quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O médico e o monstro - bom x mau?

Aproveito minha reflexão sobre o filme "O Médico e o Monstro" de Rouben Mamoulian (1931), feita para o meu blog de cinema (www.allycenourinha.blogspot.com) e adapto quase na íntegra aqui neste blog, pois foi inevitável nesta escrita, não fazer relação com os textos que estamos vendo na aula de Teorias da Educação sobre Platão e seus conceitos sobre justiça, amor, medida e afins.


"O Médico e o Monstro" de Rouben Mamoulian (1931), é uma entre várias versões adaptadas para o cinema, do livro (título original em inglês: The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde) de Robert Louis Stevenson , publicado em 1886.

Cito uma passagem que extraí de um site, sobre o livro, para fazer o gancho com o filme:

"A história de Stevenson baseou-se na vida dupla de um habitante de Edimburgo, na Escócia, chamado William Brodie: de dia ele era um respeitado marceneiro; à noite, roubava as casas dos moradores da cidade.
A história se passa em Londres, no final do século XIX, centro urbano com quatro milhões de habitantes. Devido ao grande contraste econômico entre os industriais (cada vez mais ricos) e os miseráveis (cada vez com menos oportunidades de emprego e vida digna), Londres passou a ser palco de inúmeros crimes horríveis. Justamente por isso, em 1829, foi criada a Scotland Yard, que se tornaria mais tarde reconhecida por sua eficiência em resolver crimes e por tomar parte das inúmeras páginas das histórias policiais inglesas."
(Disponível em: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/o/o_medico_e_o_monstro

