mal intencionado, que já não poderia existir se todos tivessem o mesmo nível de conhecimento.
O nível de conhecimento estaria então associado à idade? O bom e belo seria adquirido com o passar dos anos como aprendiz? É bom e belo o mais velho? O educador?
Parece mais complicado analisar dessa forma. Surgem mais perguntas que respostas. Que bom então. Parece-me então que o papel do educador é contínuo. Semear. Não plantar. Sem começo, nem fim. Apenas meio. Onde habita o amor, palavra que une aquilo que é divino ao que é humano.
Diante da minha inquietação, trago reflexões sobre Santo Tomás, pois foi na inquietação juvenil de sua época, que se reconheceu a necessidade de critérios mais racionais para se aceitar a fé. Pode o homem ensinar e ser mestre, ou só Deus? Pode alguém ser chamado “o seu próprio mestre”? Pode o homem ser ensinado pelo anjo? É ensinar função da vida ativa ou da contemplativa?
Na visão de Silva, São Tomás associa o conhecimento intelectual à experiência sensível. O conhecimento está fora de nós e não dentro. Ou seja, não precisa ser despertado. E sim, percebido. Ou seja, é o intelecto que deve ser despertado, o lado sensível, para perceber o conhecimento que está disponível. A experiência produz o conhecimento. Seria dever do mestre, do educador, estimular potencialidades no aprendiz por própria vontade e empenho. Pois todo homem, pode desenvolver, por si mesmo, suas potências. Aqui vale comentar sobre as experiências práticas de Artes na escola. Não é porque o aluno não é estimulado a desenhar que não possa desenvolver individualmente essa habilidade. São vários os casos de crianças que se tornam habilidosos adultos desenhistas, por vontade própria, sem ter tido qualquer estímulo na escola. Mas quando feito na escola, é ainda melhor. Ou alcança uma fatia maior de jovens criativos.
Cabe colocar, segundo Silva, “que o homem não pode ensinar de modo perfeito a si próprio, mas possui excelentes meio de aprender, com o auxílio dos mestres”. Como é o caso dos adultos habilidosos desenhistas que citei anteriormente, que procuram em outros meios, aprimorar técnicas de desenhos, quando não estimuladas nas escolas. Fazendo cursos paralelos, observando técnicas diferentes, cursando faculdades de formação específica e encontrando em outros meios, mestres. “O homem não pode ensinar a si próprio, mas é aluno eficiente, capaz de conhecer.” Dito isto, parece realmente possível o homem ensinar, ser mestre e ser seu próprio mestre.
O homem teria então uma potencialidade ativa para conhecer, derivada de uma unidade do ser. O ser é também pensar e querer. Não é estático, mas autopresença. Aprender então é uma atividade própria do ser. Atividade peculiar do aluno. “O professor é alguém que aproxima ou desperta, no aprendiz, o interesse, enquanto o ajuda por experiência a evitar os desvios de uma ciência menos perfeita”. O aluno é o ser ativo, centro do sistema educativo. Não bastam palavras, é necessário sentido a partir da experiência pessoal. O aluno precisa se interessar e experimentar para aprender.
Ao meu ver, o encontro entre Agostinho e São Tomás não é contraditório, mas complementar. Para um, o conhecimento é interior, e cabe ao mestre despertar este conhecimento no aluno, por vontade própria, considerando suas condições particulares e individuais (estaria aqui a diferença entre os seres e a impossibilidade da justiça absoluta?). E para o outro, o conhecimento é despertado de forma ativa pelo aluno. Ele participa do processo de ensino-aprendizagem, e também cabe ao professor orientar, conduzir, despertar as habilidades e potencialidades do aluno para o saber, para o conhecimento. A palavra não é suficiente, é necessário vivenciar, experimentar.
Encontrinhos de corredor
Como assim encontrinhos de corredor?
Tudo assim.
Não há melhor ocasião para o diálogo e a troca, como os encontrinhos de corredor.
Dividir frustrações sobre o texto que não se entendeu.
(deveria ter entendido? assim de primeira?)
Perguntar sobre a tarefa da aula tal.
Comentar sobre a aula de fulano. Quais os próximos textos?
Discutir um conceito que não se discutiu na sala.