O filme de Rouben Mamoulian, é protagonizado pelo ator Fredric Marcha, que vive o personagem com dupla personalidade, Dr. Henry L. Jekyll - o médico e Mr. Hyde - o monstro.
Diante do progresso de Londres, o médico, noivo de uma bela dama, dialoga com seu amigo advogado, Dr Lanyon, sobre a possibilidade do homem possuir duas personalidades, uma boa e uma má. Por ser agente da ciência, Dr. Jekyll acredita ser possível extrair do homem, tudo que existe de ruim e assim, permanecer só o que é bom, como se um não dependesse do outro. Ele acredita na possibilidade, defendendo-se como um curioso, como o curioso e insatisfeito cientista que criou a lâmpada e colaborou para o progresso (que ele cita no filme), evitando deixar Londres às escuras ou dependente de mecanismos primitivos e limitados. Dr. Jekyll acredita nos sacríficios a favor da ciência, do progresso. (retrata esse pensamento ao deixar uma carta para a noiva, caso sua experiência científica dê errado).
Em vários percursos do filme, Dr. Jekyll confronta o amigo, promovendo a reflexão de que nele (e em nós espectadores) existem dois lados, do racional e irracional, daquilo que reside na consciência e inconsciência, do feio e de belo. Atitudes que controlamos e instintos incontroláveis. Mal natural que habita o feio, pois para Platão, por exemplo, o bom habita o belo (ou o belo no bom). E o amor deseja o belo. Não um belo, padrão de beleza, limitado e rotulado, mas o belo como conhecimento, verdade, sabedoria, justiça, medida, filosofia.
Dr. Jekyll então, ao permitir o conflito entre sua própria natureza, entre o que considera certo e errado, bom e mau, quando é seduzido por uma meretriz ao defendê-la de um cafetão, (sendo um bom homem) deixa fluir o desconhecido, o instinto, a paixão carnal, atração que inunda o racional, e acaba sendo confrontado pelo amigo advogado: "O que você está fazendo? Você é noivo!" Dr. Jekyll aproveita a deixa para reforçar seu discurso de que algo de tentador reside em sua natureza e provoca o amigo, afirmando que na natureza de todo homem é assim, portanto para combater o mau, basta isolá-lo.
Com isto, em suas experiências de laborátorio, Dr. Jekyll, cria uma "poção mágica" e faz de si uma cobaia, tomando a poção e sofrendo uma transformação física. No lugar do belo e bom doutor, surge um monstro (ainda que pictórico no filme, por ser antigo) mau e feio. Monstro que se considera livre, como livre nos sentimos ao saciar um desejo, ao seguir um impulso, ao perder o controle e seguir instintos. Lugar onde reside o prazer, a paixão, o irracional. Monstro dentro de todos nós, que precisamos controlar diariamente, para não nos desordenarmos diante das regras impostas pela sociedade. Não exatamente regras como "o certo," mas aquilo que permite a convivência civilizada (se é que ela é possível). Aproveito e cito Carl Jung, quando diz que o conflito entre duas naturezas fundamentais é necessário para o equilíbrio. (fazendo referência à consciência e inconsciência humana) É necessário conhecer-se por inteiro e saber lidar com os próprios conflitos, que sempre irão existir e fazem parte do crescimento pessoal como ser humano.
Dr. Jekyll então torna-se o monstro inconseqüente Mr. Hyde. E na experiência de liberdade, fica cada vez mais difícil para o médico, não tornar-se Hyde, pois o prazer aflora os instintos, e a curiosidade habita o homem.
Ao se deliciar com o mau, com o prazer carnal, como o homem e mulher que se rendem ao prazer do sexo e "traem" o compromisso formal assumido com seus companheiros e companheiras, o mesmo faz Dr. Jekyll com a noiva, ao deitar-se com a meretriz que antes o seduziu, enquanto era bom e belo. A meretriz que antes via somente o bom e belo no médico, passa a enxergar apenas o mau e feio no monstro, sem entender que os dois são a mesma pessoa.
É o que acontece conosco por exemplo, quando conhecemos alguém bonito fisicamente, mas este "alguém" ao revelar-se mau caráter, de péssima índole, nos faz enxergar uma feiúra antes inexistente (talvez uma feiúra na alma).
Ou ao contrário, como se vê no "conto de fadas", adaptado no filme "A bela e a fera" (1991) dos estúdios Walt Disney, em que o príncipe, tão belo, ao destratar uma pobre senhora, sofre a maldição da feiúra e somente quando Bela vê na fera, beleza, o encanto se quebra e ele torna-se belo novamente, voltando a forma física de príncipe.
Estes exemplos reforçam a ideia de que onde reside o bom, reside o belo.
Para vivermos em harmonia, precisamos respeitar uns aos outros e as duas naturezas fundamentais que existem em nós, sem desmerecer nenhuma, pois o conflito é necessário para o amadurecimento e crescimento pessoal. Nem belo e feio, nem mau e bom, mas unidade, complemento, equilíbrio.
Finalizando, encerro com mais um trecho do site que citei acima:
"Segundo as teorias de Dr. Jekyll, o homem, na verdade, não é apenas um, mas dois. Todo ser humano é dotado de duas naturezas completamente opostas equilibradas de acordo com sua saúde mental. Uma é boa, aquela que traz admiração das pessoas, compaixão dos mais velhos, elogios dos amigos e da esposa ou namorada; outra é má, aquela que é violenta, agressiva, mal-educada, feia e temida por todos. Quando bem distribuídas, com pequenas alternâncias de estado, o homem pode ser considerado normal, mas há os casos em que uma natureza se sobrepõe a outra, tentando se libertar. O problema torna-se grave quando quem alcança a liberdade é o lado negativo, gerando as fatalidades que estamos acostumados a presenciar nos noticiários."
Ou seja, nem Dr. Jekyll ou Mr. Hyde, mas os dois!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Mestrar ou mestrear?

Curiosa, procurei no google a palavra "mestrar".
E curiosamente, encontrei muita coisa.
Por exemplo:

"Na sua busca por "mestrar" não houve sucesso, não existe nenhum verbo assim na língua portuguesa. Outros resultados, que possam ser interessantes: Faça parte e dê um significado pessoal para sua busca." (Em: http://www.achando.info/verbos/conjugar/mestrar.html)

Ok. Esperava por isso, mas em seguida, encontrei outra coisa, ainda mais curiosa.

"Primeiro de tudo, temos que entender que “mestrar” não existe. Isso mesmo. Esse verbo simplesmente não consta em nosso dicionário da língua portuguesa. É um neologismo criado pelos próprios jogadores para identificar um papel, no caso, o de mestre do jogo. Se quiserem conhecer o termo gramaticalmente correto, creio que devam procurar pela palavra “mestrear”. Particularmente, pretendo utilizar certa liberdade literária para continuar usando o termo “mestrar” (sem aspas) e evitar confundir aqueles interessados em começar a exercer este divertido papel." (O Dom de “Mestrar” – Parte I - link: http://rpgdocavaleiros.wordpress.com/2010/05/05/o-dom-de-mestrar-parte-i/)

"mestrear" significaria, segundo o dicionário online português: (mestre+ear) vint 1 Fazer de mestre; falar como mestre: Mestreava com autoridade. vtd 2 Doutrinar, educar, ensinar: Mestreia adolescentes. (Em: http://www.dicio.com.br/mestrear/)

N
o site "achando", o verbo mestrear, em gerúndio se diz mestreando e em particípio pretérito se escreve mestreado." (Em:
http://www.achando.info/verbos/conjugar/mestrear.html?PHPSESSID=k0vf9j2i1smlqu2emr1rrmrbs1)

E por fim, encontro mais isto "
Galera, após muito refletir, decidi trazer essa discussão à tona. Todo o universo brasileiro de rpgistas faz uso da expressão "mestrar", como se esta fosse de fato a forma correta de designar as ações do mestre. Pois bem, nunca achei que fosse importante corrigir isso. Entretanto, com o passar do tempo, mudei minha opinião. Acho que, pelo menos, aqueles que escrevem matérias devem defender o uso adequado dos termos. Então, o verbo correto é "mestrear". Sei que soa estranho, mas é só no começo, depois todos se acostumam. Os neologismos são fundamentais na construção da lingua. Se não existisse o termo, seria preciso criar. Mas já que existe, não seria melhor resgatar? Afinal, acho que, nesse caso especificamente, se trata de um equívoco e não de um neologismo." (Necro-anjo em: http://www.rederpg.com.br/portal/modules/newbb/viewtopic.php?viewmode=compact&order=ASC&topic_id=735&forum=57)

Discordando, seus colegas/amigos/seiláoque falam logo abaixo: "Bem, a língua brasileira sempre se adapta de acordo com as influências culturais estrangeiras, sistema de alfabetização, nível social, renda, etc. Pode ser mesmo que a expressão seja um equívoco, mas, acabou se fixando no linguajar RPGístico. Pode ser que num outro contexto, num texto mais culto por exemplo, a palavra seja adequada, mas, acho que no nosso meio, dificilmente ela vai mudar...seria como uma gíria geek. Mas, tomando o tópico como base, ao invés de "mestrar" eu prefiria ouvir "maestrar" fazendo uma brincadeira com as expressões, melhor do que simplesmente narrar, seria contar uma história de gorma primorosa e memorável, resgatando a magnífica cultura de contar histórias e fazer de conta. Abraços." (ARCHMAGEILUSIONIST) e "Algo que todo pretenso filólogo tem logo que aprender é (para sua mais sincera decepção, assumo) uma vez estabelecida uma "mania de linguagem", dificilmente ela é revertida. Tanto que, para a maioria das pessoas, o mais natural é pensar mesmo no verbo "mestrar" para conjugá-lo: mestro, mestras e mestra (mestreio-mestreias-mestreia? Não creio!). Não à toa estamos (todos) fadados às línguas mortas..." (MELGALIAN)

Finalizando esse devaneio/copiaecoladogoogle: "Na verdade, mestrear é um verbo irregular defectivo (semi-inexistente) e não remete ao sentido de "narrar". Boa sorte em achar e mostrar uma gramática que contenha esse verbo. E "mestrar" só uma corruptela de "Mestre da Masmorra", do termo original Dungeon Master. Se for pelo sentido correto, Mestrar e Narrar seriam os mais próximos do sentido original. Olha, e sobre o comentário de "cultura morta", não acho que você realmente conheça a extensão de grupos e jogos que existem não só pelo Brasil, mas pelo mundo todo. Ou acha que livros de rpg seriam comercialmente viáveis se não houvessem pessoas pra compra-los e usa-los?" (LUMINE)

Fico com "mestrar" porque flui melhor. Existe na minhaescrileitura! =)