Citar informalmente outros autores.
Falar da experiência docente.
Questionar datas, regras, regimentos e posturas.
Conversar de tudo um pouco.
Quebrar o gelo.
Enfim...não há melhor ocasião para o diálogo e a troca, como os encontrinhos de corredor.
Melhor forma de se aproximar dos colegas, mesmo os mais solitários, como eu.
Melhor maneira de pontuar um texto, antes mesmo da aula começar, e sentir mais segurança nas colocações que pretende fazer em sala, afinal - como nas comunidades do orkut - alguém também pensa (ou não pensa) como você.
(falei das comunidades do orkut porque eu achava que só eu via o coelhinho na lua! que ingênua!)
Melhor ocasião para conhecer alguém melhor, perguntar um pouco sobre a vida, dividir as frustrações comuns do mestrado, falar da bolsa, dos gastos, prazos, sonhos, projetos, experiências.
Encontrinhos de corredor deveriam estar no currículo, como carga horária obrigatória. Não?
Deveriam ser validados pra alguma coisa então.
São tão úteis, mesmo em suas aparentes inutilidades.
Tão cativantes e comuns. São obrigatórios.
Você! (estou supondo um leitor)
...que nunca teve um encontrinho de corredor, tenha-o!
É fácil! Chegue um pouco antes da aula, fique por perto da sala, do prédio, dos colegas e puxe assunto. Teça um comentário. Tire uma dúvida. Comente sobre o tempo. Faça alguma coisa!
E assim, você terá um essencial e necessário, encontrinho de corredor.
Ansiedade e medo
Talvez já tenha caducado, mas vale a pena recordar.
Do que se trata?
Trata-se da divulgação do blog para os colegas e professores do mestrado.
Na semana passada, claro.
Primeiro...medo.
Aquele medo onde reside a coragem, porque coragem não existe sem medo.
Coragem é enfrentar o medo.
Neste caso, medo da rejeição, do pensamento contrário, do retorno das minhas ideias tolas (ou não tão tolas), dos fantasmas da escrita.
Criei o blog para mim, para praticar minha escrita, mas mentiria se também não tivesse criado para uma possível divulgação.
Criei na ânsia de dar vida aos meus pensamentos, através das palavras, já que nem sempre tenho ouvidos disponíveis. Pensamentos sobre tudo. Dedos frenéticos teclando na minha mente.
Escrever no blog é como falar em voz alta.
É como ter ouvidos sempre disponíveis. Mesmo que esses ouvidos não falem. Não retornem.
É como ordenar os pensamentos desordenados e refletir sobre.
É libertador e exercita a escrita. Ajuda na articulação.
Enfim, é ótimo e foi a melhor saída que poderia ter pensado para minha ânsia de falar/escrever.
Se em 2006, quando criei meu primeiro blog sobre cinema, esperava ansiosa por retorno, hoje eles nem me importam mais. É o que menos importa! (não que não importe)
Enxerguei novo sentido para a frase "Não deixe nada para depois, não deixe o tempo passar", (Pitty) citação musical que coloquei no fim do blog de cinema.
Eu realmente não deixei.
Não deixei que os menosprezos da graduação aos meus textos me intimidassem, ou que o fato de não haver coments, também.
Não esperei, não lamentei, segui adiante.
No lugar da ansiedade e do medo: segurança, liberdade, determinação.
Não há uma meta. Só um caminho. O caminho da escrita.
Então, após duas semanas deste blog, no qual escrevo, resolvi divulgar. Abertamente.
Para os professores, para sala, colegas, amigos, para estranhos curiosos (que ouvem conversinhas de corredor e se interessam pelo blog). Para quem interessado estiver.
E tive retornos. Bons. Deixaram-me contente.
Alguém viaja na maionese como eu! EeeeeEeeee
Mas quando vierem os retornos ruins, não desanimarei, tentarei estar preparada.
Errar é a melhor oportunidade de aprendizado. Então, que venham os erros também!
A sede continua. A inspiração também.
Que venham todos, dividir suas loucurinhas comigo! =)
Estarei sempre disponível!