Apontador de lápis

Mais de cinco vezes. Apontei o lápis mais de cinco vezes. (prefiro lápis sempre)
Os dedos escreviam compulsivamente no caderno, sobre as impressões da aula de Teorias da Educação. Escreviam sobre o texto "Os sentidos da paixão", escreviam sobre o escrever.
Porque escrever na leitura (Barthes) não é somente escrever no ler, mas também no ler de ouvir. Ouvir-ler e escrever. Teclar. Reorganizar. Repensar. Refletir.
Se antes o texto estava solto na leitura, na aula movimentou-se, amarrou-se e soltou-se.
Falar das várias faces do amor. Que desafio! Amor que é múltiplo, descontínuo, que se relaciona com a palavra e que se relaciona com a arte de ensinar: a docência. (é mesmo uma arte?)
Mais uma vez, em mais aula, a proposta é ousada. Usar o texto como ponto de partida, como provocação, não repetição. Não sintetizar, mas pungir. Deixar vir. E as impressões vem ferozes.
Os dedos teclam continuamente nos pensamentos, ansiosos, a escritura nem dá conta.
Juliana, a responsável pelo texto, fala de Platão, Sócrates, citados por Peçanha, Platão (ou Socrátes, já não sei) provoca a riqueza da não-linearidade. (deslinearidade? inelinearidade? inlinearidade?)
Da reflexão que afasta o leitor, afasta o autor e renova energias. Retoma.
Sandra (a desbocada de ontem) é lembrada. Mesmo em sua ousadia, há preocupação com o leitor. Há? Mesmo num não-texto?
Coloca-se: aquele que recusa, foi aquele que antes aceitou. Aquele que recusa o lugar é porque deixou de lá residir. A morada é outra. Está lá para provocar. Para não-estar. Para provocar o não-estar.
Como transportar para a prática pedagógica? Como vincular? Como?
Vamos aos recortes de Platão.
Horizontal substituído pelo vertical. Método que importa mais que os conteúdos doutrinários. Processo que importa mais que resultado?
Platão insere em seus diálogos, assuntos "descozidos", diz Peçanha. Assuntos para cozinharmos.
Não procurar as respostas, encantar-se com o debate. Procurar o que constituiu os debates. Não considerar uma origem única. Há vida anterior, mas partir de algo. Qualquer algo. Ou algo possível. Um estudo que não defina a educação, que não feche, mas abra.
Provocar o exercício da fala, diz Lúcia, a professora. Porque o docente não é o que fala, mas o que provoca a fala. (os dedos escreveram: Estarei eu fazendo isso? Eu, que tanto falo?)
Que poder é esse, libertador que tira do outro a fala? Poder dado ao docente, por formar-se? Preparar-se? Estamos mesmo preparados?
Talvez o agir deva ser depois do vir. Deixar vir. Que o outro fale. Que o discente fale. Então agir. Mediar como media o amor. Mediar entre homens e deuses. Aproximar. Complementar como se complementam os casais apaixonados. Quando juntos, unidade.
Não aquele amor selvagem, irracional, onde habita a paixão. Que não é unidade, pois come um ao outro. Destrói. Machuca. Corrói. Amor-paixão ardente. Sede incontrolável. Vício. Prazer!
Mas amor filosófico. Das ideias plenas. Amor que inunda o ensino que não é mercado. Que não prova. Que não escolhe. Que reside em qualquer lugar. Amor que conhece. É conhecimento. Porque tem sede, porque busca. Amor-professor.
Um amor que provoque em nós mesmos, reflexão.
Que o conhecimento encante, como encantada estava a plateia de Socrátes.
Conhecimento na provocação, nos argumentos dispostos num tabuleiro, sem esperar xeque-mate. Jogar eternamente. Assistir eternamente. Conhecimento inalcansável.
Movimentar reflexões. Abrir. Re-abrir. Não fechar!
Não fazer o que a multidão quer, nem que a multidão seja de radicais. Seguir a intuição?
Aqui recorto o texto, palavras, reflexões. Recorte corajoso. Perigoso. Gostoso.
Não pretendi sintetizar, simplificar, argumentar. Joguei comigo mesma, com o outro, com todos.
Joguei com as palavras, com os sentidos. Fiz das impressões, poesia. Apontei o lápis. Apontei os dedos. Apontei a escrita. Que se desgasta, se renova. Recomeça.

Detalhezinho

Curioso encontrar nos meus posts anteriores a palavra "Segurança".
Ainda sinto-me segura? Devo me sentir? Melhor não me sentir?
Será que é na insegurança que reside a inspiração?
Após exatos 16 dias de experiência "mestrandas", a sede aumenta cada dia mais. Sede do saber. Sede de escrever. Sede de ter sede.
Em cada fala, crescimento. Em cada escuta, agitação. Trocas e mais trocas.
Estou eu pronta pro mestrado ou o mestrado me aprontou? Em tão pouco tempo?
As partículas do meu corpo vibram como no corpo de um cachorro ansioso pelo dono que não vê o dia inteiro, com seu rebolado traseiro, contendo uma explosão.
Lambidinhas de alegria contidas, esperando o assovio.
Eis aqui, o prazer de dividir o saber. O meu saber. Se é que é um saber.
Contagiada pela experiência-escrileitura-Sandra de hoje, sinto-me libertada de alguma coisa sem nome. Algo que estava contido, como as lambidinhas discretas e tímidas, explodo em alegria, derrubando meu dono, deliciando-me na escrita e na leitura. Leitura da vida, do dia, mais um dia.
Quando tempo permanecerei impregnada, contagiada, contaminada?
Espero que por um bom tempo. Infinito tempo. Descobri-me. Libertei-me (espero eu).

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Escrileitura: talvez sim!