Proibido para menores
por Alessandra Collaço da Silva
Quando vejo classificação/recomendação por faixa etária em algum filme, sempre me pergunto o que levou tal comissão, equipe e/ou responsável a determinar o que no conteúdo é impróprio para determinada faixa etária. Porque filmes como “Cidade de Deus” de Fernando Meirelles (2003), recomendado para maiores de 16 anos e “Tropa de elite” de José Padilha (2008), recomendado para maiores de 18 anos, tão assistidos pelos meus alunos de 12 e 13 anos, não são adequados, mas mesmo assim, ícones e referências, em suas produções audiovisuais. (eles adoram dizer: “perdeu playboy!”)
Em certa ocasião na escola, em uma semana de planejamento (comum nas férias escolares) deparei-me com um texto de Gardner que caracterizava o início do pensamento abstrato, por volta dos 12 anos. Ou seja, início de um pensamento que não se dá apenas na superfície, mas que começa a entender a subjetividade de conteúdos apresentados, talvez até entenda melhor sobre ironia, humor negro, sarcasmo, e que a violência dos filmes não está ali por si só (ou está?), mas para representar a construção de sujeito, de sociedade, de valores distorcidos, mas nem por isso valores que devam ser usados como referência.
Ao unir minha reflexão sobre recomendação para determinada faixa etária, com o pensamento abstrato que se inicia a partir dos 12 anos, segundo Gardner e o fato de que cada “leitor” do mundo coloca na sua leitura, o próprio repertório (escritura que destrói a origem), diria o mestre Barthes, deparei-me com um problema real: qual é o problema real? Classificar o filme não impede que este aluno, ainda sem a tal formação crítica, com seus 12 e 13 anos, tenha acesso ao conteúdo, tido como impróprio. E diante de uma era digital, jovens equipados das mais variadas mídias, principalmente as móveis, como celular e internet, têm acesso ao que bem entendem, se não no cinema ou na vídeolocadora, acessam pelo youtube ou na casa dos amigos. Essa constatação (se pode ser considerada constatação) me leva a crer que classificar o filme não tem uma utilidade muito clara, a não ser para os pais e educadores, que “maduros” e “sábios” sabem que tal filme não é adequado. Mas isso não significa muito para os jovens, pois se para mim, jovem recém formada, com pouca experiência docente, não era claro o que determinava a faixa etária, imagina para eles, imaturos pela própria imaturidade da idade.
E o pensamento abstrato? Tudo bem que eles talvez ainda não o possuam (como ter certeza de algo a essa altura?), mas não significa que não sejam capazes de reproduzir a leitura, ainda que superficial, que fazem dos filmes, vídeos, experimentos audiovisuais e afins. Então talvez o problema não deva “morar” no conteúdo impróprio, afinal alguma leitura eles irão fazer, pois sempre a fazem, mas sim na representação, na projeção, na reflexão (se é que ela acontece). Talvez o problema esteja no como. Como eles lêem?
Nesse caso, como professora de cinema, (aquela que ensina as técnicas de realização de um audiovisual, desde a ideia até a edição), sinto que devo deixar vir o repertório. Deixar vir as construções violentas, as distorções de valores, as tramas superficiais e personagens incoerentes. Deixar vir para então, talvez agir. Questionar e provocar esse aluno sobre sua proposta e sua construção em vídeo. Confrontá-lo, esperando argumentos (se é que isso é possível). Testar seu repertório. Porque é inútil querer controlar o conteúdo ou forçá-los a fazer filmes com mensagens positivas, moral da história e reflexões de adultos. (tipo: salve o planeta, proteja os animais, recicle) Isso é fingir que se ensina algo, pois a construção não veio de dentro. Se o que eles querem é construir a violência, é ali a melhor oportunidade de mediar o conhecimento, o pensamento. A reflexão tem que vir de dentro, ela não vem no livro, ou num exercício tolo, ou muito menos é plantada. Ela deve ser semeada e ganhar vida própria, como qualquer idéia que germina e contamina o pensamento ferozmente. A ideia deve partir deles e esse é provavelmente o maior desafio para o professor. E o maior problema ao lidar com mídia hoje. Como? Como fazer? Como usar essa leitura, muitas vezes distorcida, e promover a reflexão? Como instigá-los, provocá-los, semeá-los? Deixando vir?