Diante dos dedos incansáveis da minha mente, teclando no meu pensar extremamente agitados, escrevendo reflexões e causando uma inevitável explosão de novas ideias, unidas a sede de escrever sobre tamanha experiência reveledora na conferência, palestra, aula (seja lá o que foi aquilo), estou eu aqui mais uma vez, inaugurando inspirada, a terceira semana na experiência de "mestrar". Dedos estes que teclam na mente, porque teclar é escrever. Quem lê, escreve. E escrever não é só no papel, também escrevemos na leitura como diria nosso mestre Barthes. Ao ler, levantamos a cabeça, os olhos, o pensamento, não porque interrompemos nossa leitura, com distrações (o que também é comum), mas porque ela nos faz escrever no pensamento algo que nos tocou no texto, que nos fez sair pra pensar. Tocar nem sempre é bom, como a música que "toca o coração". Tocar pode pungir. Ferir. Mas ainda assim, fazer-nos refletir. Nossa leitura, é única e individual. Ler é escrever. E escrever é bom! No mestrado é! (em partes).
Terça-feira, 31 de agosto, último dia do mês, suposta aula do Profº Wladimir, estudos sobre Barthes, substituída propositalmente por uma aula-conferência, abertura de consciência, inconsciência, ência, da ousada Sandra (não me recordo sobrenome), em sua proposta de escrileitura.
Mais uma vez me deparei com os fantasmas da graduação. Meus professores Manuel e Felipe, "seguidores" do Barthes, Foucalt, Kant, Nietsche e afins, que tanto me atormentaram, insistindo no não-texto, no falar o que não é falado, no texto que não busca sentido, forma, método, mas que provoca, propõe, ousa, destrói, reconstrói, rói. (as rimas pulsam, inevitável).
Lá estava ela, Sandra, desbocada, atormentando minha mente com suas palavras. Propondo uma nova escrita, a partir da "matéria" que construiu de forma sólida, citando todos os autores anteriormente citados e muito mais.
Leu o que chamou de conferência. Leu por um tempo. Bom tempo. E nesse tempo, escrevi a primeira frase captada: "Como superar o bloqueio da página em branco?". Anotação clichê, segura, porque seria uma ousadia tentar acompanhar suas articulações. Olhei em volta, pareceu-me que só eu boiava em alguns momentos. A construção tão intensa que ela projetava na sua fala afloreada, dificultava minha compreensão. Pensava "Eu entendi o que era pra entender?" Acho que se eu perguntasse em voz alta, ela diria "Não importa. Reconstrua a partir disso!" Feroz e cruel. Chicoteou minha mente. E os dedos começaram a teclar. Borbulhavam questionamentos, ideias, reflexões, conceitos. Todos familiares, mas com um toque de maturidade. Maturidade que talvez só tenha adquirido ao deixar o curso. Deixar porque quando se deixa um curso de graduação, se deixa com a sensação "poxa, agora que estou pronto!". Ao final da experiência, admite-se a inexperiência. Quase como ousar dizer "quanto mais sei, nada sei!"
Quase como começar a entender do não-texto, mais ainda assim agarrar-se ao seguro e confortável. Questionei-a. O dedo físico fazia cócegas, precisava perguntar: "Sandra não achas essa escrita solitária?" Sim, solitária, questionei eu, porque escrevo sem buscar um sentido, escrevo sem me propor a construir, escrevo pra desconstruir, desapegar, desvincular. Escrevo propondo um problema e não uma solução. Escrevo pra provocar, instigar, fugir, falar do que não deveria falar. E o que acontece com aquele que lê, se assim eu for escrever? Pensei eu. Depois de tanta leitura, escrevo criando a minha escrita, propondo a minha leitura, fugindo do conforto e seguro. Desapegando-me dos clichês e jogando-me no caos. Escrevo na incerteza da aprovação, do retorno, da aproximação. Se minha postura for assim tão radical, não afasto aquele que lê? Se ele não deter da mesma condição, não serei eu solitária? Morrerei com minhas palavras. Ainda que ousadas. Morrerei com o meu não-texto. Eu quero morrer? Não mato assim uma oportunidade? Quem há de me responder? Nem Sandra. Nem Felipe. Nem Manuel. Nem Barthes, Kant, Foucalt, Nietsche e afins. Procurarei eu uma resposta. A minha resposta. No meu tempo. Confessei minha resistência. Ou não-resistência. Eu permito, mas não entrego-me tanto. Talvez esteja no caminho. Talvez comece a entender. Entender que os dois são necessários. Um caminho e nenhum. Opostos de naturezas fundamentais. Complementares Até porque, como Sandra diz, para fazer este exercício, para fazer como o ceramista que possui uma matéria para destruir, também precisamos de uma. Então a leitura é fundamental! A construção também é fundamental. A base. Para então, como uma criança que molda um castelo na areia, pisarmos sem dó. Sem choro. Coisa difícil. Desapegar. Justo eu, justo pra mim. Tão apegada a tudo e todos! Não pela matéria, mas pela segurança, conforto, amor, convicção.
Sandra diz ser uma tensão. Com algum fundo de razão, preocupação. Afinal trabalhar com educação, assim como na vida, não conta com manual de instruções. E o "quem" que criou tudo isso, faz piadinha de nós, porque nada é facilitado. Somos manobristas diários, manobrando adversidades, buscando uma prática. Quem ensina, aprende. Quem ensina, tenta, erra, acerta. Quem ensina...desencontra. Encontra. Reencontra. Quem escreve também.
Para Sandra o texto não se encerra, mas perpetua, prolonga, permite.
Dados não devem ser encarados como verdade, porque o "artista" é a antena do seu tempo. S-E-U tempo. Como Piaget e Freire darão conta da infância de hoje, se escreveram sobre a infância do seu tempo? Naquele tempo. Não que não seja válido, mas não é o único caminho, não é uma verdade absoluta. É uma possibilidade. Sandra propõe com isso que se experimente, provoque e desconstrua. Que paremos de repetir. Somente de citar. Que possamos construir a partir da descontrução. Colocar nossa visão. Entregar-nos. Forçar a pensar o que não pensado, difícil exercício de exaustão, cansaço, esgotamento. Sair do próprio umbigo. Criar uma nova sensibilidade e com ela uma nova forma de pensar. Tentar não falar somente do seu tempo, mas de um tempo por vir. Fazer da própria existência, uma obra de arte. Entender que o aprender é desaprender.
Que o artista é criação. Criação que está nas Artes, Ciência, Filosofia. (segundo Sandra, citando Nietsche). Que o verdadeiro artista é transgressor, inventor. Cria problemas, não soluções. E aí reside minha luz. Aquilo que foi despejado em mim e eu rejeitei por tanto. Vomitei. Renunciei. E aqui estou eu, recolhendo esse vômito. (uso de empréstimo o "desboque" de Sandra). Fazendo dele minha nova refeição. Tirando o nojento e o feio, ou colocando-os, tentando enxergar o que não é pra ser enxergado. (você se enojou com estas palavras? Ótimo. Faça isto com a leitura de tudo. Vomite, recolha seu vômito e coma).
Ousadia é dureza, rejeição, desconforto, falta de aceitação. Reside no preconceito dos medíocres. E eu fui muito medíocre.
Não que eu concorde com tudo, que isso facilite pra mim, mas eu gosto. Estou gostando. Começando a gostar.
É difícil. Por isto aqui estou eu. Tentando. Entregando-me às palavras, aos pensamentos frenéticos, dando leveza ao dedos-tecladores e permitindo-me.
Tentando usar as palavras numa tentativa cada vez mais difícil, pois "mestrar" enfraquece o discurso, já que as palavras perdem o sentido, quando se desapega deles. Elas tornam-se lisas, puras e é difícil o exercício de não poluí-las, impregnar verdades, conceitos prévios, pensamentos de pensadores.
Aqui estou eu, tentando brincar com as palavras, minhas palavras. Aqui estou eu, talvez, ousadia da minha parte, propondo a minha escrileitura. Minha escrileitura de Sandra. Desbocada Sandra. Nesta terça-feira, 31 de agosto.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Segunda-feira: tudo de novo!

Não escrevi no final de semana. Não deu vontade. A tosse persiste. (não fui no médico sexta)
E também porque os textos de Teorias da Educação parecem recortes de algo muito mais denso.
Não é uma leitura difícil (os diálogos de Platão em "O banquete"), mas exige extrema concentração.
Nem sempre a cabeça está boa para se concentrar. Estou enrolando. No máximo até hoje!
Dois textos lidos. Faltam mais dois. E tooooodos os outros dessa semana.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Sexta-feira nublada

Acordei tossindo. Gripe muito chata. Se é que é gripe. Marquei médico de tarde.
Cancelei um almoço com amigas. Mandei e-mail pra dois colegas perguntando novamente da aula de ontem e me dei conta que não irei pra universidade xerocar os textos da semana que vem.
Droga. Vou ter que ir segunda fazer isso. Ou faço na terça antes da aula com o Profº Waldimir. Não sei. Será que ele vai dar a terceira aula citando todos os livros de novo? Espero que não.
E prometi não procurá-lo no final pra trocar ideias como da última vez em que tomei meia hora do seu tempo. Coitadinho. (falo sinceramente, porque às vezes se não me cortam eu me "passo").
Continuo motivada a escrever.
Hoje comecei a ler os textos da aula de Teorias da Educação. "O banquete de Platão". Só comecei e deixei de um lado um pouco. Não pareceu leitura gostosa no momento. De tarde eu tento de novo.
Pois é...ler no mestrado (ou mesmo na gradução) é um exercício de tentativa. Nem sempre a cabeça está preparada pra se doar aos textos. Às vezes a "cabeça" (ou nós mesmos) estamos em outro lugar. Com outros pensamentos. E quando o texto não consegue provocar concentração é melhor deixar de lado ou acaberemos fingindo uma leitura.
Quem nunca leu um texto e de repente se deu conta que ligou o piloto automático e não estava mais prestando atenção porque estava com o pensamento em outro lugar?
Daí tem que voltar no início e recomeçar a leitura...quando o pensamento foge de novo, melhor parar e tentar em outro momento. Certo?....certo? é não sei...
Dois colegas responderam sobre a aula anterior. acho que não fiquei surpresa.
Na aula eles discutiram sobre a defesa de mestrado (da pesquisadora que instigou os alunos a investigarem os mistérios da Lagoa do Peri); discutiram os textos e fizeram o exercício proposta por Gilka (naquele texto super legal que comentei).
Mais tarde farei em casa. Sozinha. Cronometrando. Aí posto aqui.
Mais tarde falo dos textos de Teorias da Educação.
Ah! Os títulos sem postagens? É pra eu não esquecer das coisas que eu queria falar antes de tornar o blog diário. sim, depois que eu colocar tudo em dia (será possível fazer isso?)
Coisas que aconteceram semana passada e quero falar sobre, mas como todos meus posts são grandes, vou fazendo aos poucos.
Sexta-feira 14:14. Lasanha no forno. Vou tentar almoçar.